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Sábado

16 de Novembro de 2019

Monique Evelle propõe uma nova abordagem da periferia e exalta o seu potencial

Empreendedora social é considerada uma das mulheres negras mais influentes da web

Monique Evelle é uma baiana arretada, que inova e faz a diferença. Além de se guiar pelos aprendizados que teve na infância e na juventude na periferia de Salvador, ela procura estudar as questões sociais a fundo e conhecer, de perto, iniciativas de sucesso, inclusive do Vale do Silício (EUA), para criar empresas e projetos para resolver dilemas da sociedade. A primeira ação de Monique nesse sentido foi montar, ainda no colégio, um grêmio estudantil que, depois, se tornou o projeto Desabafo Social.

A partir daí, entendeu que poderia contribuir com os problemas enfrentados pela sociedade, especialmente pela periferia, de um modo que não se limitasse à filantropia. “Hoje, faço ativismo com dinheiro”, diz a empreendedora social de 25 anos, que passou a montar empresas engajadas – entre elas a Sharp e a Responsa – e contratar para suas equipes profissionais de excelência da periferia.

Aliás, Monique defende a troca desse termo por “novos centros urbanos”, pois, segundo ela, é uma forma de mostrar que há “muita gente incrível” e muito potencial sem ser devidamente aproveitado nessas comunidades. Como consequência de todo esse trabalho e das palestras que faz, Monique, que também chegou a atuar no programa Profissão Repórter, da Globo, tem sido apontada por várias entidades e veículos de comunicação como uma das mulheres negras mais influentes da internet brasileira. 

A ponto de ter se apresentado em duas conferências TEDx (voltadas à disseminação de ideias capazes de gerar impacto social). Na entrevista a seguir, a empreendedora social, que vive na ponte aérea Bahia/São Paulo, fala não só da sua trajetória como detalha os riscos que existem na hora de largar tudo para correr atrás de um sonho ou de implantar um projeto de diversidade numa empresa. 

Você tem vários negócios voltados a comunidades da periferia. O que foi fundamental para virar empreendedora social?

Acredito que tudo começou por causa do livro que ganhei aos 8 anos, chamado Por Uma Semente de Paz. Ele conta a história de uma professora que, lecionando, queria mudar a sua comunidade e o mundo. Por causa disso, achei que devia ser professora, o que ainda não aconteceu. E não à toa criei, aos 16 anos, o projeto Desabafo Social.

Como conciliou a escola com esse seu engajamento?

Na verdade, o Desabafo Social começou como um grêmio estudantil, quando eu estava no Ensino Médio. Perto de me formar, pensei: “O colégio vai terminar e preciso continuar fazendo as coisas em que acredito”. Foi aí em que decidi transformar o Desabafo Social numa ONG de Educação e Direitos Humanos, que promovia rodas de conversa e oferecia cursos para as pessoas da periferia de Salvador. No início, era algo bem filantrópico mesmo. Com o tempo, o Desabafo Social virou um projeto que foca na produção de conteúdos sobre temas que impactam diretamente a sociedade e que vão de mercado de trabalho e luta por moradia até algoritmos. Mas demorou para essa mudança de perfil acontecer.

E o que a motivou?

Como vários jovens de 16 anos, não me achei logo que entrei na faculdade. Os cursos tradicionais não se encaixavam com a minha realidade. Comecei fazendo Engenharia Ambiental, fui para Direito e, finalmente, me formei em Política e Gestão da Cultura na Universidade Federal da Bahia. Independentemente disso, por já vivenciar o dia a dia da periferia, procurava estudar por conta as coisas em que eu acreditava. E por mais que morasse na periferia, não vivia apenas aquela realidade, sempre circulei por todos os lugares de Salvador. O que me ajudou a enxergar outros mundos e ver a periferia como uma potência, como um local de abundância e criatividade, e não como um local de escassez e pessoas carentes. Grandes profissionais que eu conheço vieram da periferia.

DINHEIRO Concluiu mais o quê?

Quando eu tinha 16 anos, era muito forte o discurso de ONG. As pessoas estavam acostumadas só com esse modelo de entidade, que, por mais que seja necessária, também mostrou que não é tão sustentável. Foi assim que entendi o empreendedorismo social de um outro modo. Basta termos um olhar um pouco mais atento para percebermos que as coisas precisam mudar. Eu não acredito no capitalismo, mas, enquanto não surge um novo modelo de sociedade, a gente precisa estar dentro dele para modificá-lo ou ajudar a criar algo novo, diferente. Digo com bastante clareza e leveza que, hoje, faço ativismo com dinheiro.

Como é isso na prática?

Nos meus negócios, procuro formar os melhores times com profissionais da quebrada. É um outro tipo de ativismo, diferente do que a maioria da população está acostumada. E justamente por não ser nem a típica ativista, nem uma empresária tradicional, não sou muito bem vista por determinados ativistas. Mas esse meu lugar existe e também está sendo ocupado por outras pessoas e coletivos. No final das contas, é uma questão de percepção: se contrato os melhores profissionais da periferia, essas pessoas ficam fora da estatística dos quase 13 milhões de desempregados do Brasil. Vou além: não quero que nada que criei até hoje dure para sempre, porque desejo resolver problemas da sociedade e, para ter sucesso nisso, as iniciativas que encabeço terão que chegar ao fim.

EQUILÍBRIO O que espera para o futuro da periferia?

A Responsa, empresa que montei agora em parceria com a agência Bullet, reflete minha compreensão da potência dos novos centros urbanos, que é como devemos começar a chamar a periferia, pois esse termo a coloca numa posição de protagonismo. Lá existem pessoas incríveis fazendo coisas incríveis, não apenas beneficiários da política ou de ações sociais.

A Responsa é uma agência de comunicação que elabora produtos, serviços, modelos de negócios e campanhas publicitárias para marcas e empresas de dentro e de fora dos novos centros urbanos. Nosso objetivo também é fazer a ponte entre as grandes marcas e os novos centros urbanos, pois, como nosso time tem exclusivamente profissionais qualificados da quebrada, temos propriedade para estreitar a comunicação das grandes marcas com esse público.

Você tem outra empresa, a Sharp. Ela segue os mesmos parâmetros?

A situação é um pouco diferente na Sharp. Nela, criamos índices e métricas para medir a relevância cultural on e off-line das marcas e trabalhamos, por exemplo, com Google e Ambev. Optamos por adotar a proporcionalidade para montar a equipe da empresa, porque há uma conversa interna sobre obter uma unidade pela representatividade. A maioria do time é formada por profissionais negros, mulheres, LGBTIs, por gente dos novos centros urbanos. Diante disso, buscamos um equilíbrio. O que reflete, inclusive, na sociedade que firmei para abrir a Sharp. Enquanto sou uma mulher preta da quebrada, a minha sócia vem de uma outra realidade.

Em suas palestras, você fala muito de diversidade nas empresas.

Exatamente, e isso é complexo de colocar em prática. As empresas geralmente não se preocupam em zelar por esses profissionais diversos. Apenas os contratam e ponto. Não adianta só incluir na equipe negros, LGBTIs, mulheres e não dar o suporte necessário, pois, muitas vezes, os ambientes corporativos são hostis, racistas... Antes de se pensar em contratar pessoas diversas, existe um passo essencial, que é cuidar da própria “casa” para poder receber bem esses profissionais.

TELEVISÃO Você falou que o livro Por Uma Semente de Paz despertou a vontade de lecionar. Já deu aula?

Não. Estou fazendo pós para tentar ser professora universitária. Sou, digamos, educadora, mentora de cursos livres de criatividade e modelos de negócios em escolas não tradicionais de inovação. Minha formação, como citei, é em Política e Gestão da Cultura, só que tudo o que tenho feito puxa muito para a Comunicação. Por conta desse meu perfil, tive a chance de ficar um ano e meio no Profissão Repórter, da Globo, mesmo não sendo jornalista.

Como surgiu essa oportunidade?

Foi uma situação bem estranha. Em 2017, estava numa lanchonete de São Paulo e o Caco Barcellos me abordou, perguntando se gostaria de trabalhar no Profissão Repórter. Ele nunca explicou direito o motivo de ter falado comigo, se limitou a dizer que sentiu que devia me chamar. Depois de três meses, liguei para ele e encarei o desafio. Fiquei um ano e meio no programa. Que bom que o Caco me convidou para o Profissão Repórter, foi um baita laboratório para os trabalhos audiovisuais que faço hoje.

Por que saiu do programa?

Se eu pudesse, continuaria nele. Precisei pedir demissão no ano passado para cuidar dos meus negócios. Como o programa exige dedicação em tempo integral, tive de me distanciar das minhas empresas e elas quase quebraram.

FELICIDADE Nesse meio tempo, viajou para o Vale do Silício?

Sim, fui nas férias do Profissão Repórter, de 2017 para 2018. Como tanto se fala dos exemplos de empreendedorismo do Vale do Silício, fui até lá para entender, de perto, a dinâmica das empresas. Foi ótimo ficar três meses no Vale do Silício, pois entendi que a periferia, ainda mais brasileira, consegue inovar muito mais rapidamente, afinal o que mais há no nosso País são problemas para serem resolvidos. Aí, quando saí do Profissão Repórter, fiquei três meses percorrendo os novos centros urbanos brasileiros para completar as minhas pesquisas.

Em palestras, você fala que pode haver uma pegadinha na proposta de ser feliz fazendo o que ama.

Super! Construí uma carreira legal, mas a maioria das pessoas não pode largar tudo, pedir demissão como eu para correr atrás dos seus sonhos. O discurso de ser feliz fazendo o que ama pode frustrar quem o ouve e tem filhos, além de aluguel e contas para pagar no fim do mês. Nas palestras, mostro que, na vida, existem possibilidades. Se você quer mudar de emprego para se dedicar ao que gosta, precisa montar um planejamento. Porque ninguém paga boletos apenas com amor e propósitos, né? Também é importante dizer que amo o que faço, mas nem todo dia estou feliz. Muitas pessoas compram ideias e frases prontas e não as analisam.

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