Primeira Garota AT, Adriana Carranca mira carreira de escritora: 'Missão'

Santista conquistou espaço de destaque no jornalismo com a sua cobertura de conflitos internacionais e crises humanitárias, especialmente no Oriente Médio, na Ásia e na África

Quando começamos a pensar quem seria a grande entrevista da edição especial de 16 anos da revista, não houve dúvida de que Adriana Carranca era o nome mais indicado. Para começar, ela foi a primeira ganhadora do Garota AT, concurso que não só se confunde com a história da AT Revista como inseriu modelos da região no mundo da moda.

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Tem mais: a santista de 49 anos conquistou espaço de destaque no jornalismo, com a sua cobertura de conflitos internacionais e crises humanitárias, especialmente no Oriente Médio, na Ásia e na África – algumas de suas reportagens foram publicadas, inclusive, fora do Brasil. Ao longo do tempo, Adriana, que também fez documentários e exposição fotográfica, escreveu os livros O Irã sob o Chador, O Afeganistão Depois do Talibã e o premiado Malala – A Menina que Queria Ir para a Escola. De agora em diante, ela vai focar na literatura, junto ao trabalho na rádio CBN. Na entrevista, ela relembra momentos marcantes de sua trajetória e derruba visões equivocadas que a maioria de nós tem sobre o mundo muçulmano. 

FORMAÇÃO 

Que memórias guarda de ter sido a primeira garota AT? 

Na época, eu tinha 16, 17 anos, minha mãe soube do concurso e me inscreveu. As pessoas me reconheciam, algumas pediam autógrafo. Ninguém acredita, mas o curioso é que sempre fui tímida. Até hoje, tenho de fazer todo um trabalho para falar em público. Gosto mais de ficar quietinha nos bastidores, escrevendo. A vitória no concurso ainda me deu condições de, pela primeira vez na vida, comprar presentes para os meus pais e para a minha irmã.

A chance que teve de visitar a redação de A Tribuna no período contribuiu para virar jornalista?

Pesou bastante o contato que tive com a Ivani Cardoso (que criou o Concurso Garota AT e foi editora do Galeria e da AT Revista quando ela era um caderno do jornal). Os exemplos da Ivani e de outros profissionais, principalmente a Vera Leon e a Cleide Quintas, me fizeram entender que eu podia ser uma boa jornalista. Meus pais sempre valorizaram a educação e lutaram muito para que eu pudesse estudar. Várias vezes, fiquei sem saber se ia continuar estudando no ano seguinte, porque, naquela época, o ensino público não era universal, raramente havia vagas, e meus pais não podiam pagar a escola particular. Estudei praticamente a minha vida inteira com bolsa.

Deve ter sido uma batalha para terminar a faculdade. 

Cursei Jornalismo na UniSantos (Universidade Católica de Santos) graças a uma bolsa do Governo. Depois, fiz mestrado na Escola de Economia de Londres, também com bolsa. E mais recentemente, uma bolsa integral me permitiu concluir meu outro mestrado, em Política e Relações Internacionais na Universidade Columbia (Nova York).

EVANGÉLICOS Você me falou que encara o jornalismo como uma missão. Chegou a atuar na Baixada? 

Fui produtora da TV Tribuna por um ano. A chefia queria que aparecesse no vídeo, fazendo reportagem, só que, por ser tímida, eu não queria. Na sequência, para melhorar meu inglês, morei por seis meses nos Estados Unidos, onde fui babá de três crianças, que hoje já são adultos. Tive a chance de revê-los antes da pandemia. Devemos nos reencontrar em 2021, quando eu for lançar o livro que estou escrevendo e que sairá primeiro nos EUA.

O que pode adiantar da obra? 

Quando apresentei meu mestrado na Universidade Columbia, recebi o convite para expandir a pesquisa em um livro, que, no Brasil, será distribuído pela Companhia das Letras. Acompanho uma família evangélica desde 2011. A obra, portanto, será sobre a influência da igreja evangélica americana na América Latina e o crescimento dessa religião. Há dados bem interessantes. Apesar de alguns evangélicos apoiarem o Bolsonaro, já houve no Brasil e na América Latina movimentos importantes de resistência da esquerda formados por evangélicos.

FOCO Como foi o retorno para o Brasil após morar nos EUA? 

Eu comecei a trabalhar com assessoria de imprensa em São Paulo, mas não gostei. Queria mesmo era escrever. Por ter feito alguns freelas na Editora Abril, me chamaram para trabalhar na Veja. Na sequência, fui para o Estadão e, de um tempo para cá, participo apenas da equipe da rádio CBN, para focar na carreira de escritora. Tenho mais três livros engatilhados com a Companhia das Letras.

O que a levou a se especializar na cobertura de crises humanitárias e conflitos internacionais?

Sempre quis isso. Lembro que, em Santos, eu morava perto da Gota de Leite e costumava visitar as crianças da entidade. Quando fui Garota AT, contribuí bastante com o Projeto TamTam, do Renato Di Renzo e da Claudia Alonso – os dois nem imaginam como influenciaram a minha visão de mundo. Depois que fui trabalhar na Veja, comecei a dar preferência às reportagens sobre questões sociais. No Estadão, mergulhei de vez na cobertura do sistema prisional, do tráfico e dos conflitos internacionais. Produzi, inclusive, um documentário sobre meninas que se envolvem com o crime organizado. E para entender melhor o direito internacional e os direitos humanos, fui fazer, em 2005, o mestrado na Escola de Economia de Londres, que teve o primeiro departamento de políticas sociais do mundo. Havia 60 pessoas na classe, de 48 países diferentes.

A diversidade cultural da sua turma de mestrado devia ser incrível. 

Nas férias, uma economista egípcia muçulmana da classe, com quem fiz amizade, me convidou para ir ao Egito com ela, porque precisava escolher um dos três pretendentes a marido que os pais tinham selecionado. No final das contas, ela ficou em dúvida e não escolheu nenhum dos pretendentes. Quando voltamos para Londres, comemorei o meu aniversário em uma casa de samba e ela conheceu o marido lá.

A família da sua amiga aceitou? 

Deu tudo certo, pois o marido dela também é egípcio (risos). Em 2007, os dois se casaram e fui madrinha na cerimônia no Egito. Como o Irã fica perto, sugeri para o Estadão matéria especial no país. No ano seguinte, o jornal me enviou para fazer reportagem no Afeganistão.

ISLAMISMO Entre tantas coberturas internacionais, quais foram as mais marcantes? 

Teve a matéria com a primeira grafiteira do Afeganistão. Ela pintava os muros destruídos pela guerra na capital, Cabul, para ajudar na reconstrução do país. Em outra viagem ao Afeganistão, eu estava em uma base militar, entrevistando a comandante do primeiro batalhão feminino do país, quando o Talibã começou a atacar o prédio. Fiquei cinco horas em um bunker, para me proteger das bombas, até ser escoltada para a casa onde havia me hospedado.

Como foi a cobertura da morte do Osama bin Laden? 

Em 2011, eu estava novamente no Afeganistão, preparando matéria dos dez anos do 11 de setembro. Como na primeira viagem que fiz para lá, o meu hotel foi atacado por oito homens-bomba, aprendi que os melhores lugares para ficar são as chamadas guesthouses, casas de moradores que recebem hóspedes estrangeiros. Esses locais se mostram mais seguros do que os hotéis, pois, do lado de fora, são residências normais. Lembro que fui acordada na guesthouse às sete da manhã, com a notícia de que o bin Laden havia falecido. Como ele morreu numa operação americana, as autoridades afegãs, temendo uma reação da Al-Qaeda, fecharam o espaço aéreo do país e cortaram o sinal de celular, porque muitos atentados a bomba são acionados via telefone. As TVs também não pegavam. Corri para a embaixada do Paquistão, para tirar visto, já que foi onde o bin Laden morreu.

Teve problema para obter o visto? 

Não, mas, como o aeroporto do Afeganistão fechou, cheguei ao Paquistão uns três dias depois. Para não perder tempo, fiz algumas entrevistas por telefone e, com a ajuda de dois funcionários da embaixada brasileira que nasceram na cidade onde o bin Laden morreu, consegui o relato do irmão deles, que presenciou tudo.

DISTORÇÃO Você conheceu a fundo o mundo muçulmano. Acha que a gente aqui no Ocidente tem visão equivocada da realidade deles? 

Com certeza. A maioria dos muçulmanos não mora no Oriente Médio, como muita gente pensa. O maior país muçulmano é a Indonésia, que fica na Ásia. Logo a seguir, vem a Índia. E o árabe é a língua adotada na mesquita, só que nem todos os países que seguem o islamismo falam o idioma no dia a dia. O Afeganistão, por exemplo, é uma colcha de retalhos de tribos, cada uma falando uma língua.

Vale citar que outros contrastes? 

Há um movimento muçulmano feminista fortíssimo. Enquanto na Arábia Saudita as mulheres não podem dirigir, uma amiga da Indonésia é uma grande mulher de negócios, que mora sozinha, dirige e namora. No mundo árabe, não existe animosidade, hostilidade, na vida cotidiana, seja entre judeus e muçulmanos, entre americanos e quem mora no Irã... Geralmente, os governos de lá não representam o que a população é.

Ou seja, a gente acaba tendo uma visão mais da política do que do contexto social dessas nações. 

Exatamente. No Irã, por mais radical que o governo seja, ele enfrenta oposição. Há passeatas e protestos toda semana e jornais independentes super corajosos, que reabrem após serem fechados.

POTENCIAL Qual foi sua percepção dos conflitos que assolam a África? 

Fui para o Sudão do Sul, Congo e Uganda. Além dos conflitos, me deparei com áreas com refugiados. A minha impressão é que esses locais, no geral, são muito pobres e carecem de infraestrutura básica. A África tem bastante potencial, porém ainda sofre com os reflexos da partilha feita pelos europeus. Eles separavam as tribos para enfraquecê-las e colocavam representantes de diferentes etnias no mesmo território, para que brigassem, enquanto suas riquezas eram levadas embora. No Congo, vi pistas ilegais de avião. Diamantes e outras pedras preciosas vão de lá para a Quinta Avenida (Nova York).

O que mais chamou a sua atenção quando cobriu o dia a dia da ONU? 

Ela virou uma organização inchada e burocrática. A ONU precisa de uma reforma para se tornar mais eficiente. Mesmo assim, ainda não pode ser descartada, ela continua sendo o melhor sistema diplomático que existe no mundo.

 

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