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Sábado

8 de Agosto de 2020

Motivações de compra mudam com a pandemia

O ideal é manter o foco na saúde, mesmo durante o 'consumo de vingança"

Temos consumido ainda mais sabonetes e outros produtos de higiene e em menor proporção cosméticos e fragrâncias, itens mais ligados ao ato de sair para passear, estudar ou trabalhar. Esse é um impacto do novo coronavírus nos hábitos de consumo dos brasileiros, segundo estudo da consultoria Euromonitor International.

Outro reflexo é a valorização dos pequenos negócios, aqueles próximos de casa. Além de ajudá-los a não “quebrarem”, isso reduz os deslocamentos de pessoas. E cai de vez a resistência ao delivery – de sanduíches a meias.

Bruno Dreher, especialista em inovação e futuro pela HUJI (Universidade Hebraica de Jerusalém), membro da World Futures Studies Federation e da World Future Society, acredita em mais mudanças decorrentes da realidade atual. Entre os motivos, ele aponta três: 

1 - Boa parte das empresas vai adotar o home office no pós-pandemia – e pessoas em casa consomem menos, desde roupa até gasolina. Por outro lado, tendem a investir mais na estrutura do lar, para torná-lo mais agradável, confortável, silencioso, equipado...

2 - Muita gente vai passar por “perrengues” devido à crise financeira, reconhecendo como faz falta poupar para emergências. Conclusão: as pessoas vão guardar mais grana. A propósito, num estudo da ESPM Rio com 300 participantes do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, 42% responderam que vão economizar mais daqui para frente.

-  Cresce o número de pessoas que não querem mais adquirir o produto, mas, sim, o serviço que aquilo presta. Por exemplo, carro oferece mobilidade. E há aplicativos prestando esse mesmo serviço de forma prática e barata.  

Corrida ao shopping

Muita gente ficou chocada ao saber que havia filas nas portas de shoppings e aglomerações em ruas com comércio de várias cidades no primeiro sábado de junho, justamente pela ideia de que o período de quarentena teria feito as pessoas perceberem que precisam de menos coisas para viver. Ainda é cedo para mensurar a dimensão disso. Quando indagadas pela imprensa, as pessoas nessas filas davam justificativas que iam desde repor eletrodoméstico pifado pelo uso frequente a sanar problemas urgentes com o celular, mas pode ser que tudo não passe de desculpas para sair de casa. 

Na visão de Bruno Dreher, essas imagens não refletem o comportamento da maioria da população. Para embasar a sua tese, ele cita uma pesquisa do Datafolha, feita três meses após a divulgação do primeiro caso de covid-19, indicando que 79% dos consumidores temem pegar o novo coronavírus. “Então, no curto prazo, as pessoas sairão menos de casa do que faziam antes da quarentena. Além disso, tivemos um aumento expressivo nos quesitos desemprego e fechamento de negócios, reduzindo o poder aquisitivo para compras além do necessário”.

A percepção do especialista é que a sociedade passa por um momento de transição, culminando em maior responsabilidade financeira para não se endividar. Isso não quer dizer necessariamente consumir menos. “No longo prazo, as pessoas consumirão tanto quanto ou mais do que hoje, mesmo com algumas turbulências como a que estamos vivendo. Mudarão as formas como consomem e o que escolhem”, diz, ressaltando que as transformações de costumes continuarão a existir. 

Para dar um exemplo, Dreher comenta que, dez anos atrás, a marca mais valiosa do mundo era a Walmart, que tem como principal negócio as lojas físicas. Hoje, ela se encontra em oitavo lugar, enquanto a primeira colocada é a Amazon, que também oferece produtos de varejo, mas on-line. “Desde que os seres humanos existem, há transformações de costumes. Alguns as antecipam e prosperam. Outros ficam parados no tempo e passam a ser desnecessários”.

Ninguém ficará parado mesmo!
O especialista em inteligência de mercado Bernard Santos, CEO da Academia de Mercado, compartilha duas tendências importantes:

Digitalizou e foi bom.O mercado digital viverá uma nova era de crescimento e de expansão de fronteiras, trazendo maior diversificação. A pandemia, que levou quase todo mundo para dentro de casa, acelerou o processo de digitalização. Não somente as empresas tiveram que se reinventar nesse sentido, com os seus processos e mercados, como também os consumidores. 

Na Academia de Mercado, por exemplo, houve grande aumento na demanda por cursos on-line, inclusive despertando o interesse de consumidores que antes tinham algumas barreiras e preconceitos quanto a estudar pela internet. “Outro exemplo bacana aconteceu comigo e com a minha esposa. Descobrimos nesses últimos meses que é totalmente possível praticar exercícios e atividades físicas guiadas por profissionais pela web”, diz Bernard Santos, que vê dois efeitos positivos dessa tendência. Primeiro, muita gente que antes não adquiria produtos e serviços pelo canal digital descobriu que precisava “educar-se” e quebrar preconceitos para continuar consumindo. Segundo, há um estímulo à criação de novas ferramentas, plataformas e ofertas para esses consumidores mais abertos ao universo digital, e também o crescimento das que já existiam, a fim de melhorar a experiência das pessoas.

Consumo de vingança. Santos avalia que muitas pessoas tenham pensado algo como “quando isso acabar eu vou...” por se considerarem dignas de uma recompensa após período de provação/privação, como o que nós estamos vivendo. 

“Esse comportamento social e psicológico, inerente à raça humana, trará à reboque o chamado consumo de vingança. Significa que muita gente passará a comprar itens de desejo quando a quarentena terminar. E apenas as empresas e os setores que estiverem preparados para essa onda vão tirar benefícios desse tipo de consumo”.

Tal fenômeno, também apontado no estudo da Euromonitor, já é observado mundo afora, onde o relaxamento das medidas de isolamento foi intensificado. 

Já por aqui, Bernard Santos pondera que “ainda não podemos traçar com certeza o horizonte de tempo para que isso aconteça, pois ainda há muita incerteza sobre os impactos que as regras de flexibilização adotadas em cada cidade trarão à evolução da curva de contágio”. A prioridade é estar vivo, para poder voltar a consumir com maior segurança.

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