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Quinta-feira

6 de Agosto de 2020

Testes de vacina brasileira contra Covid-19 começam em maio, diz médico que lidera equipe

Jorge Kalil ainda alerta: 'Nem todo mundo que ficou doente produziu grande quantidade de anticorpos para se defender de nova investida do vírus'

Se, hoje, os cientistas trabalham com a possibilidade de desenvolver uma vacina para o coronavírus em até dois anos é porque, em 2017, uma conferência realizada na França deu o start em um programa para criação de estratégias globais de combate a uma eventual pandemia.

O imunologista gaúcho Jorge Kalil, de 66 anos, foi o único cientista não só do Brasil como de um país subdesenvolvido a participar desse encontro e, no momento, figura como um dos cinco experts internacionais que avaliam o programa. Diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), coordenador do Instituto de Investigação em Imunologia (III) e doutor em Ciências pela Universidade Sorbonne, da França, o médico ainda lidera a equipe que trabalha na vacina para a Covid-19 no Brasil.

Na entrevista a seguir, Kalil conta como está o desenvolvimento dela, diz o que intriga os cientistas no coronavírus, condena a defesa de tratamentos como o que utiliza a cloroquina e pede para as pessoas respeitarem o isolamento social e não minimizarem a pandemia.

CORRIDA Como está o desenvolvimento da vacina nacional para o coronavírus?

Existe uma corrida mundial para isso e vários rumos diferentes para se chegar a esse produto. Mais de 100 laboratórios realizam experimentos. Se um já começou a fazer testes clínicos, não significa que, necessariamente, esteja na frente. Aqui no Brasil, desde que começamos a trabalhar na vacina, houve um forte empenho intelectual para definir qual seria a melhor estratégia a ser adotada. Optamos por utilizar partículas que se assemelham ao vírus, as VLPs, sigla que vem do inglês e que significa virus like particles. Elas são como vírus ocos, ou seja, uma casca do vírus, sem o componente que permitiria que ele se multiplicasse.

Dentro da VLP, colocamos pedaços da proteína do coronavírus que adere à nossa célula, porque sabemos que os anticorpos gerados especificamente contra esses fragmentos são os melhores, por realmente neutralizarem o vírus. Nós vamos direto ao alvo.

Já tem ideia de quando vai começar a testar a vacina?

As partículas se encontram prontas. No momento, estamos sintetizando os fragmentos do coronavírus que serão inseridos nas VLPs. Não extraímos esse material direto do vírus e, sim, o processamos em laboratório. Vamos começar os testes com camundongos no meio de maio. Se obtivermos bons resultados, a próxima etapa será imunizar camundongos transgênicos – no genoma deles é inserido o gene que codifica para a proteína que é a receptora humana do vírus, portanto esse animal fica suscetível à Covid-19.

Tudo dando certo, a fase seguinte será produzir grandes quantidades da vacina para confirmar sua segurança em animais pré-clínicos e partir para os testes em humanos. Se tivermos bastante sorte, entraremos nesse estágio dentro de um ano.

Muita gente me pergunta para que adianta fazer a vacina se ela vai demorar para ficar pronta. Veja: o coronavírus veio para ficar. Ele é extremamente contagioso, pela via respiratória, que é a que mais difunde, e não só deixa as pessoas realmente doentes como mata um monte de gente. O vírus vai ficar circulando até que 70% ou 80% da população mundial já tenham sido infectadas ou até que haja a vacina, pois quem a toma cria anticorpos neutralizantes, do mesmo modo que acontece com quem fica doente. E é possível que o vírus volte sempre. Não podemos esquecer que existem várias etapas na luta contra a pandemia.

Quais são elas?

Atualmente, a única coisa que temos de eficaz é o isolamento social, porque ele diminui a quantidade de transmissão e, com isso, não sobrecarregamos o sistema de saúde, que não daria conta de atender todo mundo ao mesmo tempo, tendo em vista que 15% das pessoas com Covid-19 precisam ser internadas e boa parte desses casos fica na terapia intensiva por três semanas.

Depois do isolamento, o próximo estágio da luta contra a pandemia é encontrar maneiras de sair novamente para trabalhar, mas ainda haverá o risco de a doença voltar, até que tenhamos imunizado de 60% a 80% da população mundial. Nessa segunda etapa, talvez contemos com medicamentos para tratar quem contrair Covid-19. A terceira fase, que será a última, consiste em ter a vacina pronta para poder imunizar o mundo inteiro.

Outra pergunta que costumam me fazer é por que estamos produzindo uma vacina brasileira se países como os Estados Unidos devem obter sucesso nos compostos que estão desenvolvendo.

O que responde para essas pessoas?

Se a vacina ficar pronta em um ano e meio ou dois, por exemplo, nos EUA, eles vão fabricar doses primeiro para imunizar a sua população. Na sequência, irão vender para os países mais importantes em termos diplomáticos, financeiros etc. Muito provavelmente começando pelos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que pega quase toda a Europa.

Depois, os Estados Unidos tenderão a fechar negócio com quem pagar melhor. A China deve entrar aí, e sua população está na casa de 1 bilhão de pessoas. Basta fazer o cálculo: se a fábrica for muito boa e conseguir produzir 200 milhões de doses por ano, imagina quanto tempo vai levar para a vacina chegar ao Brasil.

Por isso é importante que a gente tenha a nossa e que a população entenda a necessidade de investir na nossa ciência e na nossa tecnologia, além de melhorar a qualidade do sistema de saúde nacional. As pessoas apenas lembram disso quando acontece uma grande catástrofe.

Que outros métodos para elaborar a vacina para o coronavírus estão sendo utilizados ao redor do mundo?

Um é atenuar o vírus, deixando-o fraquinho, de modo que não cause a doença e permita que o organismo monte uma resposta imunológica contra ele. Esse caminho, apesar de interessante, pode demorar anos para se mostrar viável, ou seja, para se conseguir atenuar o vírus de verdade.

Outro método consiste em matar o coronavírus e utilizá-lo nesse estado inativo, mas essa é uma forma arcaica de trabalhar, cada vez menos adotada, e ela exige a produção de uma grande quantidade de massa viral para imunizar a população. Uma terceira opção é sintetizar a proteína do componente do vírus mais importante para ele conseguir penetrar na célula. Também há o seguinte método: colocar dentro do organismo o RNA mensageiro, que tem o código que viabiliza a produção de anticorpos.

Em nenhuma dessas maneiras que falei a vacina funciona realmente bem. Ainda dá para utilizar um vírus vivo, diferente do coronavírus, e pôr dentro dele pedaços da proteína do coronavírus. Essa técnica envolve uma série de protocolos de segurança, para comprovar que esse vírus, ao ser injetado na pessoa, não vai ficar tão ativo a ponto de causar problemas. Por isso que nós escolhemos o método da VLP, que é diferente de tudo o que citei e proporciona uma resposta forte ao vírus.

IMUNIDADE O que mais chamou sua atenção no comportamento do coronavírus?

O fato de que nem todo mundo que ficou doente produziu grande quantidade de anticorpos para se defender de uma nova investida do vírus. A gente também ainda não sabe por quanto tempo as pessoas que foram infectadas vão ficar imunizadas, se elas vão precisar tomar a vacina ou mesmo repetir a dose.

Há um terceiro aspecto a ser considerado: a vacina terá de estimular a produção de anticorpos que realmente afetem a parte do vírus que se liga à célula, senão podemos acabar criando anticorpos que facilitem a entrada do coronavírus na célula, o que seria uma nova catástrofe.

É verdade que algumas pessoas que se curaram da Covid-19 ficaram com o sistema imunológico meio detonado, quase sem anticorpos?

Sim. Me surpreendi com alguns relatos nesse sentido, com o indivíduo saindo da doença não só com poucos anticorpos neutralizantes como com o sistema imunológico meio debilitado. É tudo novo, nós ainda não entendemos direito o porquê.

TRATAMENTO Há uma corrente de defesa do uso da cloroquina contra a Covid-19. O que acha disso?

A hidroxicloroquina foi testada por um grupo francês, que publicou os dados, digamos, de um experimento clínico malconduzido e que fez observação um pouquinho melhor do que o comentário “a minha vizinha se tratou com cloroquina e ficou boa”. Isso não significa nada.

Para saber se uma droga funciona de verdade, você precisa realizar o que chamamos de estudo randomizado duplo-cego, ou seja, uma parte dos pacientes toma a droga e a outra consome placebo, e ninguém sabe o que ingeriu exatamente. Nesse estudo, nós observamos diferentes momentos da doença, se o remédio é efetivo no começo da enfermidade, no meio ou em quadros avançados, se o medicamento serve para crianças e idosos, se são necessários um, dois ou três comprimidos etc.

Nada disso foi feito no estudo francês da cloroquina. Então, a gente não consegue chegar a uma conclusão sobre a efetividade da substância. Eu esperava que, a essa altura, já tivessem saído novos estudos, com grandes grupos. Mas o que existe são apenas relatos de médicos, sem valor científico, pois, para ter essa validade, os dados devem ser publicados em jornais de credibilidade e de circulação mundial.

Diversas drogas utilizadas para combater outras doenças estão sendo testadas no momento. Na sua opinião, existe uma mais promissora?

Há uma estimativa de que quase 30 moléculas estão sendo avaliadas clinicamente. Na lista constam antirretrovirais, drogas para HIV, influenza (gripe comum), antimalárico... Nesse caso, você pega um remédio já aprovado para determinada finalidade e o testa em sistema de culturas de células (in vitro) para ver se funciona contra o coronavírus. Se tudo der certo nessa primeira etapa, a seguir vêm os testes clínicos e, depois, a liberação para uso em humanos.

Mas, por enquanto, ainda não tem nada promissor. Somente políticos vão aparecer falando que algo já é a solução, não cientistas.

PREOCUPAÇÃO Há quanto tempo a comunidade científica cogitava a possibilidade de acontecer uma pandemia como essa?

Muita gente já dizia há anos que devíamos nos preparar para uma situação como a atual. Em fevereiro de 2017, quando eu ainda era diretor do Instituto Butantan, fui o único cientista não só do Brasil como de um país subdesenvolvido a participar de conferência na França na qual se falou que o mundo precisava se preparar para viroses que poderiam desencadear pandemias.

Fiz uma apresentação sobre o zika vírus, após o discurso do presidente francês. Nesse evento, o mundo começou a se capacitar para enfrentar uma doença emergente como a Covid-19, por meio de um programa que tem criado várias plataformas, que viabilizam, por exemplo, o desenvolvimento de vacinas rapidamente. Tudo isso está sendo colocado em prática agora, e aí está a explicação para falarmos de produzir uma vacina em até dois anos, o que normalmente demoraria 15 anos. Sou um dos cinco experts internacionais que, no momento, avaliam esse programa implantado em 2017.

Nessa conferência, vocês chegaram a apontar vírus que já eram conhecidos e que deviam ser monitorados?

Sim. Foram apresentados seis ou sete vírus que poderiam ser letais. Existe um sistema internacional de monitoramento como você falou, só que nem sempre a gente dispõe de uma solução para um eventual problema.

Para você ter uma ideia, há cerca de cinco anos, surgiu na China um vírus novo de gripe, chamado H7N9, que é altamente letal e que poderia gerar uma pandemia. Na época, consegui preparar uma vacina e a deixei guardada no Instituto Butantan caso a imunização se tornasse necessária.

Não podemos minimizar a pandemia de coronavírus. Acredito que vamos chegar a uma solução, sim, mas, enquanto não temos a vacina, devemos tentar diminuir o número de casos, respeitando o isolamento social.

E repito: a sociedade brasileira precisa entender como é importante investir na ciência e na tecnologia, pois a luta que travamos apenas pode ser vencida pelo conhecimento.

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