Pais precisam se preparar para criar os filhos

A psicóloga Elizabeth Monteiro diz que crianças exigem muita maturidade

Psicóloga, pedagoga, escritora e palestrante, Elizabeth Monteiro tem mais de 50 anos na área da Educação e saúde mental. Autora de vários livros, como A Culpa é da Mãe, Criando Filhos em Tempos Difíceis, Cadê o Pai Dessa Criança, acredita que a sociedade só vai mudar quando tiver pais melhores. “Precisamos de pessoas mais conscientes e investir na família para melhorar a sociedade. A gente fala muito em salvar o planeta, mas não se trata apenas disso. Precisamos salvar os futuros cidadãos que vão habitá-lo”. Na entrevista a seguir, Elizabeth, que nasceu em São Paulo, dá dicas preciosas para pais e mães na tarefa diária e contínua de educar os filhos para o mundo, principalmente em tempos de pandemia.  Leia a entrevista completa no site.

Um de seus livros, A Culpa é da Mãe, fez muito sucesso. É verdade isso?  

Em geral, a mãe é responsável por tudo o que acontece com o filho, seja de bom ou de ruim. No entanto, esse conceito surgiu com mais força a partir da década de 1950. Antes disso, a maternidade era bem diferente e não tinha essa ideia de culpa. Mas, por uma questão cultural, tudo mudou. Ao pai, cabia o papel do provedor e, à mãe cuidar da casa e dos filhos. Com isso, as mulheres cresceram que eram responsáveis por tudo o que acontecesse de bom e de ruim aos filhos. E, mesmo com as famílias tendo mudado tanto, pois as mães trabalham foram, isso ainda continua. As mães se culpam quando percebem que não são perfeitas.  

De que maneira essa culpa pode atrapalhar a criação dos filhos?  

O peso dessa culpa impede essa mãe de educar. Além disso, maternidade fica muito pesada, né? Porque ela não quer falhar e tem que mostrar que dá conta de tudo. Além disso, a culpa causa um outro problema: a falta de limites. Pais acham que precisam fazer tudo o que os filhos querem.  

A questão do excesso de liberdade, principalmente na adolescência é um dos grandes desafios?  

Olha, eu digo que quem quer passar por uma adolescência tranquila com o filho, construir uma boa relação com o adolescente e ter menos conflitos com esse jovem, precisa trabalhar a infância, pois é nessa fase que se fortalece o vínculo afetivo entre pais e filhos. Mas os pais ficam tão preocupados em educar, em dar limites, que acabam transformando essa infância numa série de cobranças e castigos ao invés de limites.  

Como assim?  

Os pais falam não e brigam o tempo todo: anda direito, come direito, me escuta, não pula. E não adianta nada, pois até os 5 anos, a criança é egocêntrica, é oposicionista e quer mexer em tudo. Além disso, os primeiros anos da infância são fundamentais para o desenvolvimento da inteligência e da esfera psicomotora. Sabe o que acontece com o vínculo afetivo? Essa criança, que já ouviu tanto não, estabelece uma relação desgastada com os pais, que perdem a autoridade, pois já ameaçaram tanto, falaram tanto...  

Mas como deve ser feito esse trabalho já que os pais devem dar limite e evitar que a criança se coloque em risco?  

É ensaio e erro, ensaio e erro. Pais devem respeitar e entender cada fase do desenvolvimento infantil, criar vínculos e dar limites. Embora o não seja um primeiro organizador do psiquismo, até 6, 7 anos, é preferível educar pelo sim. Mas isso não significa deixar fazer tudo o que quiser. É preciso escolher as brigas que quer comprar.  

Quais brigas são essas?  

A primeira coisa é que os pais têm que se reeducar para criar o filho. Devemos lembrar que os problemas cotidianos que acontecem na sua casa acontecem na do vizinho. Todo pai e toda mãe mandam o filho tomar banho, estudar, arrumar o quarto... Tem certeza de que quer que isso vire motivo de briga e grito todo dia? Não tem jeito, os pais precisam ser criativos e não cair nas armadilhas e ficar gritando pela casa: fulano, eu já mandei tomar banho, vai tomar banho, não vou falar de novo. Pegue a criança, leve pro banheiro, sente para estudar... Claro que haverá dias que você simplesmente não vai ligar para nada disso mas o importante é não cair nas armadilhas e fazer dessas situações motivos para conflitos eternos e diários.  

Existe uma faixa etária mais difícil?  

Eu diria que é até 5 anos. Dos 6 até a pré-adolescência, mais ou menos os 12 anos, é mais fácil de lidar. Nesse período, a criança já tem entendimento sobre as coisas, sobre regras e saiu do mundo fantasia. Digamos que é um período de calmaria, mais tranquilo do que a primeira infância e a adolescência. Mas cada etapa tem seus mistérios e alegrias.  

Os pais de hoje vivem competindo para ver quem tem o filho mais perfeito, seja nos grupos do WhatsApp da escola, nas festinhas, nas reuniões... Qual o perigo de passar isso para os filhos?  

Infelizmente, a maternidade e a paternidade viraram uma competição, um campeonato pela busca do melhor status. Não há solidariedade, nem ajuda. Nessa competição quem sai perdendo é a criança. Às vezes, nem nasceu e já tem o futuro profissional definido.  É bem complicado e até perigoso. Por exemplo, a criança gosta de tocar um instrumento. É o que basta para os pais colocaram o filho para se apresentar e achar que ele vai ser famoso. O que era um prazer vira uma cobrança e ela perde a vontade. E isso acontece na natação, no judô... Tem que deixar seu filho ter prazer naquilo o que está fazendo.  

Como os pais devem controlar a própria expectativa?  

Mães e pais devem elogiar os filhos quando eles merecerem elogios. Não é achar bonito ou bom por achar. Os elogios precisam vir na medida certa, assim como as críticas. É sempre apontar o comportamento e explicar. São formas de dar limite de educar também.  

Pais reclamam que os filhos passam muito tempo na internet ou no videogame mas não saem do celular. Como dosar? 

Quem dá o celular para os filhos? Não adianta, pais precisam ser coerentes e servirem de modelo. Há pais que colocam os filhos no colo e ligam o desenho no tablet e ficam no celular... Porque dá trabalho interagir, contar histórias, brincar... Se você acha que seu filho fica muito tempo na internet, não basta só desligar. É preciso oferecer algo em troca: vamos montar uma casa de papelão com essas caixas do mercado, jogar, conversar...  

Dá trabalho ser pai e mãe, não?  

Muito. Precisa de ser criativo, ter disponibilidade, inclusive, física. Precisa ter disposição emocional. Não estou dizendo que você tem que viver só para o filho porque tem dias complicados para todo mundo e a criança também precisa entender que haverá momentos em que os pais não estão para brincadeira... Eu sempre digo uma coisa: antes dos pais se queixarem do comportamento dos filhos, eles precisam olhar para o deles e refletir: o que eu estou fazendo para meu filho estar desse jeito? Geralmente o que acontece é os pais rotularem o filho como bagunceiro, arteiro etc.  

Quais são os conselhos você dá para a mulher e para o homem que almejam a maternidade e a paternidade?  

A primeira pergunta que você deve se fazer é: pra que eu quero ter um filho? Cumprir um papel social? Cuidar de mim na velhice? Alegrar a casa? Dar um irmãozinho para o meu primeiro filho? Tentar uma menina, um menino? Não, você não tem que quer filho para cumprir nada. O filho tem que ser desejado, ele não é um produto. O pensamento é: eu amo criança e quero educá-la. Inclusive pode-se desejar não ter filhos ou outros filhos. Vejo mães que não conta de um e querem ter outro sob o pretexto de que o primeiro filho pediu um irmão. Criança não é brinquedo. Você tem condições de criar mais uma criança? Financeiras, emocionais, de saúde... Hoje existe jeito de se planejar, né? Precisa estudar, ler, se informar. Filho é planejamento, responsabilidade e, inclusive, amadurecimento. Você não vai brincar de boneca. Todo pai diz  que ama os seus filhos, mas poucos aceitam os seus filhos do jeito que são. Isso é amor?  

Quais foram as maiores mudanças que você sentiu durante esse período na relação entre pais e filhos durante a pandemia do novo coronavírus?

Os pais tiveram algumas dificuldades sim, mas grande parte saiu fortalecida e com segurança no seu papel, pois conheceram de perto os filhos e a si. O afastamento gera muita insegurança e os filhos acabaram procurando os pais, que estão mais presentes e validando sentimentos das crianças. Sinto que despertou um instinto protetor com a família e uma vontade maior de cuidar dos filhos.  

Muitas famílias, que mal se viam na hora do jantar, estão há meses juntas, confinadas. Quais lições elas devem tirar?  

A pandemia mudou e está mudando a vida de todo mundo. Acredito que cada família encontrou uma forma de passar por essa fase. Tivemos as que gostaram e que aprenderam com o que aconteceu. Aprenderam, inclusive, que é gostoso cuidar dos filhos, da casa e muitos pais nem sabiam que tinham essa capacidade. Por outro lado, as famílias já desestruturadas se arrebentaram; casamentos terminaram e aquilo que não estava bom, piorou. Claro que tivemos casos de famílias que se reencontraram. Aconteceu de tudo um pouco, mas algo me surpreendeu com tudo isso.  

O quê?  

A gente não sabia que a gente conseguiria fazer isso: ficar confinado e isolado. Eu nunca imaginei que conseguiria passar por essa reclusão total e que daria conta! Lembrei de uma história. Sabe como as águias aprendem a voar? Quando as mães tiram os filhotinhos para fora do ninho e o empurram para o precipício. A mãe, claro, sofre. Mas assim que eles caem, começam a voar. Sabe por quê? Porque descobrem que têm asas. Então, essa pandemia fez a gente descobrir que a gente também tem asas. E a gente só vai descobrir que é capaz enfrentando as dificuldades. Algo que tem tudo a ver com a maternidade e a paternidade. 

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