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Quinta-feira

18 de Julho de 2019

Novo presidente da Codesp quer melhorar o Porto de Santos

Casemiro Tércio Carvalho, que vai ministrar palestra em evento do Grupo Tribuna, abre seus planos para o Porto

Esqueça aquela imagem tradicional, que logo vem à mente quando pensamos no diretor-presidente da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). No cargo há quase dois meses, o engenheiro naval Casemiro Tércio Carvalho é o tipo de gestor que só usa gravata quando é realmente necessário, que acaba com os gabinetes na diretoria da empresa e que, além de fazer algumas reuniões de trabalho em casa, não tem o menor problema em abrir as portas do seu apartamento para dar uma entrevista superinformal.

Por falar nisso, imagine a surpresa de nossa equipe ao ser recebida por Tércio na cozinha, enquanto preparava um omelete e café na prensa francesa para embalar o bate-papo, às 8h30 da Sexta-Feira Santa. No fundo, essa postura diferente do paulistano de 41 anos, que é um dos donos do restaurante Epi, na Capital, e que ainda gosta de praticar alpinismo, tem tudo a ver com o espírito de mudança que ele está implementando na Docas.

Como você verá a seguir, isso passa por remodelar a marca Codesp e internacionalizá-la, abrir o capital da companhia na bolsa e estreitar a relação Porto-Cidade de modo a contribuir para valer com a economia, o turismo e a cultura da região. Tem mais: na terça-feira, às 14 horas, Tércio vai ministrar palestra, para convidados, no Encontro Porto & Mar, evento que abrirá uma ampla programação do Grupo Tribuna para debater medidas para o desenvolvimento do Porto de Santos – o ponto alto será um grande seminário em junho.

EMPREENDEDOR Antes de assumir a presidência da Codesp, você montou um restaurante em São Paulo. Há quanto tempo se interessa por gastronomia?

Abrir o Epi foi uma loucura que fiz. É um hub gastronômico de operação complexa, pois, além de café, bar e restaurante com menu extenso e produtos artesanais, conta com aulas de gastronomia. Sempre tive vontade de montar algo na área da culinária. Sou apaixonado por gastronomia desde os 5 anos, que foi quando fritei o meu primeiro ovo. E gosto de cozinhar para muita gente, ouvindo um jazz e bebendo um vinho. Se não dá tempo de conversar com a equipe na Codesp, realizo uma reunião aqui em casa. Quanto à ideia para o Epi, ela surgiu em 2016 e, depois de um período de pesquisa, o espaço abriu as portas no ano passado. 

Tem mais algum empreendimento?

Quando saí da presidência do Porto de São Sebastião em meados de 2017, eu e mais três politécnicos contemporâneos montamos o Bureau da Engenharia, empresa focada em engenharia portuária, hidrovias, dragagem e montagem industrial. Mas, por uma questão de compliance, ao aceitar o convite para presidir a Codesp, tive não só de sair desse negócio como de outro empreendimento que toquei em paralelo ao Bureau: a Garín, empresa que faz investimentos em fintechs (startups de tecnologia), gestão patrimonial e tem ainda atividades ligadas a infraestrutura. 

Foi difícil tomar a decisão de se afastar desses projetos?

No final do ano passado, o Diogo Piloni (e Silva, secretário nacional de Portos e Transportes Aquaviários) me convidou para assumir a Codesp. Inicialmente, eu disse que não, porque estava envolvido nos empreendimentos que citei. Mas o Piloni foi me sensibilizando sobre a importância da missão. Fiz uma tabela longa, de prós e contras, e acabei aceitando o desafio em dezembro. O que me motivou, em primeiro lugar, foi poder montar o meu próprio time, sem a obrigação de aceitar indicações políticas para o preenchimento de cargos. Tenho certeza de que a gente veio para chacoalhar. Há quem não queira mudanças no Porto, só que vamos ser firmes nesse propósito. É importante dizer que a corrupção na Codesp não vem apenas da diretoria anterior. Trata-se de algo que existe desde que o Porto foi montado.

REPAGINAÇÃO A corrupção, então, é algo institucionalizado?

Sim. O ambiente portuário não tem margem boa, está com moral baixa no País inteiro. Por ele passam drogas, prostituição, os jeitinhos brasileiros. Eu e o meu time estamos aqui para mudar a cara do Porto de Santos. O conselho de administração da Codesp tem que zelar pela empresa. Isso é mais do que cuidar do caixa, significa se preocupar com a prosperidade, com a continuidade da companhia nos próximos 10, 20 anos. Precisa repaginar a Autoridade Portuária inteira. Brinco que a gente tem que dar um banho de Iguatemi na Codesp, trocar tudo.

Esse processo de troca se encontra em que ponto?

Já alteramos 100% da diretoria. Inclusive, há muitos profissionais da casa que estão sob observação e identificamos algumas pessoas que tinham sido colocadas de escanteio e que podem contribuir bem mais com a empresa. Fiz algo inédito na Codesp: uma reunião com todos os diferentes níveis de chefia, praticamente 100 pessoas, em que expressei o que é prioridade da nossa gestão.

Os presidentes anteriores não eram tão acessíveis?

Hoje, a Codesp tem uma postura mais aberta. Tanto é que, na diretoria, abolimos todos os gabinetes. A gente colocou uma mesa numa sala onde todo mundo senta junto. O que sinaliza que as decisões ali são horizontais, que eu, como diretor, consulto cada diretor e que eles me apoiam.

ECONOMIA Quando assumiu o cargo, você disse que queria mostrar que o Porto de Santos, além de ser o maior da América Latina, pode se tornar o melhor. O que precisa ser feito para chegarmos a esse patamar?

O Porto deve ter uma operação mais rápida e com preços justos. Atualmente, a operação de contêineres em Santos é uma das mais baratas do mundo, por causa da crise e da concorrência entre as empresas. No entanto, o preço do granel, ao meu ver, é caro. Estamos reavaliando isso. Vamos realinhar todos os preços do Porto, com base na nova tabela tarifária da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), porque há discrepâncias tanto para mais quanto para menos. Alguns valores vão aumentar; outros, diminuir.

O que mais deve ser melhorado?

Ainda serão necessários ajustes em termos de avaria e de serviços atrelados. A Codesp tem que ver o que o cliente precisa. Por exemplo, se ele quer exportar para Hong Kong, na China, mas enfrenta problemas de certificação, a Autoridade Portuária pode auxiliar nisso. Pretendo colocar escritórios do Porto de Santos em outros países para entender como são as certificações por lá e, assim, ajudar a melhorar o desempenho dos produtos brasileiros na exportação. Do mesmo jeito que a gente deseja atuar lá do outro lado do mundo, a ideia é, também, auxiliar no processo de importação de produtos. Já estamos conversando com uma empresa brasileira centenária que faz certificação na Ásia inteira de mercadorias que vêm para cá. O Porto não é só um palmo de terra, um acesso para os navios. A Autoridade Portuária tem que considerar o que pode fazer pelas cadeias produtivas, para melhorar a economia do País.

INTEGRAÇÃO Que ações focadas em tecnologia estão previstas para Santos?

A gente precisa estudar que tipo de tecnologia pode ser utilizada para que, assim que o navio chegar ao Porto, o trâmite seja mais eficiente. Há estatísticas sobre a demora na operação e a fila de espera. Tem navio que fica parado na barra e sequer vai operar no Porto. Ele está apenas aguardando uma brecha para arrumar cargas, só que, no fim das contas, acaba entrando na estatística da fila para operação. Também vamos montar uma incubadora, uma aceleradora de startups de soluções portuárias. Em vez de contratarmos um <monte de estagiários, preferimos pegar a quantia de R$ 2 milhões, R$ 3 milhões que gastávamos por ano com esses colaboradores e investir o dinheiro em startups com propostas interessantes. Há empresas muito boas em Santos. A Paragon, por exemplo, desenvolveu o algoritmo de otimização da fila do Canal do Panamá. Se os melhores programadores do mundo são indianos e brasileiros, para que vou comprar um software da Europa ou dos Estados Unidos?

Qual sua avaliação da atual relação Porto-Cidade?

Esse não é só um problema de Santos, mas mundial. O principal ponto é como o Porto enxerga a Cidade e vice-versa. Não dá mais para um ficar de costas para o outro. Se o Porto representa parte significativa do faturamento da Prefeitura e da Cidade de Santos, precisa haver um planejamento conjunto para a geração de empregos e a preparação de mão de obra para o Porto 4.0. Mais cedo ou mais tarde, os contêineres serão operados por homens e mulheres atrás de um computador numa sala com ar-condicionado. Não haverá necessariamente a figura da estiva. Quem irá para o cais será o técnico mecatrônico, que vai ajustar e fazer a manutenção dos equipamentos. 

O Porto de Santos está preparado para isso?

Eu acredito que sim. Aliás, a modernização do Porto de Santos já começou. O sistema de controle de tráfego já está no formato 4.0. A Santos Brasil já sinalizou que vai automatizar seu terminal. A questão, portanto, é mudar o conceito social, e o ambiente de startups vai ajudar nesse processo. Falta diálogo entre o Porto, a Prefeitura e a população em geral. Normalmente, o Poder Público e o Porto ficam mais brigando e as pessoas veem isso de longe. Como podemos envolver a população nesse contexto? O mais incrível é que todo mundo tem um parente que trabalha, direta ou indiretamente, no Porto. Então, como é que a maioria das famílias não discute essa realidade no café da manhã, no jantar ou na reunião de domingo? Daí a estratégia de se aproximar da imprensa, da Prefeitura e da sociedade para debater o Porto. Nós vamos, por exemplo, sentar com as universidades e propor parcerias para a nossa aceleradora de startups.

E já está havendo uma aproximação da Prefeitura?

Sim, já conversei com o prefeito e os secretários de Desenvolvimento Social e de Assuntos Portuários, Indústria e Comércio. O que acontece é que a nossa gestão tem só quase dois meses, o mato ainda está bem alto, há vários problemas internos da companhia para resolver, como coisas que não foram documentadas, entre elas o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) referente ao futuro dos armazéns do Valongo, que vai implicar em vários contratos totalizando R$ 150 milhões em investimentos. Hoje, qualquer contrato superior a R$ 7 milhões precisa ser aprovado pelo conselho de administração da Codesp. Como é que não existe sequer uma ata de reunião da diretoria sobre o TAC? Essa história está estranha, mas não estou aqui para criar disputas.

Economia verde combina com Porto?

Sim. Inclusive, esse foi um dos meus trabalhos enquanto estava na Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo. O conceito da economia verde é reduzir a emissão de carbono, os resíduos, gastar menos energia, enfim, ser mais eficiente. Se a gente trocar todos os ares-condicionados da Docas por modelos do tipo inverter, já estará fazendo economia verde. Assim como colocar equipamentos no cais para segurar o particulado de açúcar e fiscalizar os caminhões que soltam fumaça preta. Óbvio que a nossa gestão vai mirar na economia verde. Mas as medidas propostas precisam ter sustentabilidade financeira. <Não posso propor algo que será cinco vezes mais caro do que o que é feito hoje. Aí entra a parceria com as universidades e startups.

CENTRO O Porto pode contribuir com o turismo local?

Sem dúvida. Só que eu não acho que seja necessariamente por meio do Valongo. Para essa área do cais, vamos fazer um chamamento público de projetos de investimento, que podem ser de operação de carga, de apelo turístico etc. Essa convocação vai ficar aberta por cerca de 60 dias. 

Tanto já se falou em replicar em Santos o Puerto Madero (complexo portuário turístico de Buenos Aires, na Argentina). Isso é viável?

É, mas na Ponta da Praia, e vamos oferecer esse projeto para a Prefeitura. Antes disso, devemos solucionar a situação do Valongo. Não adianta colocar um restaurante lá se o Centro não estiver suficientemente ocupado. Falei para o prefeito: “Serei seu embaixador no meio portuário. Vamos conversar com as empresas do Porto e ver quais estão a fim de investir no Centro, desenvolvendo projetos culturais para torná-lo vivo”. Nós já chamamos uma organização com expertise em administração de patrimônio cultural, que tem projetos no centro antigo de São Paulo e instituiu o patrimônio cultural da Serra da Canastra, em Minas Gerais.

Como seria esse resgate do patrimônio cultural do Centro?

Estamos montando uma comissão para viabilizar o novo Museu do Porto. Nós já temos um museu na sede da Codesp, mas, desculpa, como pode ele funcionar somente de segunda a sexta e ficar fechado no sábado e no domingo, dias tradicionalmente com maior movimento de turistas? A ideia é tirar o Museu do Porto do prédio da Autoridade Portuária e levá-lo para o Centro. Nesse novo espaço, não bastará apenas colocar uma âncora, uma hélice... Teremos de mostrar como o Porto nasceu, se desenvolveu, falar do hoje e projetar o amanhã. Esse empreendimento pode, junto com o Museu Pelé e a Bolsa do Café, criar um circuito cultural por meio do qual a pessoa terá atividades culturais no Centro para o dia inteiro. Mas a situação não se resolve só abrindo um museu. Tem que deixar o Centro mais agradável, trazer mais cafés, restaurantes, lugares para ouvir chorinho, jazz e assim por diante.

PRIVATIZAÇÃO Antes da entrevista, você citou uma remodelação da marca Codesp. Isso seria o quê?

A gente tem que internacionalizar a marca do Porto de Santos. Esse processo passa por deixar de ser a Companhia Docas do Estado de São Paulo e se tornar a Santos Port Authority. Afinal, a língua oficial do Porto é o inglês. Essa internacionalização da marca é importante para mostrar que a gente está além do canal, da perimetral, dos terminais. Nosso trabalho é bem mais do que isso. Mas a mudança de marca não pode ser feita de uma hora para outra. Em quase dois meses de gestão, já dobramos o resultado da companhia em termos de geração de caixa. Essa conquista faz parte da gestão de mudança de marca, assim como a meta de abrir capital na bolsa B3, de novo mercado.

O que acha de os governos Federal e Estadual se proporem a negociar, de fato, a privatização do Porto de Santos? 

Há várias formas de fazer uma privatização: você pode desestatizar todos os serviços e ficar com a Autoridade Portuária pequenininha e pública; você pode conceder a administração inteira para uma empresa, como vai acontecer em Vitória (Espírito Santo); ou você pode abrir capital na bolsa, o que está sendo proposto para Santos. Com isso, protege-se o Porto e a Autoridade Portuária do mau gestor, porque há tantas regras de compliance, de governança, que você tem de prestar contas não só para os acionistas como para os órgãos regulamentadores.