'Por bastante tempo, precisei me camuflar, esconder quem eu era', diz Matheus Mazzafera

O influenciador procura levantar bandeiras como a LGBTI+. Ele fala ainda da carreira que fez na moda

Antes de trabalhar na TV e se tornar um influenciador digital de peso – com 6,4 milhões de seguidores no YouTube e 4,1 milhões no Instagram –, Matheus Mazzafera morou mais de dez anos fora do País e construiu uma carreira bem-sucedida no meio da moda. Aí, com a fama, o mineiro de 38 anos procurou ser mais engajado do que já era, apoiando principalmente causas animais e LGBTI+.

No bate-papo a seguir, Matheus não só relembra momentos marcantes da sua trajetória como fala de homofobia e do quanto a pandemia impactou seu trabalho e fez com que revisse algumas de suas atitudes.

TRANSIÇÃO

O que mais pesou para abrir o seu canal no YouTube?

Isso foi em abril de 2016. Na época, eu estava desempregado e achava que ia ter o canal até surgir uma oportunidade para retornar à televisão. Mas acabou acontecendo o contrário. Me realizei de tal forma com o canal e tenho sido tão feliz com ele, que não o fecharia por nada.

Por causa do meu canal, grandes portas se abriram: tive a chance de trabalhar na Globo, no Vídeo Show, e agora estou como um dos apresentadores da nova temporada do programa De Férias com o Ex Brasil, da MTV.

A minha aposta daqui para frente é conciliar o canal com projetos na TV e em outras plataformas.

Mas, antes de tudo isso, você trabalhava com moda, não é?

Sim, fui produtor de moda por uns dez anos. Na realidade, eu sempre quis trabalhar na tevê. Tanto é que, na época da escola, cheguei a fazer cursos de teatro e tudo mais. Só que, como esse sonho parecia algo muito distante, inatingível, resolvi estudar moda, que é uma área da qual gosto bastante, assim como de arte em geral.

O que aconteceu foi que, quando terminei a faculdade e comecei a trabalhar no meio, tive a certeza de que, por mais que eu ame a moda, a minha maior paixão, a minha atividade principal deveria ser algo ligado à televisão. E, hoje, vejo que, se a moda não tivesse aberto certos caminhos para mim, talvez não estivesse onde estou.

A que se refere exatamente?

Conheci a Luciana Gimenez graças ao trabalho na moda e nos tornamos amigos. Aí, com o tempo, ela deixou de ser modelo e virou apresentadora. Quando eu morava em Nova York (EUA), a Luciana queria fazer um quadro no programa dela voltado ao mundo da moda e dos modelos e me convidou para participar. Como me dei bem, sugeri para ela que eu tivesse um quadro fixo.

A partir desse momento, continuei atuando na moda, mas a minha prioridade passou a ser a televisão. Para você ter uma ideia de como era: se surgisse uma campanha para fazer no dia do programa, eu não aceitava o trabalho. Aos poucos, fui ganhando mais espaço na TV e, quando ela me consumiu por inteiro, me desvinculei totalmente da moda.

Quais foram os trabalhos mais marcantes que fez na moda?

Como produtor, cheguei a fazer a capa da revista Vogue, dos Estados Unidos. Não existe maior status do que esse, é o tipo de trabalho que qualquer pessoa do meio sonha em fazer, seja produtor (a), seja modelo.

Além disso, tive outros trabalhos de peso na moda, dos quais me orgulho bastante: atuei na Vogue Itália e na Vogue Brasil, produzi vários desfiles de fashion week... Mais recentemente, depois de ficar conhecido pelo meu canal, tive a oportunidade de assinar uma coleção de roupas e, agora, lancei uma linha de óculos.

INTERNACIONAL

Morou quanto tempo fora do Brasil?

Tive grandes experiências internacionais. Já na época da escola, vira e mexe eu morava fora do País. Por exemplo: terminei o high school em Los Angeles (EUA), depois passei alguns meses em Londres (Inglaterra). Na hora do vestibular, como ainda não existia no Brasil o curso de produção de moda, apenas o de estilista – que eu não queria fazer –, fui me formar no exterior.

Optei pela universidade de Milão, na Itália. Desse modo, juntei o útil ao agradável, porque também desejava estudar línguas e morar mais um tempo fora. Desde o primeiro ano da faculdade, estagiei na área. Após concluir o curso, trabalhei mais uns quatro anos na Itália.

Foi para onde depois?

Nos dez anos em que me dediquei à carreira na moda, sempre morei fora. Inclusive, as campanhas, revistas e desfiles que fiz no Brasil nesse período se deram nos momentos em que precisei vir ao País, para ficar alguns dias ou semanas.

Após morar na Itália, me mudei para Nova York (EUA) e só voltei para valer para o Brasil quando comecei na televisão. Nesse retorno, me firmei em São Paulo, onde estou até hoje (Matheus nasceu em Pouso Alegre, Minas Gerais, e morou parte da juventude em Belo Horizonte).

Matheus: "Todo dia, com ou sem pandemia, tento evoluir, melhorar" (Foto: Iude Richele/ Divulgação)

ISOLAMENTO

Como tem sido produzir conteúdos para o canal em meio à pandemia?

Quando ela começou, fiquei na maior dúvida se devia continuar fazendo os meus vídeos ou se era melhor dar um tempo, porque, além de levar um grande baque, como todo mundo, não sabia se teria condições de produzir o material. Para fazer os conteúdos do canal, conto com o suporte de uma equipe de três pessoas e, antes mesmo da adesão em massa do home office, pedi para que o meu pessoal passasse a trabalhar em casa.

Com isso, as minhas atribuições meio que triplicaram. Quando a equipe está junto comigo, tenho quem se preocupe em ligar a câmera, montar a luz etc. Agora, cabe a mim fazer esse tipo de coisa mais burocrática, que corresponde a 70% do vídeo. Os 30% restantes são ir lá na frente da câmera e gravar. Achei que não ia dar conta dessa nova dinâmica, pois eu também não estava muito bem psicologicamente.

Como um monte de gente, tenho lidado com um alto nível de ansiedade e com oscilações de humor, sem falar das tarefas domésticas.

O que fez a diferença nessa hora?

Costumo receber de 5 a 10 mil mensagens por dia dos meus seguidores. Há desde gente que diz que ajudei a alegrar o dia até pessoas que falam coisas bem fortes. Algumas comentam que andavam pensando em tirar a própria vida e que meus vídeos, de alguma forma, ajudaram a superar esse momento tão difícil.

Foi por isso que me forcei a continuar produzindo durante a quarentena os meus três posts diários. Mas resolvi dar um tempo em certos quadros, que, apesar de renderem muita audiência, não têm nada a ver com o momento atual. Por exemplo: aqueles em que eu ostentava produtos caros, de luxo. Não ia me sentir bem fazendo isso justo agora.

Todos os dias, com ou sem pandemia, tento evoluir, melhorar como ser humano. Só que para isso acontecer a gente tem de estar aberto, desejar de verdade. Quer período mais propício para refletir e rever coisas do que o isolamento social?

Mesmo assim, diversas pessoas não respeitam nem esse distanciamento. Cansei de brigar com amigos que iam tomar um drinque na casa de alguém. Isso não é quarentena e, sim, fazer festinha.

Consegue ficar off-line numa boa?

Dois domingos atrás, foi o primeiro dia desde que a pandemia teve início em que eu consegui dormir até tarde e não fazer nada. Antes do coronavírus, eu trabalhava de segunda a sexta, oito horas por dia; agora, praticamente não paro de segunda a domingo, tenho trabalhado bem mais de oito horas por dia.

O influenciador digital precisa se policiar com frequência, porque, enquanto para a maioria das pessoas postar algo nas redes sociais não passa de uma diversão, para a gente é trabalho, mesmo quando nós estamos na praia ou numa confraternização com os amigos.

Se o influenciador não tomar cuidado, corre o risco de ficar o dia inteiro on-line, trabalhando sem parar. Na maioria das vezes, consigo desplugar numa boa quando, por exemplo, saio com os amigos, mas, em determinadas ocasiões, tenho de me forçar a dar uma desconectada.

BANDEIRA

Junho é o mês do orgulho LGBTI+ e você costuma se colocar como um dos porta-vozes da comunidade. O que procura priorizar nesse sentido?

Eu faço muita terapia. Na minha própria análise, acredito que a vontade que tenho desde pequeno de ser conhecido se deve ao fato de, por bastante tempo, ter precisado me camuflar, esconder quem eu era de verdade. Na infância, eu queria brincar de boneca e fazer outras coisas que, na época e no meu pensamento, eram consideradas erradas. Foi assim com a maioria dos meninos gays como eu, que, hoje, estão quase com 40 anos ou mais.

Sou grato por tudo o que conquistei. Mas vou te falar que, depois que me tornei famoso, o sucesso deixou de ser o que mais aquecia o meu coração. O que mais me motiva hoje é usar a minha voz em prol da bandeira LGBTI+.

Qual é o recado principal que procura transmitir para as pessoas?

Que é normal ser gay. Com frequência, vemos travestis sendo agredidas e até mortas, casais gays expulsos de shoppings por estarem de mãos dadas... Será que o hétero gostaria de ser olhado ou tratado como quem é LGBTI+?

E qual foi a maior barreira para você se assumir?

Tudo é difícil! Desde você acordar e se sentir errado, ter vergonha de quem é até ser julgado pelos outros e sofrer preconceito, bullying. Eu tinha 18 anos quando realmente me assumi. A partir daí, comecei a não aturar certas coisas e brigar por causa disso.

Também passei a podar amigos que faziam brincadeiras homofóbicas, pois tem muita coisa que está enraizada e as pessoas desconhecem completamente. Elas precisam que você explique e as corrija. Sabe, eu tive o privilégio de morar fora e de contar com amigos que me aceitam, mas um monte de gente não pode dizer o mesmo. Comecei a querer ajudar essas pessoas; com o canal, apenas pude me posicionar ainda mais nesse sentido.

BENEFICENTE

Pensa em montar um projeto social ou entidade?

É muito cedo para pensar em algo assim. O que procuro fazer é ajudar diversas ONGs. E apesar de dar preferência a causas LGBTI+ e envolvendo animais, não me limito a isso, colaboro com tudo que está ao meu alcance.

Algumas coisas eu divulgo no canal e nas minhas redes sociais, para incentivar as pessoas a também contribuírem; outras coisas que faço simplesmente não falo a respeito, por achar que não há necessidade de torná-las públicas.

Sempre fui de ajudar quem precisa. Aprendi isso com a minha família, principalmente com o exemplo da minha mãe. Uma das ações para as quais destino dinheiro todo mês é a realizada em Pouso Alegre, minha terra natal, e que é voltada ao atendimento de famílias bem pobres. Eu acho que todo mundo deveria tentar ajudar quem precisa.

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