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Segunda-feira

20 de Janeiro de 2020

Saúde mental em xeque; os mitos da depressão e transtorno bipolar

O psiquiatra Volnei Vinicius Ribeiro da Costa derruba mitos que existem quando se trata de depressão e transtorno bipolar. Membro da Abrata, detalha os serviços gratuitos da ONG

A maioria das pessoas pensa que a oscilação de comportamento – uma hora, você está superfeliz e eufórico; na outra, fica bem triste é a maior característica do transtorno bipolar. Mas, na verdade, o principal sintoma dessa doença é a depressão, como explica o psiquiatra Volnei Vinicius Ribeiro da Costa, membro do conselho científico da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata). O paulistano também alerta que o consumo de antidepressivos tende a piorar o quadro de transtorno bipolar e que a doença tem basicamente fundo genético.

Na entrevista a seguir, o especialista, além de afirmar que ainda existe muita gente sem diagnóstico ou com diagnóstico errado, dá dicas para reconhecer e lidar melhor com o problema em qualquer fase da vida – inclusive na infância, quando a avaliação requer cuidados redobrados. Para completar, o psiquiatra detalha os serviços – todos gratuitos – da Abrata, entidade que existe há 20 anos e, em paralelo à sede em São Paulo, mantém um braço em Santos, onde promove reuniões e grupos de apoio para portadores de depressão e transtorno bipolar, seus familiares e profissionais da saúde – ainda há palestras periódicas de orientação na Universidade Santa Cecília (Unisanta). Os interessados em participar dessas atividades podem se inscrever pelo WhatsApp (13) 99712-8692, pelo e-mail abratalitoral@abrata.org.br ou no www.abrata.org.br, site com textos e vídeos informativos que têm sido acessados não só no Brasil inteiro como nos países da comunidade de língua portuguesa.

Diagnóstico

O que mais motiva as pessoas a procurarem a Abrata?

Como em qualquer consultório psiquiátrico, a depressão é o carro-chefe. Mas o que a maioria da população desconhece é que o transtorno bipolar é uma doença camaleoa. Até 30% das pessoas que procuram atendimento por depressão são, na verdade, portadoras de transtorno bipolar. E a depressão é o principal sintoma desse transtorno, o mais frequente ao longo da vida do paciente. Muitos psiquiatras, inclusive, não têm noção disso. Com frequência, os bipolares acabam sendo tratados com antidepressivos, medicamentos que, na realidade, fazem a doença piorar e favorecem atos suicidas. Uma das missões da Abrata é disseminar esse tipo de conhecimento.

Qual é o sinal de que o paciente tem transtorno bipolar e não somente a depressão?

O sintoma clássico da depressão é uma tristeza prolongada, acompanhada de uma falta de prazer em atividades cotidianas, em coisas que a pessoa curtia fazer, como jogar bola. Outros sintomas associados a esse quadro são alteração de peso, no sono e na libido, os pensamentos começam a ficar estranhos, há um sentimento de culpa e a capacidade de raciocínio fica debilitada. Se esses sintomas persistirem por mais de cinco dias pode ser que a pessoa esteja com depressão. A grande questão é que o transtorno bipolar tem sintomas praticamente idênticos. Logo, é quase impossível que o paciente ou quem está ao seu redor, num primeiro momento, consiga diferenciar se trata-se de uma depressão ou de um transtorno bipolar. O ideal é procurar a ajuda de um psicólogo ou de um psiquiatra. Só que a população precisa vencer o estigma de que a psiquiatria é reservada para “loucos”.

Isso ainda existe?

Por incrível que pareça hoje, em pleno século 21, a maioria das pessoas ainda pensa assim. E não estamos falando de algo que acontece apenas no Brasil. Nos Estados Unidos e na Europa também é comum esse tipo de estigma.

O que diferencia, então, o transtorno bipolar?

A diferença dele para um quadro exclusivamente de depressão é que, ao longo da vida, o portador de transtorno bipolar tem alguns episódios de melhora súbita, em que fica mais ativo, mais agitado do que o comum. Ele trabalha por períodos maiores do que o normal numa boa,dorme menos e tem um aumento de interesse em sexo, em compras ou em viagens. Mas esse quadro não se sustenta e a pessoa acaba voltando para a depressão. O que preocupa é que, hoje em dia, os episódios de depressão e de maior agito estão acontecendo simultaneamente, se sobrepondo. Antes, eles eram bem separados, delimitados. Isso se deve às pessoas estarem consumindo mais antidepressivos, álcool e drogas. Esse estado misto – em que o paciente fica acelerado, mas com pensamentos negativos – é o que mais leva a tentativas e a atos de suicídio.

Terapia

Me chamou a atenção o que disse sobre o consumo de antidepressivos estar além do recomendado. Isso é preocupante. O grande problema é que existe uma prescrição excessiva de antidepressivos para as mais variadas finalidades: para emagrecer, melhorar a performance nos estudos, para controlar a ansiedade...E boa parte dos médicos não está investigando se, junto com essas condições, não há um transtorno bipolar escondido, porque, como disse, é uma doença camaleoa. Enquanto psiquiatra prego que o uso de antidepressivos precisa ser extremamente racionalizado, com critérios bem claros de quando utilizar e por quanto tempo.

Assim como na depressão, a terapia é fundamental no tratamento do transtorno bipolar?

Com certeza. O processo de psicoeducação é muito importante para o paciente aprender a identificar e a lidar com os sintomas e reconhecer o que ao redor dele pode estar afetando o seu quadro. A terapia também ajuda a pessoa a descobrir a melhor maneira de comunicar para os outros que tem uma condição que pode atrapalhá-la em determinada atividade.

O aspecto emocional é o principal gatilho do transtorno?

Falou-se muito sobre isso por um tempo. Mas descobriu-se que, enquanto a depressão é resultado de um mix bem estruturado de componentes genéticos (cerca de 30%, 35%) com fatores ambientais e sociais, como estresse, abusos emocionais e consumo de álcool e drogas, o transtorno bipolar é basicamente uma doença de fundo genético (em torno de 90%). Inclusive, a hereditariedade é muito alta, a transmissão dos pais para os filhos costuma ficar no patamar de 90%. Ao atender um casal em que um dos dois é bipolar, o indicado é fazer o que na psiquiatria se chama de aconselhamento genético. Digo para eles: “Vocês podem ter filhos, só que precisam planejar direito. A criança não poderá ficar noites sem dormir e terá que receber desde cedo cuidado maior para evitar que a doença entre em atividade, porque a chance de herdar o transtorno é bem grande”.

Então, a pessoa nasce com a predisposição e, em um certo momento da vida, algo desencadeia a doença?

Sim. Às vezes, o pai, o avô, o tio ou o bisavô tiverem o transtorno, mas ele não foi identificado. Aí, existe a chance espontânea (cerca de 40%) de a doença entrar em atividade independentemente de qualquer fator estressor. Em cima desses 40% vão sendo somados privação de sono, estresse, abusos emocionais, exposição a álcool e drogas, que aumentam a probabilidade de o transtorno se manifestar. Porém, a pessoa pode passar a vida inteira sem desenvolver a doença e ter um filho que será bipolar.

Existe uma idade em que o diagnóstico costuma ser mais comum?

O transtorno bipolar entra em atividade geralmente após o início da adolescência, lá pelos 13, 14 anos, e começa pela depressão. A doença segue por anos com outros sintomas, às vezes, muito inespecíficos. Levam cerca de dez anos para haver as ciclagens, que são a alternância entre os episódios de depressão e os de agitação. Em média, demora de oito a 15 anos para o paciente receber o diagnóstico correto.

Quem tem mais predisposição para o transtorno bipolar: o homem ou a mulher?

A depressão tende a acometer mais as mulheres do que os homens. A explicação para isso é uma
maior propensão genética. Em contrapartida, o transtorno bipolar atinge os dois sexos igualmente. A diferença é que as mulheres procuram mais o tratamento do que os homens. Logo, acabam sendo mais diagnosticadas. Os homens ainda resistem a procurar o médico.

Infância

Como deve ser o acompanhamento de uma criança que tem probabilidade de se tornar bipolar?

No primeiro momento, ele precisa girar em torno mais dos fatores de proteção, porque a maioria das famílias não toma cuidado com o que a criança come e não controla o consumo, por exemplo, de refrigerantes e de alimentos estimulantes, como café. Muitos adultos também não prestam atenção na forma como o filho lida com a tecnologia. Está mais do que comprovado que o acesso livre a celulares e tablets está por trás
do aumento tão proeminente de doenças mentais e de casos de suicídio principalmente entre os adolescentes. É preciso fazer um aconselhamento da família, para que saiba livrar a criança ou o adolescente de fatores de risco. Imagine o seguinte: a exposição a drogas mesmo em uma festa tem repercussão. Num potencial bipolar a consequência disso é bem maior.

Pelo jeito, o diagnóstico parece ser mais difícil de fazer na criança do que no adulto?

Ele é bem mais delicado nessa fase, pois os sintomas na criança costumam ser diferentes. O primeiro sinal de alerta para os pais é o filho começar a ter irritabilidade muito alta e recorrente. O segundo marcador importante é a criança apresentar problemas de interação social e se isolar além do normal. O terceiro ponto a ser levado em consideração é a queda no rendimento escolar. Demora mais para fechar o diagnóstico na criança, porque esses três sinais que citei também são sintomas de outras doenças.

Nutrição

 A alimentação pode ajudar bastante no tratamento do transtorno bipolar?

Há várias pesquisas sendo desenvolvidas para se entender realmente o papel dos alimentos dentro do quadro bipolar. O que já se sabe é que o consumo de produtos industrializados, de frituras, de refrigerantes e de todos aqueles outros alimentos que estão na lista dos que fazem mal, por exemplo, para a saúde do coração tende a piorar a depressão e o transtorno bipolar. A pessoa que tem uma dieta mais saudável – composta por verduras, legumes, pouco sódio, pouco açúcar e baixo consumo de refrigerantes – costuma evoluir de maneira mais positiva em termos de saúde mental, em todas as condições. E é indiscutível: não dá para tratar a depressão e o transtorno bipolar sem incluir no processo a prática regular de atividade física.

Acha que o termo bipolar acabou vulgarizado assim como a palavra depressão?

A distorção desses dois termos acontece bastante. A própria palavra louco teve a sua conotação modificada ao longo do tempo. Devemos tomar muito cuidado ao dizer, em um contexto social, que alguém é bipolar só porque há o senso comum de que o maior sinal da doença é estar feliz demais numa hora e, depois, ficar bem triste. Vale lembrar que essa oscilação de comportamento não é o traço mais importante do transtorno bipolar. O principal sintoma é a depressão. Para se ter ideia, um paciente passa 60% da vida deprimido. Fora que ainda existem diversos casos que não estão sendo diagnosticados.

Ong

Como é o trabalho da Abrata?

A entidade, que existe há 20 anos, tem uma procura imensa. Em 2018, chegamos a cerca de 4 milhões de acessos em nosso site e nas redes sociais. Apesar de nossa sede ser em São Paulo e de, há três anos, termos um braço em Santos, atendemos pela web pessoas em busca de informação – do Brasil inteiro, de Portugal e das outras nações da comunidade de língua portuguesa. Em setembro, viajei para Moçambique, pois lá o acesso à saúde mental é quase que inexistente. Estamos com o projeto de abrir um braço internacional da Abrata nesse país em 2020.

Que atividades são realizadas em Santos?

Temos reuniões, palestras e grupos de atendimento e de conversa. Tudo gratuito. Além dos portadores de depressão e de transtorno bipolar e de seus familiares, ainda somos procurados por profissionais da saúde. É bom deixar claro que oferecemos orientação sobre a doença e sobre como lidar com ela, mas não fazemos tratamento. Não contamos com mais unidades pelo Brasil porque, como a entidade funciona estritamente com trabalho voluntário, temos dificuldade para achar profissionais dispostos a esse tipo de serviço em outras localidades do País.

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