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Sexta-feira

19 de Julho de 2019

Mulheres têm o direito de escolher serem ou não mães

Maternidade traz responsabilidades de um lado e alegrias imensas de outro.

É de suma importância que a pessoa queira desempenhar esse papel, por não haver volta – e há várias formas de realizar essa vontade. Pode ser mãe biológica, adotiva, doando seu carinho a um grupo de pessoas carentes. E até maternando os pais, agora velhinhos, numa inversão de papéis cada vez mais comum quanto aos cuidados e responsabilidades. “Nenhuma mulher é obrigada a ser mãe – precisamos desmistificar isso. É um direito de escolha, que a sociedade deve apoiar”, afirma Mariana Deperon, advogada, mestre em Direito Civil Comparado e especialista em direitos das mulheres e questões de gênero. 

Ela avalia que a natureza biológica feminina facilita esse tipo de pressão, especialmente quando a mulher passa dos 30 anos.

Não faltam perguntas como “e aí, não vai casar?” e “quando vai ter seu filho?” No caso de Mariana, ela postergou esse plano pessoal por causa do trabalho. “Eu sempre quis ser muitas coisas; e o meu papel profissional surgiu bem antes (aos 18 anos) do papel de mãe (com 37 anos). Eu tinha, portanto, quase duas décadas de desenvolvimento de carreira quando recebi a Maria Isabel em meus braços”, diz ela, que resolveu nessa época trocar o papel de executiva de banco para o de empreendedora, abrindo sua consultoria em diversidade, a Tree.

Aviso no primeiro encontro

Antes mesmo de namorar o marido, ela contou sobre seu desejo de ser mãe um dia. “Fiz isso principalmente por já ter escolhido vivenciar a maternidade pelo caminho da adoção. Casamos em pouco tempo, por amor, e dois anos depois realizamos esse grande projeto em comum. O casamento não vingou (sou uma recém-divorciada), mas sempre tivemos a consciência de que o projeto filho seria para sempre. Mantemos uma relação de bastante amizade, civilidade, cumplicidade, compromisso de criar a Maria Isabel com todo amor do mundo. Nós sabemos que o que mais nos uniu foi essa garotinha linda, que vai fazer a diferença no mundo”.

No dia a dia, a maioria das mães reconhece que não dá para ser perfeita e que as horas parecem ficar mais curtas. “E é comum ouvir dos especialistas que os filhos querem qualidade de tempo. Mas eu sinto, na prática, que eles querem quantidade também! Quando minha filha chega da escola, eu não consigo nem atender direito a um telefonema. Só volto a trabalhar quando ela vai dormir. Com 5 anos, a Maria Isabel olha para mim com tanta admiração e deposita em mim tanta esperança, que há o risco de eu me cobrar demais. Mas é melhor deixar algumas petecas caírem e priorizar o carinho”, comenta Mariana. 

Uma decisão de anos

A escritora Angela Senra, coautora do livro Aprendi com Meu Filho, entre outros, lembra que brincava de boneca e de casinha já tendo a certeza de que um dia seria mãe: “Temos a ideia de que as crianças não sabem o que querem, não entendem nada da vida e tal. Mas eu acho que é o contrário. Acredito que nossa alma infantil sabe muitas coisas”. 

Com 18 anos, o namorado da época quis casar e construir uma família, mas Angela achou cedo demais e decidiu esperar.

“Tive namoros instáveis, que não chegavam a um nível que me permitisse dizer: agora, sim, posso ter um filho com esse cara. Quando cheguei aos 40 anos, comecei a trabalhar em mim a questão da maternidade com urgência: desistir por não ter um parceiro ou realizar sozinha mesmo?” E essa não foi uma decisão de dias e nem de meses. “Demorei anos até encontrar a certeza dentro de mim de que, sim, amaria e seria amada por uma filha que não tivesse saído de mim. Dei entrada no processo de adoção no dia em que completei 46 anos. Maria Paula veio para casa com 10 meses de idade. Ela confirmou o que eu já sabia, que a minha hora de ser mãe havia chegado. Ela me ama e eu a amo demais!”, declara-se Angela. 

Maternar é uma das coisas mais desafiadoras que existem na face da Terra. Envolve responsabilidades, custos, um monte de preocupações, lembram Mariana e Angela. Mas nada é tão fortalecedor para um ser humano do que ser amado pela sua mãe. Nas palavras do romancista James Joyce: “Tudo é incerto neste mundo hediondo, mas não o amor de uma mãe”.

Confira reportagem completa na AT Revista deste domingo (12).