Reforce sua imunidade, sem cometer erros

Cresceu o consumo de vitaminas, polivitamínicos e outros suplementos alimentares. Mas é importante conversar com o médico antes de utilizá-los, para obter os efeitos desejados

O consumo de suplementos alimentares, com o objetivo de melhorar a resposta imunológica à covid-19, passou a ser preocupação comum das pessoas nestes tempos de pandemia. Levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos Para Fins Especiais e Congêneres (Abiad), feito em maio, mostra que 48% dos 275 entrevistados começaram a ingerir mais multivitamínicos e afins; 47% mantiveram sua taxa de consumo e apenas 5% a diminuíram. 

Outro estudo, da consultoria IQVIA, aponta que a compra de vitamina C no estado de São Paulo cresceu 198% no primeiro trimestre de 2020 em relação ao mesmo período de 2019. 

Os suplementos podem ser grandes aliados na construção de um sistema imunológico competente, mas também podem causar transtornos se ingeridos de forma indiscriminada. “Isso porque nosso organismo funciona fazendo relações quantitativas e qualitativas dos nutrientes, que devem ser consumidos para atuar de forma sinérgica, e não antagônica”, explica Ricardo Seixas, médico nutrólogo pela Sociedade Brasileira de Nutrologia, com pós em Nutrição Clínica e mestre em Ciências. 

“O zinco é um dos nutrientes que melhora a imunidade, mas o seu excesso (acima de 40 ou 50 miligramas) é capaz de provocar uma depleção (ou diminuição significativa) de outros minerais, como cobre, e assim interromper a atuação benéfica dele mesmo. Além disso, é temerário o modo exagerado como vem sendo usada a vitamina D, principalmente em relação à quantidade. Sua dose deve ser ajustada, para que não se torne tóxica, especialmente em idosos”. 

É importante frisar ainda que “a biodisponibilidade dos nutrientes é melhor quando consumidos de forma natural, ou seja, via alimentos; e que sono, atividade física, bem-estar emocional (o que inclui controlar o estresse) e um solzinho às 11 da manhã também são fundamentais na construção da imunidade e da saúde como um todo. Mesmo assim, em algumas situações específicas, se faz necessário esse reforço”, pondera o nutrólogo, que é cooperado da Unimed Santos.

Seu médico deve orientar 
“A principal recomendação é que as pessoas procurem orientação médica antes de se autossuplementarem, para avaliar as reais necessidades, corrigir as eventuais carências e suplementar os nutrientes indicados”, afirma a médica nutróloga Marcella Garcez, mestre em Ciências da Saúde, diretora e docente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e pesquisadora de suplementos alimentares no Serviço de Nutrologia do Hospital do Servidor Público de São Paulo.

Marcella diz que “suplementos alimentares são indicados em várias situações, como no período gestacional, durante a lactação, na fase de crescimento e de maior sobrecarga de atividades, para otimizar resultados dos exercícios físicos ou auxiliar na prevenção das doenças do envelhecimento. 

As respostas do sistema imune, tanto inatas quanto adaptativas, dependem de bons níveis de nutrientes específicos circulando no organismo”.

Ricardo Seixas concorda e alerta que a avaliação clínica é soberana: “Às vezes, você pode estar apresentando clinicamente sintomas reveladores de falta de algum nutriente, mesmo que o exame sanguíneo não indique isso. O profissional pode dizer que ‘embora o seu nível de vitamina D esteja normal, vou recomendar um reforço’ ou que ‘o seu nível de cálcio está bom no sangue, mas baixo nos tecidos’. Tanto o médico quanto o nutricionista são os profissionais habilitados a dar essa orientação, individualizada, sobre os nutrientes a consumir pelos alimentos e, eventualmente, com uma suplementação”. 

O médico reforça que fazer a reposição de determinado tipo de nutriente pura e simplesmente não vai resolver, “por existir uma interdependência entre todos. Após uma avaliação clínica, você saberá como tirar partido deles em conjunto. Sabidamente só teremos nossa imunidade competente se tivermos a contento vitaminas A, D, C, E, zinco, selênio, ferro. Mas a atuação desse complexo envolvido diretamente na imunidade depende indiretamente de outros nutrientes. É como naquele ditado popular: uma andorinha só não faz verão”.

Na luta contra o vírus
Vale pontuar que os nutrientes não são preventivos e nem profiláticos. “Eles não vão evitar que você tenha contato com o novo coronavírus ou garantir que não pegará a covid-19. O grande diferencial é que, por estar com o sistema imunológico competente, você terá melhor condição de lutar com o vírus e vencer essa batalha”, esclarece Ricardo Seixas. 

Portanto, a relevância da imunidade é enorme. O nutrólogo comenta que se discute muito “a parte farmacológica – se tal remédio ajuda ou não a retardar a multiplicação desse vírus para que o organismo tenha tempo de estabelecer uma resposta imunológica capaz de vencê-lo – e pouco se fala sobre fortalecer a parte imunológica/nutricional, que também importa”. 

Sendo assim, quais os primeiros indicativos para a pessoa observar que a sua imunidade não anda boa atualmente? “Vários são os sinais de respostas imunes inadequadas, como doenças infecciosas respiratórias, urinárias e intestinais de repetição. Porém, sinais mais leves, como fraqueza, cansaço, alterações do apetite, desânimo, unhas frágeis e queda de cabelo, já podem mostrar que está na hora de procurar um médico”, diz a nutróloga Marcella Garcez.

E quem não puder ir ao médico nessa fase de quarentena? “Nesse momento em que as pessoas encontram-se ansiosas para garantir bom aporte de nutrientes que fortaleçam o seu sistema imunológico, os produtos do tipo polivitamínicos, que têm todos os componentes das recomendações diárias, oferecem menores riscos caso sejam consumidos sem indicação profissional”, conclui Marcella, lembrando que uma alimentação equilibrada em nutrientes é insubstituível e prioritária à suplementação.

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