EDIÇÃO DIGITAL

Segunda-feira

14 de Outubro de 2019

Surfista Maya Gabeira revela como venceu barreiras após acidente

Ela quer inspirar as futuras gerações e promover a igualdade no esporte

Não é à toa que a surfista de ondas grandes Maya Gabeira foi uma das personalidades escolhidas para a linha da Barbie chamada 'Mulheres Inspiradoras'. Cinco vezes campeã mundial, a carioca, em 2013, caiu da prancha ao pegar uma onda gigante em Nazaré (Portugal) e ficou entre a vida e a morte. Teve início aí um demorado processo de recuperação não só das lesões físicas – entre elas uma grave na coluna – como dos traumas psicológicos provocados pelo acidente.

No ano passado, Maya voltou a encarar o desafio em Nazaré, onde mora desde 2015, e quebrou o recorde mundial de maior onda surfada por uma mulher (20,72 metros), entrando assim para o Guinness Book. Apaixonada também por vela, a surfista de 32 anos ainda conta se vai realmente se aposentar neste ano como declarou um tempo atrás, comenta sobre os preconceitos que sofreu no esporte e a sua luta por mais igualdade entre homens e mulheres no surfe, além de detalhar a relação com os pais, o jornalista e político Fernando Gabeira e a estilista Yamê Reis.

RECUPERAÇÃO Guarda algum trauma do acidente em Nazaré?

Além de tratar das lesões que sofri, tive acompanhamento psicológico por muitos anos. Hoje, posso dizer que estou 100% recuperada, não me sinto mais agarrada ao acidente. Tenho surfado com segurança, principalmente nos dias em que pego ondas grandes. A minha recuperação se baseou em evoluir de acordo com minhas limitações. Apesar de difícil, o longo período em que fiquei afastada ajudou a me aperfeiçoar. Melhorei como pessoa, como atleta. Toda a confiança que sinto vem de saber que disponho das ferramentas necessárias para lidar com situações adversas, performar bem e sobreviver. 

Mas o acidente de 2013 não foi a primeira vez em que colocou a sua vida em risco. Sempre teve noção exata do quanto essa modalidade do surfe pode ser perigosa?

Sempre! Não só tenho consciência dos riscos que corro ao pegar uma onda gigante como também me propus a aceitá-los.

APOSENTADORIA Realmente vai parar de surfar neste ano, para se dedicar à vela? 

Como tive uma lesão muito grave na coluna, alguns médicos acharam que o caminho mais aconselhável seria me aposentar. Por causa disso, cheguei a considerar a possibilidade de parar. Mas desisti da ideia. Minha meta é manter um estilo de vida saudável, próximo do mar e continuar evoluindo nas ondas de Nazaré.

O que a levou a praticar vela?

A minha relação com esse esporte surgiu da paixão que tenho por estar no mar e da vontade de viajar podendo levar toda a minha casa junto. A vela proporciona uma experiência completamente diferente da que temos quando, por exemplo, viajamos de avião.

PRECONCEITO Como recebeu a notícia de que faria parte da coleção da Barbie dedicada a mulheres inspiradoras?

Achei isso uma grande honra. Tenho muita vontade de ajudar as próximas gerações e, cada vez mais, espero atingi-las positivamente. Quero influenciar meninas a seguirem seus sonhos e abrirem suas mentes, para acreditarem nas profissões que são pouco procuradas pelo sexo feminino. Para mim, também foi uma honra ter sido eleita pela revista Forbes Brasil uma das mulheres mais poderosas do mundo. Não me sinto tão poderosa assim... (risos) Mas ver o surfe de ondas grandes fazendo parte disso me dá o maior orgulho!

Tem alguma história bacana de pessoa que deu uma guinada na vida motivada pela sua trajetória de superação? 

Poderia te contar vários casos. Um que amo envolve um casal. Foi a esposa que me contatou. O marido dela estava em Nazaré quando sofri o acidente, em 2013, e passava por um momento muito difícil. Como lutava contra um câncer, ele tinha medo de não sobreviver. O que aconteceu comigo no mar e o quanto batalhei pela vida o motivou, o fortaleceu de tal maneira que não desistiu de enfrentar o tumor. 

Concorda que o meio esportivo vem se mostrando mais receptivo às surfistas, ainda mais que, recentemente, homens e mulheres tiveram suas premiações equiparadas nos torneios de surfe?

A WSL (Liga Mundial de Surfe) está melhorando bastante o apoio às categorias femininas. Isso me deixa bem feliz! E é sinal de que a luta das mulheres vem dando certo. Mas não queremos só o reconhecimento em premiações e salários. Pleiteamos mais oportunidades para as meninas entrarem nesse esporte, que ainda é considerado por muita gente uma modalidade para meninos, principalmente na minha categoria, do surfe de ondas gigantes. Espero que, um dia, também consigamos igualar o número de competidores e esportistas homens e mulheres.

Já sofreu preconceito por ser uma mulher que surfa? 

Diversas vezes! Um caso clássico é quando você se acidenta. Nos meus perrengues dentro d’água, escutei que ali não era o tipo de lugar onde eu, uma mulher, deveria estar, as pessoas se punham a contestar se tinha condições de aguentar aquilo. Curiosamente, os homens recebem comentários diferentes diante de um acidente. Eles são vistos como heróis, admirados por se exporem a riscos. Não sofrem críticas por estarem ali. Mesmo assim, procuro tirar o lado positivo dessa situação e evoluir. Isso acaba me fortalecendo.

AVENTURAS Além de Nazaré, quais foram as outras ondas mais desafiadoras que enfrentou?

Sem dúvida, as ondas de Teahupo’o, na Polinésia Francesa, estão nesse ranking. Ainda incluo no top dois lugares: Mavericks, na Califórnia, e Jaws, no Havaí.

E como foi surfar no Alasca?

Foi uma experiência única, incrível, em um ambiente totalmente diferente do que vem à cabeça quando pensamos em surfe. Lembro especialmente do frio. É bem mais gostoso pegar onda no calor... (risos) E os dias eram curtos. Ao acordar, tinha de tirar a neve que se acumulava na moto aquática.

Faz um tempinho que você mora fora do País. O que foi que mais pesou para deixar o Brasil?

O objetivo é sempre estar no local mais indicado para a minha evolução como atleta. Já morei no Havaí e na Califórnia (EUA). Hoje, moro em Nazaré, Portugal. Em todos esses lugares, fui atrás de ondas perfeitas.

Como é a sua rotina de treinos?

Normalmente acordo e já vou ver o mar, para analisar as suas condições. Depois disso, me programo, decido se vou surfar, fazer tow-in (quando o surfista é rebocado por uma moto aquática até a onda; método adotado no caso de a onda ser grande demais para apanhá-la apenas remando) ou foil (surfar usando uma prancha em que a quilha é substituída pela chamada asa aquática, que mais parece uma asa de avião e faz com que a pessoa literalmente paire sobre a água). Na parte da tarde, tento encaixar os treinos fora d’água: academia e bike. Acho importante manter um equilíbrio na minha rotina. Por isso, não abro mão de assistir aos meus filmes e seriados, curtir a família, os amigos e os meus cachorros, Naza (fox terrier) e Storm (mini pastor-australiano).

ORIGENS O que despertou a sua paixão pelo surfe?

Antes de pegar onda, eu fazia balé. Aí, com 13 anos, tive a oportunidade de experimentar o surfe e não parei mais. Sempre fui apoiada por todos da família. E apesar de a minha adolescência e a minha juventude não terem sido, digamos, normais, não senti falta de nada, pois sempre fiz o que amo. Lembro que, entre os meus 18 e 20 anos, viajei com muita frequência, o que foi uma experiência ótima, um aprendizado necessário para estar onde estou hoje. Quanto a trocar o surfe tradicional pelo de ondas gigantes, essa decisão foi motivada, com certeza, pelo desafio!

Qual foi a maior lição que teve com o seu pai, o jornalista e político Fernando Gabeira?

A minha liberdade é um reflexo da confiança que ele sempre teve em mim. Isso fez com que pudesse me descobrir ainda muito nova e, assim, começasse a seguir os meus sonhos.

Por ter mãe estilista, é o tipo de pessoa que vive ligada nas tendências?

Eu amo moda! Meu estilo é mais street, urbano, gosto de roupas mais largas. Atualmente, uso bastante o Instagram para me manter antenada nas tendências, sigo vários profissionais do meio, marcas e revistas. Isso é o que mais tem funcionado para mim. Há diversas mulheres que me inspiram. Hailey Bieber, Bruna Marquezine e Bella Hadid são algumas das pessoas que acompanho. Procuro adaptar o que gosto para a minha vida, pois, como estou sempre na praia e treinando, acabo usando mais roupas esportivas.

Confira reportagem completa na edição deste domingo (14) de AT Revista.