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Terça-feira

14 de Julho de 2020

Quando dormir junto não é mais prioridade

Para equilibrar as relações, casais estão procurando várias soluções, entre elas poder ter quartos separados em casa. Para especialistas, esse é um jeito de manter a individualidade

Uma empresária na faixa dos 50 anos, que prefere não ser identificada, tem dois quartos em seu apartamento. Quando o marido está gripado, por exemplo, ela “foge” para o outro cômodo em busca do tão sonhado sono, já que o seu é bem leve. “Eu acordo muito fácil”, justifica. 

Essa “escapada” é regra na relação dos atores globais Mauro Mendonça e Rosamaria Murtinho. Juntos há 60 anos, eles revelaram em entrevista, no ano passado, que têm dois quartos em casa. “Cada um dorme em um. É mais saudável, porque eu reclamava muito de ela deitar à vontade com aquele cotovelo, aquele joelho em cima de mim. Ela é mais espaçosa!”, brincou o ator.

A justificativa do casal é que a decisão de dormir em quartos separados permite fazer coisas que o outro não curte. Rosamaria gosta de ler à noite; Mauro prefere o dia, por exemplo. “Depois de uma certa idade é preciso ter quartos separados”, decretou a atriz. 

Para a psicóloga Gisela Monteiro, coordenadora do curso de Psicologia da Universidade Santa Cecília (Unisanta), tudo isso não passa de ajustes na relação. Tentativas de se evitar conflitos e negociações. “A gente está junto, mas a convivência é facilitada por esses arranjos”, comenta ela. 

Gisela acrescenta: “As pessoas envolvidas na relação devem estar inteiras nela, escolherem aquilo. Ao dizer ‘eu fico com você só se a gente dormir em quartos separados’, o outro aceita porque é uma exigência. Acredito que tem que experimentar soluções para resolver esse problema. No amor, o maior conflito está na convivência, no cotidiano”.

Na visão da psicanalista Renata Bento, é preciso conhecer-se antes de tudo. “Se cada um tem a sua individualidade e respeita a individualidade do outro, vai ser mais fácil aceitar que momentos sozinhos também são importantes e bem-vindos. Não se anular dentro de um relacionamento, gostar da própria companhia e saber lidar com a solidão contribui para a relação”, afirma ela.

Para se manter a individualidade, essa separação física pode ser uma solução, desde que acordada, dizem as profissionais. A psicóloga e sócia-diretora do Instituto do Casal, Denise Figueiredo, ressalta ainda que isso não precisa ser a regra. “Para alguns casais, morar em casas separadas ou ter um apartamento reserva pode funcionar. Para outros, somente ter momentos de lazer para curtir a individualidade no dia a dia já serve. Tudo é questão de adaptar o que pode dar certo naquela relação”.

Modernização

A separação de cômodos é mais um ingrediente no caldeirão atual dos relacionamentos. Afinal, há espaço para diferentes formatos. “A oficialização não é mais tão importante, por exemplo”, observa Gisela, citando dados que mostram que os casamentos caíram nos últimos anos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de casamentos civis baixou 1,6% de 2017 para 2018. Ao mesmo tempo, os divórcios aumentaram 3,2% no Brasil.

Para Renata Bento, isso se traduz no modelo dos relacionamentos estáveis. “Cada um pode, por exemplo, viver na sua casa e, aos fins de semana, eles se revezarem um na casa do outro. E isso se deve a diversos motivos. Às vezes, pode ser porque cada um mora em uma cidade diferente, pois há a rotina dos filhos do casamento anterior etc”.

Segundo Gisela Monteiro, justamente pela dificuldade que pode existir para cuidar da relação sem com isso perder a individualidade, algumas pessoas tendem a experimentar novos modelos de relacionamento, pois, no fundo, querem estar com alguém. “Como as relações abertas, que exigem uma alta dose de generosidade”. Sem falar de autoconhecimento, por colocar em risco o próprio relacionamento. Afinal, um dos dois pode se apaixonar por outra pessoa, aponta Gisela. “Ao mesmo tempo, há relações monogâmicas de anos em que ambos traem ou que desejam estar fora dali”.

Superficialidade

As inovações tecnológicas trouxeram opções para encontrar alguém com quem dividir a vida. Aplicativos encurtaram distâncias e possibilitaram que interesses em comum se evidenciem, tornando a escolha pelo par, aparentemente, mais fácil. Mas os apps também têm tornado as pessoas mais seletivas, aumentando, assim, as expectativas para se encontrar o par perfeito. “Ainda sonha-se com a perfeição. Não há pessoas perfeitas, há pessoas possíveis”, diz Gisela.

Essa situação gerou uma onda de superficialidade, em que a relação de tempo foi, de certa maneira, modificada. Alguns relacionamentos curtos passaram a ser vistos como longos, e há uma pressa em achar a cara-metade. É como se a pessoa estivesse em um looping, envolta por ansiedade.

“A modernidade tem mostrado relações fluidas e rasas, com dificuldade de aprofundamento e intimidade. O que se nota é que, para se conseguir viver sob o mesmo teto, é preciso fazer mais arranjos, mais renúncias”, diz Renata Bento.

E para Denise Figueiredo, as opiniões discordantes andam em evidência. A realidade atual ajuda a abrir caminhos para o novo, evitando julgamentos que eram comuns. “Não acho que seja uma condição de falta de paciência, mas porque as pessoas têm opiniões diferentes em muitos aspectos”. 

Fato é que, segundo Gisela, há uma mudança em curso. “Tiramos da relação hétero monogâmica o status de ser o único modelo certo. Estamos experimentando. O que percebo é muita pressa. A ilusão de que há uma metade. As pessoas se conhecem e, em dois meses, estão morando juntas, achando que aquela é a pessoa perfeita. Não há perfeição, há experiências”.

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