Patrícia Galvão, a Pagu, está em novo livro da escritora Lúcia Teixeira

Patrícia Galvão, a Pagu, está em novo livro da escritora Lúcia Teixeira, uma compilação de relíquias garimpadas por ano

Por: Arminda Augusto  -  11/11/23  -  07:32
  Foto: Vanessa Rodrigues/AT

Divido com você a urgência do tempo. Entenda, por favor. Assim foi desde o início, urgente. Um primeiro livro deu início ao que se tornou uma trilogia, logo depois de ter Patrícia Galvão como minha patrona na Academia Feminina de Ciências, Letras e Artes de Santos, em 1988. Algo que seria significativo, mas encerrado. Contudo, nunca foi. A partir daí, Pagu aparece com suas urgências de tempo. Foram muitas outras pesquisas, documentos, depoimentos com novos dados sobre Patrícia Galvão. Um trabalho de preservação da sua memória, resultando em novos livros, artigos, documentários, exposições, debates, mostras de teatro, palestras, filmes, lives e realizações que alimentaram as discussões e os diálogos, originando muitas teses, produções artísticas e culturais, em diferentes partes do Brasil e do mundo”.


Assim escreve Lúcia Teixeira na abertura da apresentação de seu quarto livro sobre Patrícia Galvão, Os Cadernos de Pagu, a ser lançado neste sábado (11), às 17 horas, no salão principal da Pinacoteca Benedicto Calixto. Com mais esse livro, Lúcia já é considerada a maior estudiosa e pesquisadora da obra e do legado de Patrícia Galvão, a Pagu, que morreu em Santos em dezembro de 1962, aos 52 anos de idade.


Apesar de dar nome ao Centro de Cultura de Santos e ter sua militância muito ligada à Cidade, nem todos conhecem a dimensão da obra deixada por Pagu, considerada a musa da Antropofagia, mulher revolucionária, jornalista combativa e inconformada com as mazelas sociais, com os rótulos e convenções sociais que enxergavam a figura feminina com padrões conservadores e limitadas de direitos. Ativista política e intelectual, foi presa 23 vezes no Brasil (inclusive na antiga Cadeia Velha) e na França.


Lúcia Teixeira pesquisa a vida e a obra de Pagu há mais de três décadas, e conseguiu reunir nesse garimpo de desenhos, grafismos, resenhas, poesias, poemas, rabiscos e cartas mais de 3 mil documentos originais, coletados a partir do contato que teve com amigos, pessoas com quem trabalhou e com os dois filhos que teve, Ruda de Andrade (com Oswald de Andrade) e Geraldo Galvão Ferraz (com Geraldo Ferraz), ambos falecidos. Esse acervo cheio de relíquias está no Centro de Estudos Pagu Unisanta, universidade da qual é presidente.


Relíquias históricas
Pagu já havia mobilizado as escritas de Lúcia Teixeira em uma trilogia: Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo; Croquis de Pagu; e Viva Pagu – Fotobiografia de Patrícia Galvão, indicado ao Prêmio Jabuti, em 2011.


Em Os Cadernos de Pagu, a autora reproduz centenas de manuscritos, rabiscos em papel, desenhos e até bilhetes que coletou em suas pesquisas. Como Lúcia conhece sua trajetória e todas as fases de sua vida, o material vai acompanhado de explicações e notas que dão sentido aos recortes, contextualizam em que momento foram feitos e onde estava Pagu naquele momento, relíquias que a autora guarda a respeito de uma mente brilhante, inquieta, amorosa, rica e também angustiada, na medida em que nem sempre foi compreendida – nem pelos mais próximos.


“Pagu foi muito injustiçada por ser uma mulher libertária, rigorosa com ela mesma e com os outros. Tinha suas angústias e tristezas, como qualquer pessoa, e nunca teve medo de manifestar suas críticas, também nunca teve medo de mudar de opinião e expressá-la”, diz Lúcia.


Os cadernos
Os cadernos estão divididos em cinco, cada um com sua coleção de reproduções dos manuscritos de Pagu: Álbum de Pagu (1929), caderno manuscrito do livro Parque Industrial (1931 a 1933), e depois da peça teatral homônima, caderno escrito na prisão, a que ela deu o nome Microcosmo - Pagu e o Homem Subterrâneo (1939), manuscritos da peça Fuga e Variações (1954), e cartas inéditas endereçadas tanto a Oswald de Andrade como para o filho Rudá.


O livro
O Cadernos de Pagu tem 330 páginas, é uma publicação das editoras Nocelli e Unisanta e tem a quarta capa assinada pelo escritor Ruy Castro. O preço original é R$ 69,90, mas hoje, lançamento, custará R$ 50,00, com renda revertida para entidades beneficentes.


Homenageada na Flip, Pagu foi jornalista de A Tribuna
Pagu será a grande homenageada da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, que começa dia 22 e segue até 26 deste mês na histórica cidade do Rio de Janeiro. Como define Fernanda Bastos, uma das curadoras da 21ª edição da feira, “a homenagem joga luz à obra de Pagu, uma autora que representa a nossa esperança frente à mudança. A escritora nos inspira à emancipação, por meio de sua busca pela arte revolucionária e pela revolução nos costumes, com a defesa de vida mais digna para as mulheres e as pessoas mais pobres do nosso País”.


Parte da vida profissional de Pagu se deu na redação de A Tribuna, onde começou a trabalhar em 16 de maio de 1956, assinando uma coluna com notícias de TV (“Viu! Viu! Viu!”). A partir de 1957, Pagu passa a assinar duas colunas de sua autoria, com longa duração em A Tribuna, Palcos e Autores e Literatura, com o pseudônimo de Mara Lobo.


Junto com o marido Geraldo Ferraz, também jornalista de A Tribuna, desenvolveu várias atividades culturais, como o I Festival de Teatro Amador de Santos e Litoral, junto com a Comissão Estadual de Teatro e a Comissão Municipal de Cultura. Também fazia parte desse movimento cultural e vanguardista em A Tribuna o colunista Evêncio da Quinta, que durante anos assinou como Zêgo a coluna sobre televisão Pois é...


A última coluna de Pagu foi em 24 de junho de 1962, Cacilda num Grande Acontecimento Teatral: A Visita da Velha Senhora.Pagu morreu seis meses depois, em 12 de dezembro.


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