Uma história de amor e desencontros

Crônica de Beth Soares traz texto sensível e romântico

Quem disse que família se constrói apenas em terra firme e debaixo de um mesmo teto? O número cada vez maior de canoas havaianas deslizando nas águas entre a Ponta da Praia, em Santos, e a Ilha Porchat, em São Vicente, prova que todos podem integrar um clã do mar e dar mais movimento à vida.

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Para além dos fatores físicos, embarcar em uma aventura marítima em equipe e fazer disso um esporte traz inúmeros benefícios para a mente. O maior deles, sem dúvida, é a sensação de pertencimento.

“Saber-se importante para o outro e, ao mesmo tempo, entender que os demais também dependem de você é o fundamento maior dessa modalidade”, resume o veterano no esporte, Reginaldo Ferreira Lima Filho, o Naldo.

Aos 54 anos de idade e surfista desde os 10, ele está prestes a completar 20 anos de remadas e explica para os leigos o que todo autêntico remador aprende já na primeira aula.

“Quando estamos no mesmo barco, todos somos fundamentais, todos temos um papel a cumprir. A prática exige uma relação de confiança e parceria. Se não for assim, não há avanço. É muito louco, mas a canoa parece que é viva. Ela não admite vaidades. Não precisa de um super-homem. O que ela quer é um time”.

Não tem palavra melhor para definir a atividade do que ‘Ohana’. O termo é usado desde tempos imemoriais pelos povos polinésios, grandes desbravadores do Pacífico e inventores das canoas que inspiram santistas e comunidades litorâneas mundo afora.

Ohana quer dizer família em seu conceito mais amplo. Extrapola graus de parentescos e elos sanguíneos. “A liga é a amizade, o companheirismo e a vontade de estarmos juntos no mar”.

Naldo conta que em 2019 a canoa cumpriu mais uma vez sua função original. Naquele ano ele criou um grupo no whatsapp e foi convidando conhecidos para embarcar no desafio de completar a Volta à Ilha de Santos Amaro.

A tradicional competição anual parte de Santos e tem percurso de 75 km. A participação não rendeu pódio aos grupos mistos formados, mas garantiu prêmio de maior valor: a criação de uma espécie de

‘clube’ de amigos do mar que navega junto aos finais de semana em curtas e longas aventuras, regadas a risadas, aprendizados e muito afeto.

O ‘clube’ não é fechado. Pelo contrário. Agregadores, os amigos canoístas estão sempre convidando novos membros a experienciar este estilo de vida saudável. Porte físico, capacidade aeróbica, sexo, idade ou profissão não importam. Quem entra para uma equipe, só precisa querer remar e ter senso coletivo.

A brincadeira de celebrar a vida e a água salgada também forja campeãs. Heloísa Corrêa, de 52 anos, é uma delas. Com suas companheiras Simone Fernandes, Maria Valéria Affonso, Patrícia Dias Bevilacqua, Claudia Sá e Vintheri de França, conquistou o campeonato panamericano de Va’a (esse é o nome oficial do esporte) em Rapa Nui, Ilha de Páscoa, no Chile, pela categoria de remadoras com mais de 50 anos.

“Eu amo competir. Mas o maior resultado das remadas é que ao formarmos equipes diferentes a cada ano, nos tornamos todos amigos de vida inteira. Não vemos a hora de chegar o fim de semana para nos reunirmos. A gente faz aventuras, como dar a volta na Ilha de São Vicente”.

A última foi em dezembro do ano passado. O percurso? 43 km sem revezamento! “Fomos brincando, parando, tirando foto. Foram seis horas muito gostosas”.

Além de Helô e Naldo, também faz parte do grupo, batizado de ‘Nonames’, o empresário da área de sustentabilidade Søren Knudsen.

Ele explica que tão diverso quanto os possíveis nomes das embarcações - canoas havaianas, wa’as, outrigger canoes - é o entendimento das pessoas sobre o significado da modalidade. “Quando se pensa em canoa, talvez família não seja a primeira palavra que venha a mente. Saúde, aventura, desafio, amizade, sim. E é nesse conjunto de vivências que a canoa cria o ambiente que ela sempre teve: Ohana, ou seja, família em havaiano”.

Um grande curioso e admirador da história dos povos navegadores, o empresário lembra que nessas embarcações os polinésios se aventuraram sobre o Pacífico, que chamavam de ‘Ara Nui’, em

português ‘a grande via’. “Colonizaram todas as ilhas habitáveis desde Aotearoa, Nova Zelândia, no Sul, até o Havaí, no Norte, e Rapa Nui, a Ilha de Páscoa, no Leste. As grandes canoas a vela eram muito mais que o meio de transporte. Eram a sobrevivência de quem estava nelas. Eram a família em quem eles confiavam e de quem dependiam. Sem um, não tinha o outro”.

Para Naldo, as canoas sempre serviram ao povo. Extrativistas, os habitantes do Triângulo Polinésio precisavam ir de uma ilha a outra para coletar alimentos e matéria-prima para sua sobrevivência. Nessas viagens todos navegavam. Homens, mulheres, idosos e crianças em comunhão com o mar.

Não é à toa que o instrutor de canoa havaiana Daniel Campos Ruiz exalta o caráter inclusivo da prática. Dan, como é conhecido, ensina gente de várias idades e perfis a remar. Ele mesmo foi ‘abraçado’ pelo Va’a após ser proibido de praticar os esportes que gostava. “Tive lesões no joelho duas vezes e fui obrigado a deixar de jogar handebol, correr e nadar. O médico me recomendou a canoagem para não parar de me exercitar”.

Remar virou paixão e profissão. Enquanto conduzia os alunos na montagem de uma canoa dupla, Dan nos descreveu os múltiplos benefícios de optar pela canoa havaiana: condicionamento físico, melhora da capacidade respiratória, contato com a natureza e o desfrute de lindas paisagens, desconhecidas por muitos santistas.

A borracha que amarra os dois cascos de canoa que formam o catamarã para 12 pessoas usado nas aulas de Dan nos pareceu frágil à primeira vista. Não é. “O material é ideal justamente pela flexibilidade na hora de encarar as oscilações do oceano e garantir a estabilidade de todos”, explicou.

Assim também é o esporte marcado pela diversidade de adeptos. Quem parece frágil vira gigante no mar e só entende isso os que entram no barco para testemunhar. “Muita gente vem com depressão para aulas. Também pessoas com deficiências físicas e sedentários. Todos têm um lugar. Todos têm seu papel e aprendem a fazer tudo”.

Não é preciso sequer seguir um estereótipo de caiçara ou esportista de aventura. Taís Di Giorno, de 46 anos, que o diga. Jornalista e presidente de uma cooperativa financeira e paulistana da gema, a

executiva conta que se encontrou no esporte. A primeira aula ocorreu em janeiro, num domingo de sol e céu azul.

“Precisava fazer algo pelo meu corpo e pela minha mente. Cheguei tensa na primeira aula e com receio de atrapalhar os demais”.

Depois de mergulhar na Praia do Cheira Limão, ver tartarugas e entender que dava para manter os movimentos coordenados com os companheiros, Taís relaxou. “Só sei que não vou mais parar. Moro em São Paulo, mas penso em alugar um apartamento em Santos para continuar as aulas. Me surpreendi com a beleza das praias e o conceito de time que pode, inclusive, me auxiliar no dia a dia corporativo”.

Outra remadora paulistana é a médica psiquiatra Lígia Flório, de 50 anos. Como profissional de saúde mental ela recomenda a atividade pelos efeitos obtidos com a maior capacidade de concentração. “Você tem que estar sintonia com as pessoas que você nem conhece. Então você se observa e observa o outro. Busca-se a sincronia. Os movimentos dos corpos têm que estar parecidos. Nesse processo, a pessoa acessa áreas tanto neurológicas quanto motoras do corpo. Há ganhos emocionais decorrentes de estar aberto, disponível e focado no momento presente”.

O relato pessoal da Lígia remadora confirma o que diz a Lígia especialista na psique humana. “Comecei em 2014, após o convite de uma amiga. A minha vivência inicial de não estar no trânsito da Capital numa sexta-feira à noite, de poder olhar em volta e ver o mar, a lua, tudo isso em contato com outras pessoas e sentindo o movimento do meu corpo foi uma grande descoberta. Mudou minha vida. Ganhei uma consciência corporal enorme. Foi um lindo encontro comigo mesma”.

Observar o brilho do luar se movimentando nas ondas, ouvir o barulho dos remos em contato com a água, sentir o cheiro da maresia e a sensação da brisa marítima no rosto. Há seis anos esses e outros prazeres proporcionados pela canoagem também conquistaram Carla Tamioso.

A analista em comércio exterior, de 48 anos, procurou o esporte após o término de um relacionamento. “Comprei minha primeira canoa

sem pretensão de participar de campeonatos. Quando dei por mim, já estava disputando tudo”.

Neste período, a canoísta colecionou alguns primeiros e segundos lugares. “Já competi no Rio, em Niterói, Cabo Frio, Brasília. Hoje estou me preparando fisicamente e fazendo aulas particulares para participar de provas como a Aloha Spirit, em Ilhabela”.

Independentemente dos títulos, para Carla e seus companheiros de remadas, no entanto, a grande vitória é ver avançar a grande família do Va’a na região, seja em canoas individuais (OC1), duplas (OC2), para seis (OC6) ou para mais pessoas.

E a história explica um pouco desse espírito, como resume Søren Knudsen, em um artigo inspirado sobre a evolução dessa modalidade. “Santos, nascida numa estreita faixa entre a terra e o mar, é berço de esportes marítimos. Desde o tempo das grandes canoas de voga dos índios Tupinambás o remo é tradição no nosso litoral. Agora, mais uma vez, nas canoas havaianas, a confiança na equipe é essencial. E é na confiança que se escolhe a família do mar”.

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