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Segunda-feira

14 de Outubro de 2019

Neurologista aponta como evitar a depressão

Segundo a OMS, ela será a doença mais incapacitante a partir de 2020. O neurologista Leandro Teles, que lança livro sobre o tema, aponta enganos comuns e atitudes essenciais

O título do novo livro do neurologista Leandro Teles é bem sugestivo: Depressão Não É Fraqueza. Na obra, publicada pela editora Alaúde, o médico mostra que a doença tem vários subtipos e, além de ser marcada por sintomas psicológicos como tristeza profunda e duradoura, pode afetar a capacidade intelectual da pessoa e seu bem-estar físico, com dores ao redor do corpo e até problemas no funcionamento do intestino. Membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Teles afirma, a seguir, que é possível prevenir a depressão e aponta que perfil de pessoa tem mais chances de desenvolver a doença. Ainda alerta que parte considerável dos casos acaba não diagnosticada ou tratada incorretamente.

ALERTA

Qual é a dimensão atual da depressão?

Ela é uma das doenças mais frequentes hoje, um problema de saúde pública. No mundo, há mais de 350 milhões de pessoas com depressão. No Brasil, são cerca de 12 milhões de casos. A previsão da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que a depressão se torne a enfermidade mais incapacitante a partir de 2020, a que mais rouba dias produtivos e afasta do trabalho, provocando muitas perdas financeiras e pessoais. Sem falar que a depressão não altera só a vida do portador, também tem impacto na família daquela pessoa, na empresa e na sociedade inteira. E é doença potencialmente fatal. Atualmente, o suicídio figura como uma das principais causas de morte no mundo. Por ano, registra-se quase um milhão de mortes por suicídio e a depressão é o maior fator de risco para isso.

Que outro dado merece atenção?

Há uma taxa significativa de subdiagnóstico, ou seja, de pessoas que não recebem o diagnóstico da doença. A OMS estima que cerca de 50% dos portadores de depressão não são diagnosticados e, assim, ficam sem tratamento. Isso ocorre por falta de percepção, de um conhecimento do problema, por não se ter acesso ao sistema de saúde ou mesmo por despreparo da equipe médica, que, num primeiro atendimento, às vezes menospreza essa hipótese e, além de focar mais nas doenças clínicas, faz uma consulta rápida.

A depressão também está envolta de tabus e preconceitos.

Sem dúvida. Muita gente ainda acha que é falta de fé ou religião, uma doença de mulher ou de rico, uma fraqueza de caráter, uma frescura. Há quem por vergonha de receber o diagnóstico ou por preconceito com relação ao psicólogo, psiquiatra ou neurologista não procura ajuda. Outro aspecto cruel é que apenas uma parte das pessoas diagnosticadas recebe tratamento adequado. As demais ficam tolerando sintomas residuais. Quando há o tratamento correto, se tem sucesso em 80% dos casos. Só que o paciente, depois de curado, precisa manter a vigilância, pois quem já teve depressão pode voltar a apresentar a doença. E se a pessoa não melhora com o tratamento, deve conversar com o médico para trocar a abordagem ou ir atrás de opiniões de mais especialistas.

CAUSAS

Em que tipo de pessoa há mais incidência de depressão?

Ninguém está imune a ela. Essa é uma doença democrática. Porém, ela se mostra mais frequente no sexo feminino (a proporção é de duas mulheres para um homem), em jovens (entre 15 e 35 anos) e em pessoas com menos escolaridade. A depressão também é mais comum nas classes mais pobres, em desempregados e viúvos. E existe um componente genético: quem tem familiares de primeiro grau com depressão possui mais chances de, um dia, apresentar o problema.

Por que há índices maiores nas classes sociais mais baixas?

O histórico de vida pesa bastante na depressão. Quem passa por altos níveis de estresse, por muitas privações e eventos traumáticos ou violentos tem maior predisposição. Incluo aí pessoas que sofreram assédio sexual ou moral, que foram violentadas durante a infância, que possuem casos de alcoolismo na família ou que vivenciaram separações traumáticas. E não podemos ignorar o impacto da violência urbana, da sobrecarga no trabalho, do endividamento, de não praticar atividade física com regularidade e não ter uma boa alimentação. Outras doenças também favorecem a depressão. 

Quais, por exemplo?

Quando a depressão não aparece isoladamente, pode surgir como reflexo de dores crônicas, de distúrbios do sono, de um câncer, infarto ou AVC. Ainda há grande incidência em quem tem doenças ortopédicas ou reumatológicas que, além de dor, causam limitações e a sensação de vulnerabilidade, ainda mais na terceira idade.

Está comprovado que quase 50% das pessoas com fibromialgia têm depressão. Alzheimer, Parkinson e esclerose múltipla são outras enfermidades que favorecem o quadro depressivo. Mas a depressão também pode servir como gatilho de determinados problemas, como insônia, transtorno de ansiedade e abuso de álcool e outras substâncias. Gostaria de chamar atenção para mais um aspecto bem preocupante: o aumento de casos de depressão na infância, na adolescência e na terceira idade.

O que está por trás disso? 

Diversos idosos são desvalorizados por causa da idade, ficam solitários e encaram dificuldades financeiras, devido ao aumento nos gastos e à diminuição do poder de compra após a aposentadoria. No que se refere às crianças e adolescentes, há o excesso de expectativas e cobranças, o bullying, os impactos do ritmo de vida do mundo atual, pois as pessoas estão cada vez mais aceleradas, competitivas, críticas e intolerantes ao erro, ao tédio e às frustrações. Associado a isso, temos o sentimento de inadequação, muitas vezes, gerado pelas redes sociais e a tecnologia provocando isolamento. 

SINTOMAS

No seu livro, você fala que a depressão é uma doença do cérebro. Que áreas são afetadas?

Muitas teorias apontam a existência de um processo inflamatório no cérebro, principalmente no lóbulo frontal, que modula nossos comportamentos, e no sistema límbico, que é relacionado às emoções. Há descontrole de alguns neurotransmissores e a “conversa” entre certos neurônios é afetada. Acontece baixa, especialmente, <de três neurotransmissores: serotonina, que, em caso de falta, deixa a pessoa mais ansiosa, pessimista e gera desconforto; dopamina, responsável pela sensação de prazer e recompensa; e noradrenalina, importante para a disposição e a vigília. 

A tristeza é o sintoma mais comum?

Sim, mas ela não pode ser recriminada. Ao analisar não só o nosso próprio comportamento como o das pessoas que nos rodeiam, para identificar se elas precisam de ajuda, devemos fazer uma diferenciação: é comum ficarmos tristes de vez em quando, afinal esse sentimento nos faz amadurecer. O sinal de alerta passa a existir quando a tristeza é profunda, dura mais de 15 dias e não tem motivação clara ou se mostra totalmente desproporcional ao que aconteceu na nossa vida. A pessoa geralmente fica apática, desmotivada, com uma baixa autoestima, pessimista além da conta, reclama mais do que o normal e deixa de sentir prazer no que gostava de fazer. Com frequência, carrega um sentimento de frustração e uma sensação excessiva de culpa.

O que mais é comum?

Também podem haver sintomas intelectuais, como desatenção, falhas de memória, dificuldade para se concentrar, pouca criatividade, render menos do que o usual, aumento na taxa de erros no trabalho e na vida social. Dependendo do caso, a pessoa ainda apresenta sintomas físicos: dores de cabeça e no corpo, tontura, alterações de cunho sexual e no funcionamento do intestino. Nas mulheres, inclusive, pode haver mudança no ciclo menstrual.

VARIAÇÕES

Existe apenas um tipo de depressão?

Ela pode ser dividida em subtipos com base na sua intensidade (mais leve, moderada ou grave; os casos suaves são os mais difíceis de identificar, pois a pessoa, mesmo com dificuldade, continua levando a vida adiante). Também podemos classificar a depressão a partir do seu sintoma predominante (alguns quadros são mais marcados por ansiedade; outros, mais por apatia ou até por delírios psicóticos). Mais uma divisão importante é se a depressão se mostra unipolar (a da maioria da população) ou bipolar (que é quando o humor da pessoa oscila entre momentos de tristeza e de euforia ou irritação, o famoso transtorno bipolar). A depressão ainda pode ser crônica (quando os sintomas persistem por dois, três, quatro anos). E existe um tipo mais orgânico, em que o corpo não fabrica alguns hormônios direito, seja por problemas na tireoide, andropausa... 

TRATAMENTO

Existe alguma forma de prevenir a depressão?

Com certeza! Devemos ficar de olho no nosso emocional e na nossa parte cognitiva, no rendimento cerebral. É muito importante dormirmos de modo adequado, praticarmos exercícios físicos com regularidade, termos uma boa alimentação e não guardarmos mágoa, nem nenhum outro sentimento negativo. É essencial tentarmos resolver os problemas à medida em que eles aparecem e desenvolvermos habilidades como resiliência e aceitação do que não pode ser mudado. Também faz a diferença enxergarmos mais o lado bom das coisas e evitarmos ambientes e relações tóxicas. 

Como é o tratamento ideal?

A depressão se mostra uma doença bem heterogênea e seu tratamento deve ser abrangente, quase sempre associando psicoterapia com mudanças nos hábitos e no estilo de vida (dormir direito, comer bem, se exercitar, rever suas relações sociais e com o trabalho, se expor mais ao sol). Na maioria dos casos, ainda se prescreve antidepressivos, durante meses ou anos, para aliviar determinados sintomas com fundo bioquímico. Mas é arriscado achar que esses remédios são pílulas mágicas, a salvação da lavoura, que sozinhos vão resolver tudo.

Por que citou a exposição ao Sol como algo recomendado

Sabe-se que fazer atividades ao ar livre melhora o estado de espírito. Basta ver que em países como os mais ao norte da Europa, onde os invernos são mais longos, rigorosos e o sol fica exposto por menos tempo, existe o que chamamos de depressão sazonal. E é fato: a gente fica mais disposto no verão.