Saiba se você está em um relacionamento abusivo

Terapeuta de casal e família Pamela Magalhães dá várias dicas para a vida a dois

Além de fazer sucesso com as suas palestras ao redor do País, a terapeuta de casal e família Pamela Magalhães acumula seguidores nas redes sociais: quase 900 mil no Instagram, 307 mil no Facebook e 380 mil inscritos no seu canal do YouTube. Sem falar que ainda comanda o podcast Coração Peludo. Uma marca do seu trabalho é o jeito fácil e prático como explica o ser humano e a dinâmica das relações amorosas, fazendo-nos não só pensar sobre os dilemas e as pegadinhas da vida a dois como desenvolver a autoestima, a maturidade emocional e valorizar quem realmente merece. Na entrevista a seguir, a paulistana aborda os temas afetivos mais variados, incluindo os diferentes estágios pelos quais um casal passa. Também diz por que anda tão difícil arranjar um amor, indica maneiras de tirar a relação da rotina, ensina como superar um término e mostra como identificar se você está num relacionamento tóxico ou abusivo. E garante que existe psicopatia, inclusive, na vida a dois.  

MATURIDADE

Um comentário comum das pessoas é: quero um amor, mas está difícil ter uma relação para valer. Como explica isso? 

Escuto muito as pessoas dizerem que os relacionamentos atuais são líquidos, que os parceiros não se comprometem, que há uma irresponsabilidade afetiva. Isso é verdade, mas reparo que as pessoas andam se aprofundando pouco nas relações, por estarem mais superficiais. Existe um movimento muito grande dos múltiplos parceiros, das ficadas, dos rolos. Aí, quando a pessoa quer algo um pouco mais sério, parece que ela nem sabe como fazer isso, há também uma dificuldade de enfrentamento e permissão do mergulho emocional. Para me entregar em um relacionamento, tenho de viver responsabilidades, exercitar a minha tolerância e a minha flexibilidade. E vou precisar lidar com os meus medos, porque, a partir do momento em que me envolvo com alguém, tudo fica mais sério e consistente. Os riscos da perda passam a existir e é mais complicado deixar, de repente, de estar com aquela pessoa a quem eu me apeguei. Portanto, o receio da frustração e o medo de não dar conta – consciente ou não – fazem com que a gente evite um aprofundamento amoroso. Sem falar que, no mundo atual, há poucos estímulos para se exercitar a maturidade emocional. As pessoas ficam tão preocupadas em ter o selfie perfeito, o corpo esculpido e esquecem de, junto a isso, cuidar do seu interior, que é muito importante. Aliás, ele é a base de tudo. Nada vai se sustentar se eu não tiver um bom equilíbrio íntimo e trabalhar, além da maturidade emocional, outras habilidades socioemocionais, como autoconhecimento, resiliência e empatia. 

Acontece que trabalhar as emoções não é das tarefas mais simples. Concorda que o mais fácil é ignorar os sentimentos e “esconder tudo debaixo do tapete”? 

Sim. Mas, se pararmos para pensar, o preço que vamos pagar por isso é bem maior. Sempre digo que é muito mais custoso o reparo emocional do que o exercício da precaução. O modo que me coloco na vida, a maneira como percebo minha pessoa e o outro, tudo isso vai ser reflexo do quanto tenho de conhecimento do meu íntimo. O desconhecedor de si mesmo vai sempre ser aquele indivíduo que pode até sair bem na foto, só que, na vida, vai se deparar com diversos borrões. Não adianta nada olhar apenas para o superficial e o imediato e não trabalhar o arsenal íntimo das emoções, entendendo justamente que é esse exercício que fará com que você se aproprie das realizações que alcança, dos objetivos que possui e das relações que cultiva. Se não entendo qual é a minha essência, o que eu desejo e o que funciona comigo, provavelmente vou me colocar em uma roubada atrás da outra. Devemos tentar reconhecer nossas emoções, o que se passa conosco, exercitar o perdão, a reconciliação com nossa própria história, ser menos autocrítico e ressignificar o que já aconteceu na nossa vida, realinhando as crenças que trazemos em nosso interior. 

DISFUNCIONAL

Acha que as pessoas ainda romantizam muito os relacionamentos? 

Em primeiro lugar, não tem como me relacionar bem com alguém se eu não tiver um bom relacionamento comigo mesmo. Pois vou acabar projetando no outro o que está em mim e não consigo trabalhar, as minhas necessidades, e vou esperar que o parceiro resolva isso para mim. Falando especificamente da romantização das relações, isso ocorre bastante e é um reflexo do mundo individualista em que vivemos. As pessoas estão tão imersas e inebriadas com seus desejos e sonhos que, muitas vezes, não enxergam o companheiro como, de fato, ele é. Elas ficam mais preocupadas em fazer uma check list, para confirmar se o outro atende as suas expectativas e todas as cobranças sociais. Com isso, as pessoas tendem a romantizar as coisas e minimizar características do parceiro que não devem ser minimizadas. Por exemplo: “Ah, ele não é assim normalmente, só fica estressado quando bebe” ou “Ela está me xingando e agredindo desse jeito, pois está de TPM”. A romantização faz com que situações inaceitáveis caiam na normalização; essa atitude de aceitar o inaceitável vai de encontro à romantização e relacionamentos tóxicos, abusivos, medíocres e restritivos. 

Como a pessoa pode identificar que está numa relação assim?  

Os principais sinais de uma relação disfuncional, que é como se chamam todas essas que acabei de citar, são: há mais desgaste do que satisfação e realização no relacionamento, você chora mais do que sorri, se sente perdido e tem um medo gigante de perder aquela pessoa, porque acredita que não vai encontrar mais ninguém. Você ficadespersonalizado, não se conhece mais e se vê cada vez mais isolado, vivendo a vida do companheiro e não a sua, ele ainda te critica o tempo inteiro. Há casos em que a violência praticada pelo outro fica aparente, quando ele te xinga e te agride moralmente ou mesmo fisicamente. Agora, em algumas relações disfuncionais, a violência do parceiro se dá por silêncios ensurdecedores, por torturas e jogos emocionais que vão minando a autoestima da pessoa. Esse companheiro também costuma usar o sentimento de culpa para conseguir manipular o outro. Quando não existe o equilíbrio dos três universos – o meu, o seu e o nosso – e tudo gira em torno do mundo de um dos dois, esse é um desequilíbrio importante, significativo. 

O que mais deve ser observado? 

No caso do parceiro manipulador, ele vai trazer o outro cada vez mais para dentro do mundo dele, para poder enfraquecer a sua individualidade e dominá-lo, distanciando-o da família, dos amigos e dos seus hobbies. Quem é alvo disso passa, por exemplo, a utilizar as roupas que o parceiro quer, ter os hábitos que ele dita e precisa informar para onde vai e o que está fazendo, para não despertar o ciúme do companheiro. Quando isso, na verdade, não se trata de ciúme e, sim, de um controle mascarado pelo discurso do “eu ajo assim por te amar, me preocupar e querer o seu bem”. E quando a pessoa começa a se conscientizar de que está em um relacionamento disfuncional, o primeiro passo é resgatar a sua autoestima, de uma forma gradual. Nessa hora, geralmente ela vai buscar um livro sobre o assunto, de repente fazer terapia, resgatar um amigo ou parente para conversar a respeito, como se pegasse os seus caquinhos para se reintegrar novamente. Vou adiante: quem tem um amigo ou parente que vive uma relação abusiva não deve chamá-lo para um café e tentar conscientizá-lo disso, pois é capaz de ele virar as costas e ir embora. Sugiro ficar por perto e mostrar para a pessoa que ela tem com quem contar e conversar. Só isso já vai ajudar bastante. 

Normalmente, ouvimos falar mais de mulheres vítimas de relacionamentos disfuncionais, mas muitos homens também se descobrem em relações tóxicas e abusivas, não é mesmo? 

Sim. O que acontece é que as mulheres ainda exteriorizam mais os seus sentimentos. Há diversos homens que estão em relacionamentos abusivos por aí e mulheres manipuladoras, com ciúme patológico, que traem com frequência, que agridem o parceiro, inclusive, fisicamente e depois se vitimizam. 

Existe psicopatia dentro das relações amorosas? 

Com certeza. Primeiro é preciso entender o que é psicopatia. Não se trata de uma doença e, sim, de uma forma de ser. Esse indivíduo possui um transtorno de personalidade, uma alteração cerebral que o leva a não ter sentimento de culpa, empatia e outras emoções. Como funciona a cabeça dele? Ele sabe exatamente o que quer e o que deve fazer para obter aquilo. Em geral, está atrás de poder, destaque, status. E há vários níveis de psicopatia. A gente costuma pensar logo no serial killer, só que esse é apenas um dos tipos. É difícil de identificar um psicopata. Ele é uma pessoa com inteligência acima da média e que tem comportamentos em série – que podem ser abusivos etc. Você provavelmente conhece algum psicopata, mas não se deu conta disso. Normalmente, ele é a última pessoa que nós podemos imaginar. Está longe de ser alguém chato, que briga com todo mundo; é mais provável que seja aquela pessoa que vive com um sorriso no rosto, que nos chama de querido (a) e, por trás dessa fachada, possui um monte de estratégias e artimanhas, e sempre tem alguém não apenas para sujar as mãos no seu lugar como para levar a culpa por ele. 

INTEIRO

O que diria para quem acredita no discurso da “metade da laranja”? 

Eu adoro Fábio Jr, mas não existe metade da laranja. Devem ser dois inteiros que se relacionam, senão vou estar sempre procurando alguém para me complementar e resolver os meus problemas, para, assim, eu poder ser feliz. Se pararmos para pensar, isso não é muito romântico, né? Na realidade, sou eu que tenho que resolver os meus problemas e trabalhar as minhas questões, até me sentir inteiro. E mais: relacionamento não é condição, nem necessidade, mas uma escolha, uma oportunidade, uma possibilidade. Quem entende o relacionamento como uma necessidade ou vai criar uma relação de dependência, ou se tornar aquela pessoa que fala que nunca consegue ficar com ninguém, porque, quando encontra alguém, o sujeito acaba se afastando, por perceber que vai ter a responsabilidade de fazer aquela pessoa feliz e solucionar um monte de pepinos dela. A gente normalmente procura alguém para se relacionar para compartilhar momentos bons e, juntos, trilharmos uma vida em comum. E a vida que já existia antes do casal – o universo individual de cada um dos dois, com as suas particularidades a sua identidade – vai continuar a existir. Nada se perde, muito menos a liberdade. Apenas adequamos alguns hábitos, om bom senso, e optamos por fazer essas concessões para preservar o relacionamento.

Tem gente que acha que o casal deve estar o tempo inteiro colado, fazendo tudo junto.

É verdade, só que isso não procede. O casal vai fazer muita coisa junto, pois aquilo gostoso e a intenção é ter companheirismo, cumplicidade. Mas algumas atividades vão continuar sendo individuais, como encontrar certos amigos etc. Esse é o casal maduro, que costuma durar. Caso contrário, a sexualidade é uma das primeiras coisas que se perde, porque chega uma hora em que transar consigo mesmo se torna chato. Além de assexuado, esse casal tende a ficar meio neurótico. 

E quando a pessoa começa a competir com o parceiro? 

A competitividade pode acontecer em diversos momentos da relação, principalmente quando falta amadurecimento do casal e quando uma das partes – ou ambas – se sente ameaçada. Muitas vezes, o crescimento do outro ou o fato de ele trabalhar demais incomoda, pois isso é reflexo de uma insegurança, individual ou do próprio relacionamento. Por isso a comunicação é a base de toda relação. O relacionamento sem diálogo não chega a lugar nenhum, e essa ponte deve ser construída desde o primeiro instante. Uma relação estável é aquela em que há boa comunicação, boa escuta, cuidado com a forma de falar, respeito pelo outro, consideração. Desse modo, a gente não quer necessariamente ter a razão ao conversar com o companheiro e, sim, deseja chegar a algum lugar com aquilo, para melhorar a interação, a vida a dois. 

ROTINA

Em relacionamentos longos, há quem comece a alegar que não está a fim de fazer algo, porque o dia foi cansativo, ou que os momentos a dois deixaram de existir por causa dos filhos. O que indica para esses casais? 

As pessoas costumam ser muito hábeis na conquista, mas têm dificuldade demais para fazer a manutenção do relacionamento. Aí, entra a maturidade emocional, que nos leva a reconhecer, valorizar e cuidar do que temos de importante. Para os casais que estão em relação duradoura, sugiro reconhecer que a rotina existe e é inevitável. Realmente há dias em que eles vão estar cansados e desestimulados para fazer estripulias. E como podem sair da rotina? Vale, de repente, escolher um dia da semana para uma atividade diferente com o parceiro, como sentar no bar e conversar, praticar um esporte junto, tomar um vinho e jogar baralho, ver um filme... Essas pequenas mudanças na rotina já são forma de dar uma reciclada e apimentada no relacionamento. Você não precisa, como algumas pessoas acham, trocar de parceiro. Basta modificar o cenário em que está com o seu companheiro, para trazer novo combustível para a vida a dois. 

CORONAVÍRUS

Muitos casais se separaram durante o isolamento social motivado pela pandemia. Qual é a melhor forma de lidar com o término de uma relação?  

A principal dica é parar de se cobrar para esquecer o ex. Quanto mais você faz isso, mais se lembra daquela pessoa. O melhor caminho é tentar superar o fim do relacionamento e, para tanto, deve-se ter paciência, viver dia após dia. Infelizmente, a frustração do término existe. Não se resolve isso colocando alguém no lugar. Deve-se viver todas as fases desse luto e os sentimentos pertinentes a elas. Passar pela negação, raiva, negociação/ barganha e tristeza até chegar à aceitação. O importante é melhorar um pinguinho cada dia. Recomendo ligar para os amigos, trazer para perto quem faz bem, resgatar planos, cogitar atividades diferentes. Se a pessoa ainda não estiver pronta para isso, tudo bem. Antes de qualquer coisa, talvez seja necessário ficar um tempinho quietinha, ouvindo músicas de dor de cotovelo, assistindo a filmes etc. Com o término da relação, a gente precisa ressignificar as coisas, se reorganizar, se reestruturar. Com o tempo, o nosso cérebro vai estar tão ocupado que o ex vai ficar naturalmente para trás. Mais um toque: nada de stalkear o ex nas redes sociais ou tentar saber dele por meio dos outros.

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