Veja como lidar com os principais problemas emocionais na pandemia e no isolamento social

Entre eles estão os picos de ansiedade, o medo de sair de casa e conflitos amorosos e familiares, diz a psicanalista Teca Pereira

Nunca pensamos que viveríamos em um mundo como o atual. O isolamento social, ao mesmo tempo em que protegeu a nossa saúde física, em muitos casos acabou criando problemas emocionais. Ou melhor: evidenciou dilemas pessoais, profissionais, amorosos e familiares que já existiam antes do novo coronavírus, mas que a gente ainda desconhecia.

Na entrevista a seguir, a psicanalista Teca Pereira mostra como administrar os picos de ansiedade, o medo de sair de casa e outras questões que se tornaram tão comuns. Formada em Psicanálise, pós-graduada em Psicanálise pelo Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas (NPP) e jornalista especializada em Jornalismo Científico, ela também explica por que algumas pessoas tendem a desrespeitar ou minimizar a pandemia e as regras de convivência do novo normal.

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MEDO Acredita que a pandemia, o isolamento social e a necessidade de ter hábitos de higiene e limpeza mais severos fizeram com que algumas pessoas ficassem meio paranoicas?
Embora haja quem use de forma pejorativa o termo histeria coletiva, isso, de fato, tem acontecido em alguns casos. Devemos levar em consideração três grupos: o das pessoas que estão seguindo as orientações de maneira correta e na medida ideal; o das pessoas que se encontram extremamente assustadas e passam a ter atitudes exageradas; e o das pessoas que negam a gravidade da situação, dizendo que é uma gripezinha ou que não vão pegar a doença.

Falando especificamente desse último grupo: não é que essas pessoas não tenham medo. Muito pelo contrário, trata-se de um medo mascarado. Geralmente, essa atitude de negação funciona como um mecanismo de defesa, pois a pessoa não sabe como lidar com a questão.

O que mais a pandemia evidenciou?
O ser humano acha que tem o controle de tudo. A nossa rotina e a nossa agenda ajudam a reforçar essa ideia, essa sensação. Com a pandemia, pessoas que, para funcionar, dependem da ilusão de que tudo está sob controle acabaram adoecendo do ponto de vista emocional. O ser humano também acredita que é potente ao extremo, só que, diante do vírus, que é invisível, teve de encarar de frente a sua impotência e é difícil aceitar isso.

Nos meus atendimentos, on-line desde o início da quarentena, passei a receber muitos pacientes novos, que, por causa da realidade atual, buscaram ajuda profissional. Vários apresentavam uma forte crise de ansiedade e alguns estavam até hiperventilando, caminhando para a síndrome do pânico. Outros se deprimiram. Houve casais em crise.

É importante deixar claro que não foi a pandemia que provocou tudo isso; esses problemas já existiam, mas as pessoas ainda não tinham se dado conta disso. O isolamento social, portanto, foi a gota d’água para uma série de questões familiares, pessoais, afetivas e profissionais.

DIÁLOGO Qual é o melhor jeito de lidar com a ansiedade?
No dia a dia, todo mundo tem algum grau de ansiedade. O melhor a fazer é desviar o pensamento para outras coisas, praticar exercícios em casa, preencher o tempo com atividades agradáveis dentro do que hoje é possível.

Só que, em alguns casos, a ansiedade é tanta que a pessoa deixa de dormir direito ou tem insônia, o seu apetite muda – geralmente para menos – e há um aumento no consumo de cigarro ou de bebidas para afagar os próprios sentimentos. Aí, o mais indicado é procurar ajuda especializada.

E o que sugere para administrar os conflitos que acabam surgindo em casa?
Ficar em casa, sem poder sair, cansa. Ao mesmo tempo em que a pandemia trouxe à tona conflitos familiares, também houve muitas famílias que se reaproximaram, porque, antes, devido à incompatibilidade de horários, quase não conseguiam ficar juntas.

De um jeito ou de outro, recomendo o seguinte: se algo acontece ou começa a incomodar, as pessoas devem sentar e conversar a respeito. O diálogo é fundamental não só para as famílias como para casais, enfim, para todo mundo. E é fato: um dia, alguém não vai acordar legal e o outro vai ter que segurar as pontas. 

ESSÊNCIA A reabertura de bares e shoppings tem levado a aglomerações e ao desrespeito de várias regras do “novo normal”. Que tipo de leitura se pode fazer disso?
Além da negação da realidade e do fato de o ser humano, principalmente o jovem, se achar superpotente e imune a tudo e a todos – aspectos sobre os quais já falamos no início da entrevista –, isso pode ter a ver com a necessidade que a gente tem de se sentir vivo, e sair de casa traz esse tipo de sensação.

Também pode ter a ver com uma vontade enorme de acreditar que voltamos à normalidade e que não existe mais perigo. Ainda há o seguinte: independentemente da pandemia, com frequência, o ser humano quebra regras, em menor ou maior escala. No Brasil, por exemplo, muita gente fica criticando a corrupção na política e, no dia a dia, comete pequenos desrespeitos às normas do condomínio onde mora ou paga para o filho ter a carteira de motorista etc.

Outro agravante é que há quem defenda a tese de que algumas pessoas agem de determinado modo porque estão seguindo cegamente a boiada, um líder. Não existe nada disso. A gente já tem aquilo no nosso interior, nós já somos daquele jeito, apenas precisamos que alguém venha e legitime aquilo.

E há pessoas que ficam apontando as supostas falhas alheias, só que são as primeiras a descumprir as regras.
Nesse caso, é preciso entender algo importante: o que eu aponto como errado no outro não é necessariamente uma questão dele e, sim, minha, porque, se estou tranquilo no que diz respeito a determinado aspecto, aquilo não deveria me incomodar.

O outro acaba funcionando como uma espécie de espelho?
Sim, mas a pessoa não consegue enxergar isso. Trata-se de um processo inconsciente, que fica martelando no nosso interior. Afinal, é bem mais fácil julgar e criticar o outro do que olhar para si mesmo e admitir os próprios erros. Existe uma frase célebre do Freud: “Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”.

FELICIDADE Em tempos de pandemia, quais são os sinais de que alguém não está bem?
A pessoa tem a impressão de que a vida não anda, não evolui e que perdeu o sentido. Ela não encontra forças para fazer suas atividades rotineiras e fica com uma irritabilidade exagerada. Tem mais um aspecto: geralmente a pessoa não sabe nomear o que está acontecendo com ela.

Fora isso, estar feliz demais, a tal da euforia, também é um sinal de problema. Ninguém fica feliz o tempo inteiro. É normal um dia ou outro a gente acordar chateado ou mal-humorado, o que não pode é isso persistir, se prolongar, e nos paralisar.

Essa alegria excessiva pode indicar o quê?
Que a pessoa não entra em contato com as suas questões mais profundas, que nem sequer sabe quais são elas. É uma espécie de fuga, de negação de que se tem problemas. Alguém assim, quando está sozinho, tende a ficar angustiado e procura alternativas para driblar isso, consumindo demais redes sociais, séries e até drogas.

É tudo muito exagerado, não existe um equilíbrio, porque a pessoa, o tempo inteiro, precisa estar se sentindo bem. O que é diferente de ser positivo, otimista ou bem-humorado; trata-se de uma ansiedade feliz. Você percebe que a pessoa é extremamente ansiosa. Ela está sempre em busca de algo, não gosta de ficar sozinha e dificilmente para em casa.

Essas pessoas devem ter levado um baque e tanto no isolamento social.
Sem dúvida. Algumas provavelmente adoeceram do ponto de vista emocional; outras, em negação, continuaram saindo e fazendo reuniões em casa. Por falar em felicidade, existe um problema sério, principalmente entre os jovens, que é a falsa felicidade das redes sociais. Como nelas as pessoas sempre parecem estar felizes, é normal que comecemos a fazer comparações: não tenho o melhor emprego ou relacionamento do mundo, minha vida não é tão legal assim...

Por mais que a gente tenha consciência de como as redes sociais funcionam, essa falsa felicidade bate muito forte no nosso emocional, e estimula uma busca pela felicidade constante, ainda mais entre os jovens. Essa ideia também é reforçada pelas propagandas e pelas novelas, filmes e séries sempre com final feliz. Costumo dizer para as minhas pacientes que não há coisa pior para a mulher do que os filmes da Disney.

O que mais chama a sua atenção na convivência das pessoas, que anda mais virtual do que nunca?
Houve uma mudança de comportamento curiosa: antes da pandemia, as pessoas não andavam dando tanta importância para o contato com o outro, hoje é o inverso. Não basta mais só manter uma relação virtual, por exemplo pelo WhatsApp, com alguém. A gente quer estar com o amigo, sair com ele, ir tomar sorvete, ao cinema, ao bar...

SÍNDROME Como se deve lidar com o receio de sair de casa?
Ouvi um termo que achei bem interessante: muita gente está com a chamada síndrome da casa, ou seja, considera o seu lar o lugar mais seguro do mundo. Há pessoas que não estão indo nem à janela, com medo de se contaminarem. Esse receio exagerado também é um problema.

Tenho sugerido para pacientes que não são do grupo de risco e que apresentam esse medo exacerbado que experimentem sair, devidamente protegidos, para dar uma volta no quarteirão, para que revejam a forma como encaram a situação.

O que sugere para quem é do grupo de risco e, mesmo com a retomada da economia, deve ficar em casa?
Quem ainda não encontrou uma atividade prazerosa, on ou off-line, para fazer dentro de casa deve ir atrás de uma. Falando especificamente dos idosos, o mais duro para eles é ficar longe dos filhos e, acima de tudo, dos netos. Manter o contato por videochamada é fundamental.

E quem possui pais idosos de jeito nenhum pode deixar de atender uma ligação deles, porque essas pessoas andam com uma necessidade muito grande de conversar sobre o dia a dia, sobre sua rotina. É preciso dar um amparo emocional, ligar sempre para saber como estão e mostrar que não estão sozinhas.

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