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Sábado

16 de Novembro de 2019

Voluntárias confeccionam cobertores a idosos da região

Pedacinhos de amor: “Aqui, brinco que não é um patchwork, é Bethwork”, brinca Elisabeth, a organizadora

Pedaço por pedaço, tecidos são unidos pelas mãos de um grupo de amigas que, em comum, têm o amor ao próximo. Elas dividem umas com as outras o trabalho de produzir cobertores para idosos que vivem, principalmente, em lares espalhados pela Baixada Santista. Há 10 anos, a Retalho com Amor, comandada pela cabeleireira Elisabeth Malheiro Ferreira, de 68 anos, faz esse trabalho de construir, retalho por retalho, as peças. E hoje, graças à ajuda de outras mulheres, ela consegue entregar um kit aos acolhidos, que ainda contém touca, sapatinho (para mulheres) ou meia de lã (para homens), cachecol e almofada. “Aqui, brinco que não é um patchwork, é Bethwork”, diz sorridente, enquanto mostra como funciona a produção no galpão, atrás do seu salão de beleza, no bairro Embaré, em Santos. Tudo é aproveitado, desde tecidos de cetim até veludo, helanca, veludo.

Elisabeth conta que a Retalho começou em 2009, após ela ter um problema na coluna. Afastada, começou a costurar uma colcha com pedaços de tecido que tinha em casa. Fez uma para ela e outra para o filho. Ainda com a sobra, resolveu confeccionar mais uma. A cunhada, Maria Angélica, e as amigas, Maria Hortência e Inês, entraram na onda e também começaram. “E eu falei: na minha casa, não. Vai virar uma bagunça. Fomos para o salão dos fundos e assim nasceu a Retalho com Amor. Naquele tempo, fizemos 20 mantas para doação”, lembra Beth, que as entregou na Casa Irmãs Missionárias da Caridade, em Santos, que fica no Rádio Clube, na Zona Noroeste. 

Agora, uma vez por ano, o grupo faz uma rifa para comprar malha de algodão (forro) e a manta acrílica, que não vêm com doações. Os outros tecidos são todos doados. “Você não imagina o quanto as confecções jogam fora os tecidos, os pedaços, e dá para aproveitar tudo”, afirma ela, que usa até os materiais da parte de trás dos sofás, que, muitas vezes, são jogados fora pelos tapeceiros.

Criatividade

Maria Angélica Ferreira, de 67 anos, diz que a amiga Beth é muito criativa. As mantas são todas feitas de maneira muito organizada, com a cara de ‘Bethwork’ mesmo. “Ela nos cobra muito”, diz ela, aos risos. “Mas o resultado é lindo, não é? E a melhor parte, para nós, é a entrega. Esses idosos ficam mais felizes pelo carinho que levamos a eles do que pelos apetrechos que vão protegê-los do frio”, diz.

Essa etapa também é a parte mais emocionante para Lourdes Flores, de 75 anos. “Realmente não tem momento mais gratificante.

O ‘pagamento’, a gente brinca, é feito ali”, diz ela, que está há quatro anos fazendo este trabalho.
Ercília Rodrigues, de 66 anos, concorda com a amiga. “É recompensador ver como eles são gratos”, diz. Mas ressalta também que há uma face dura, que nem sempre as pessoas percebem. “É triste ver que essa realidade, muitas vezes de abandono, ainda é muito presente no dia a dia dos que vivem nesses lares”, completa.

A aposentada Sônia Zoletti, de 65 anos, diz que, até então, não havia entendido como essa solidão poderia acontecer. “É uma realidade que, para quem não conhece, até então, choca muito”, diz.

Gratidão

Há apenas um mês por lá, Alice Lamas, de 63 anos, é a novata do grupo. Tinha uma amiga em comum que frequentava o salão da Beth, que a indicou para o serviço, já que sua cabeleireira havia mudado de cidade. “Acabei conhecendo a Retalho com Amor, fiquei apaixonada pela trabalho e resolvi vir. Eu já participo de um outro grupo de voluntárias, então, foi mais um jeito de ajudar”, explica ela.
Completam o grupo, ainda, a experiente Sueli Mateus, de 75 anos, Dulce Quinta, de 73, e Monaliza Almeida, de 56. Dona Dalila, de 90 anos, infelizmente, não estava no dia da reportagem. “Ela é nossa estrela. Mora num lar e vem todas as segundas-feiras, sem falta. Hoje, realmente, é porque estava muito gripada, segundo o filho”, explica Beth. 

Doação

A maior doação que Beth gostaria de ter é tempo das pessoas. “Quero que a Retalho inspire mais pessoas a ajudar, porque é uma causa nobre, que merece atenção. O que nós fazemos é bem pequeno comparado ao que é realmente necessário. Se eu conseguir, ao menos, inspirar outras pessoas, já fico feliz”. 

Apesar de ter muita solidariedade das pessoas que doam tecidos, a Retalho com Amor ainda precisa de ajuda. Por isso, já está à venda a rifa de uma colcha, cujo valor arrecadado será revertido para compra daqueles materiais que não são doados. Para ajudar com R$ 20 é só ligar, de terça-feira a sábado, em horário comercial, para o telefone 3233-5374 e falar com a própria Beth.

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