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Sexta-feira

22 de Novembro de 2019

Médico José Bento de Souza enfatiza importância de manter bons hábitos

Famoso entre o público feminino na TV, no programa Bem Estar, ginecologista garante que boa alimentação, exercícios físicos e controle do estresse são os pilares da boa saúde. Isso tudo nos livra de doenças graves

Famoso entre o público feminino por falar da saúde da mulher de forma bem didática na TV, no programa Bem Estar, da TV Tribuna/Globo, o ginecologista José Bento de Souza foge daquele tipo de médico que só se preocupa com a especialidade em que atua.  

A sua base talvez tenha definido esse caminho. “Estudei demais para entrar na faculdade”, contou ele, que esteve em Santos para participar do XIV Comec (Congresso Médico Científico), promovido pelo Centro Acadêmico Dr. José Martins Fontes (C.A.M.F) da Faculdade de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes).

“Medicina se aprende no hospital, do lado do doente, com alguém te ensinando. Se não te ensinam, busque alguém que ensine. Médico precisa gostar do doente, precisa gostar de gente, precisa apalpar”. Mais do que bons diagnósticos, José Bento fala nessa entrevista que prevenção é o que deveria nortear o trabalho de todos os médicos.

“Se a paciente vai no consultório sem nenhuma doença, nenhuma queixa, o médico não pode mandá-la para casa, para voltar quando sentir alguma coisa. Ele tem que pedir para ela dormir melhor, se alimentar melhor, principalmente se estiver acima do peso, e fazer atividade física. Também deve falar para ela controlar o estresse e cuidar da mente. Médico não pode só ficar baseado na doença”. 

Prevenção

O senhor é um questionador da campanha do Outubro Rosa. Por quê?
Eu acho o Outubro Rosa superválido, tem que fazer mesmo. O problema da campanha é que é baseada em mamografia. A mamografia não é prevenção. É detecção. Já está com câncer. Sou a favor da mamografia para detecção precoce, sem dúvida nenhuma. Mas você tem que focar na prevenção primária. Tem que falar para essa paciente, quando ela chega no consultório sem doença, que ela precisa emagrecer. Se ela não emagrecer, aumenta a chance de todos os tipos de câncer. 

Como o sobrepeso influencia no câncer de mama? 
A gordura é um depósito de estrona. Isso pode alterar a quantidade de estrogênio produzido pelo corpo da mulher. Muitas vezes, a mulher gordinha vai fazer a mamografia. É sedentária, estressada, não dorme direito. A mamografia dá normal e ela acha que está tudo bem, claro. É um passaporte para ela continuar vivendo do mesmo jeito e, de repente, ter um tumor de mama hormonal lá na frente. E você não pode culpar uma pessoa que teve câncer de mama. Se ela tivesse sido orientada e mudado alguns hábitos, poderia não ter tido a doença, se fosse hormonal, por exemplo. Ninguém fala para a mulher: “Come crucíferas - brócolis e couve-flor”. Elas têm uma substância chamada indol 3 carbinol, que evita o câncer de mama. Às vezes, a gente fica doente como um aviso de que está seguindo na direção errada. 

Por que dormir é tão importante?
Nosso corpo, durante a noite de sono, está na fase de reparação. A gente precisa desse tempo. Durante o dia, o organismo sofre agressões externas. São coisas que a gente come, toxinas, agressões até emocionais... Todos os dias são feitas de 6 a 12 mil células cancerígenas. Quando a gente dorme, repara essas agressões e destrói essas células. E não adianta você dormir em qualquer horário. Da meia-noite à uma hora é o momento de pico dessa reparação. Temos que dormir, no máximo, às 23 horas. Isso chama-se ritmo circadiano, descrito por três pesquisadores americanos que ganharam o Nobel em 2017. Se você não dormir, as toxinas se acumulam. 

Fertilidade

Como preservar a fertilidade da mulher?
Nunca se viu tanta mulher infértil também. Primeiro, porque elas querem se formar na faculdade antes de ter filhos. Mas elas estão envelhecendo, não tem jeito. Não tem como você virar para uma menina de 18 anos e dizer que ela tem que ter filho, porque essa é a melhor idade para engravidar. Ela faz tudo que precisa fazer, estuda, viaja, casa... e lá pelos 35 anos pensa em ter filho. Aí não tem jeito. A natureza manda a conta. Se não dormir bem, então, piora muito. 

Como diminuir o risco dessa dificuldade?
Primeiro, mantendo o peso adequado. Índice de massa corpórea entre 18 e 25. Pega seu peso e divide pelo dobro da sua altura. Tem que fazer uma atividade física, dormir bem, se alimentar bem, ficar longe do cigarro e beber moderadamente. Você fazendo isso já está preservando, de alguma maneira, sua fertilidade. Lógico que também deve ir ao médico regularmente, todos os anos. E, se tiver mais parceiros, usar sempre camisinha. 

Mas os óvulos acabam...
Sim, você não preserva a ovulação. Você preserva a sua saúde. Assim, está preservando a saúde do seu ovário também. Então, você pode ter menos dificuldade. Mas aquela quantidade de óvulos com que você nasceu vai acabar. A qualidade dos óvulos melhora com a sua saúde. Mas o deadline, não tem jeito. A mulher deveria fazer tudo para engravidar até os 35 anos. Se não engravidar, pode congelar os óvulos. Depois, faz fertilização com esses óvulos e os espermatozóides do parceiro. O útero não envelhece.

Atividade física

Por que fazer exercícios é fundamental?

Sobre atividade física não tem negociação. Tem que fazer. A modalidade que mais te proporciona saúde a longo prazo é a musculação. Depois dos 50 anos, acontece uma coisa com a gente chamada sarcopenia, que é a diminuição da massa muscular. Diminui 2% por ano. Com 60 anos, o cara tem menos 20% dos músculos. Não tem como ser assim quando se chega a 80, 90 anos.

Além da musculação, o que pode ajudar?

Outra atividade que você precisa fazer é para aumentar a capacidade cardíaca. É o chamado HIIT, treino intervalado intenso. Isso em qualquer idade, de qualquer maneira. Desde a criança até o idoso de andador podem fazer. Funciona assim: você faz um exercício até ficar ofegante. Aí para e esperar voltar ao normal e faz novamente. Repete isso umas dez vezes, três vezes por semana.Muda totalmente a sua vida. 

Alimentação

Como a comida interfere na saúde?
Eu sempre tive nutricionista no meu consultório trabalhando comigo. Sempre achei que alimentação estava intimamente ligada às doenças. Dependendo do que e do quanto você come, você acaba aumentando os fatores para desenvolver uma doença. 

O que fazer?
Primeiro, tem que tirar o açúcar. Ele é o alimento mais cancerígeno que a gente tem no nosso meio atualmente. No caso do glúten, deve ser retirado também se você se sentir mal ao comer o seu pãozinho, uma enxaqueca, barriga inchada, infecções na pele. O problema é que o glúten foi 
muito modificado ao longo dos anos. E isso pode agredir nosso intestino. O sistema imunológico mais importante do nosso organismo é o intestino. É o nosso segundo cérebro. 

Como assim?
É no intestino que são produzidas 80% da serotonina, o hormônio da felicidade. O nosso cérebro de dentro da cabeça é burro, ele se vicia em álcool, em açúcar, em cocaína. O intestino não. Ele nem dá mostra de todas as porcarias que comemos. Ele limpa e pronto. Se ele reclamasse, a gente não sairia do banheiro.

E por que falar em dieta?
Quando o nosso cérebro “burro” escuta a palavra dieta, já pensa como algo com início, meio e fim. Ele já pensa no que vai comer depois que a dieta acabar. É mudança de hábito, uma das coisas mais difíceis. Somos animais de hábito. Você escova os dentes e penteia os cabelos todos os dias do mesmo jeito. Ficamos estressados quando as coisas não saem como estamos habituados. 

Longevidade

Como se preparar para viver mais?
Tomar alguns suplementos, a partir dos 30 anos, pode ajudar, como vitamina D, Ômega 3, magnésio e a coenzima Q 10, que melhora a vitalidade da célula. A longevidade exige que a gente cuide da saúde. E tem que ser agora. Não tem como adiar. O que você faz na juventude você leva para a velhice. Nós duramos muito agora. No mundo animal, quando eles acabam a fase reprodutiva, morrem. A gente deveria ser assim e não é mais. Temos, então, que melhorar nossa qualidade de vida.

E o que fazer para se manter jovem?
Reposição hormonal para estender essa vitalidade, essa disposição, essa vontade de viver até 85 anos. Essa é a medicina por qual os alunos de hoje devem lutar. Pior coisa que pode acontecer para o idoso são as limitações. Depender dos outros para se vestir, comer, ir ao banheiro. Você pode fazer alguma coisa, não pelo idoso, mas antes. Bem antes. Naqueles moldes que citei: alimentação, exercício, controle de estresse. 

Qualquer pessoa pode fazer reposição hormonal?
Só não pode quem teve ou tem uma doença hormoniodependente. Mulher que teve câncer de mama hormonal não pode. Se você tem uma doença no fígado, não pode, porque o hormônio é metabolizado nele. Nesses casos, você tem que bater mais ainda na tecla de alimentação, atividade física, dormir, meditação e controle de estresse. Com isso, você pode cuidar dos sintomas secundários de outra maneira, que não o hormônio. Agora, você precisa fazer uma reposição hormonal com o hormônio que você fabricava, manipulado em laboratórios e na dosagem que seu médico indicar.

E como controlar o dia a dia atribulado?
Tem que fazer meditação, ioga, massagem, desestressar, praticar o mindfulness, que é estar aqui com você no presente conversando. Realmente. Vivendo esse momento, não com a cabeça em outro lugar. Não estou pensando que amanhã eu tenho cirurgia, que o motorista está não sei aonde. Isso é muito importante contra o estresse e, consequentemente, para a vida.

 

 

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