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Segunda-feira

16 de Setembro de 2019

Proteção dos pais com os filhos deve ter limite

Pais limpa-trilhos é uma expressão nova para um problema crescente na educação dos filhos

No passado, a expressão limpa-trilhos era usada para aquele sujeito guloso, do tipo que come o prato dele e pergunta se você vai comer todas as batatas fritas do seu. Também era chamada assim a pessoa que namora qualquer um e está sempre atrás de obter mais prazer, em quantidade. Não deixa escapar nada.

Mais recentemente, a expressão vem sendo utilizada para pais que, de tão superprotetores, cruzam os limites dos filhos das formas mais estarrecedoras e, em vez de ajudá-los, roubam seu amadurecimento. Vide o escândalo envolvendo ao menos 50 artistas e empresários por fraude na admissão de seus rebentos em universidades de prestígio dos Estados Unidos.

Na lista, estão atrizes de Hollywood, como Felicity Huffman (da série 'Desperate Housewives'), que chegou a ser detida e liberada após quitar a fiança, sob acusação de pagar US$ 15 mil pelo teste modificado de sua filha mais velha e por ter iniciado o mesmo processo para a mais nova, embora tenha abandonado a ideia. O dinheiro era mascarado como contribuição de caridade. Mas pensa que é só na Terra do Tio Sam?

Uma professora de São Paulo que pediu para não ser identificada sabe de pais e mães que compram o TCC pronto para o filho terminar a graduação e que vão atrás de receita médica falsa para justificar a falta do filho à prova, sendo que ele não estudou. Com base no dia a dia em seu consultório, a psicóloga Adriana Moncorvo afirma que esse tema ganhou holofotes por causa do escândalo envolvendo artistas de Hollywood, mas não é recente: vem tomando forma especialmente nos últimos cinco anos.

Para a psicóloga, pais limpa-trilhos é a versão piorada dos pais-helicópteros, aqueles que pairam ansiosamente perto dos filhos, monitorando suas atividades: “Além de bisbilhotar, escolher, mimar, boicotar, clonar WhatsApp, querer ter senhas de tudo, tentar mandar na escola do filho, fazer trabalhos por ele, resumir a matéria alegando que é grande, preparar e carregar mochila até quase a porta da sala... A interferência indevida no amadurecimento do filho só aumenta”.

Pagar conta exorbitante de Uber? “Virou moda – porque o filho não quer pegar transporte público, e a mãe-pagante endossa (‘coitatinho, está cansado’). Ela compra briga de filho com outras mães nas redes sociais. Reclama se o seu rebento não foi convidado para o cinema ou uma festa. É tanto estresse! E agora os pais também estão limpando trilhos. Ou seja, imitam máquinas que vão na frente retirando qualquer obstáculo, frustração, pedra, e atestando a incompetência dos filhos de resolverem os próprios problemas”, analisa a psicóloga.

O recado de Adriana é claro: “Não dá para crescer tendo alguém que faça tudo por você. OK enquanto é criança; depois, não”. Nas palavras do psiquiatra Içami Tiba, “é com a responsabilidade que se conquista a liberdade. Liberdade não se ganha de presente”. Mesmo assim, vários universitários, quando desistem da faculdade, não vão trancar a matrícula, e sim seus pais. Ganham apartamento para morar sozinhos, mas não arcam com a maioria das despesas. “Como é que esses jovens vão se autorresponsabilizar?”, pergunta a psicóloga.

Eles só brincam de ser grandes. Não suportam um não, fazendo aumentar no consultório de Adriana casos de ansiedade, vazio. “Afinal, não estão conquistando nada e percebem que acabam sendo incompetentes, imaturos, sem autonomia. E sabemos que resolver problemas, enfrentar medos, somar erros e acertos nos fortalece – pois o ser humano aprende mais pela dor do que pelo amor. Não podemos blindar os filhos de tudo, e sim apoiá-los quando fracassarem – o que é muito diferente de querer fazer por eles, viver por eles”.

Adriana recomenda aos pais pensarem sobre como foram criados e quanto cresceram: “Tais referências ajudam a não atestar a incompetência de seu filho criada por vocês. Os jovens merecem mais”. Que tal passar a agir como pais-submarinos? É a sugestão de Silvana Clark em seu livro Fun-Filled Parenting (Parentalidade Repleta de Diversão, em inglês) referindo-se ao perfil do adulto que está por perto, cuidando do filho, mas não tão visível.

Confira reportagem completa na edição deste domingo (26) da AT Revista.