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Quinta-feira

5 de Dezembro de 2019

Mário Sergio Cortella: Reflexão sobre valores da vida

O filósofo Mario Sergio Cortella chama atenção para o egoísmo exacerbado no mundo atual e a deturpação de alguns valores básicos. Ele ainda defende a humildade intelectual

É fato: estudiosos como Mário Sergio Cortella têm conseguido popularizar e dar uma cara descolada e superprática para a Filosofia. “Ela sempre foi aquela tia velha que ficava trancada no quarto e que, agora, de repente, veio para a sala e as pessoas a chamaram para a rua”, afirma o filósofo, escritor e palestrante, que mobiliza multidões não só com os seus vários livros e as aulas e palestras que dá como pelas redes sociais – ele tem 3,6 milhões de seguidores no Instagram, 1,6 milhão no Facebook e 680 mil inscritos no YouTube. Na entrevista a seguir, realizada durante sua participação no Simpósio de Educação de Guarujá, Cortella faz uma reflexão sobre a política atual e a conduta egoísta adotada por muitas pessoas no dia a dia. Defensor da humildade intelectual, ele mostra como também é passível de erros, afirma que o Brasil carece de um verdadeiro projeto para a Educação e relembra os anos em que viveu enclausurado em um convento carmelita.

PROJETO

Qual é a sua avaliação do ensino brasileiro?

Os governos passam, mas o projeto de educação nacional deveria permanecer independentemente disso e ser um reflexo dos desejos e das necessidades da sociedade inteira, não apenas de um grupo. Sendo assim, os governantes eleitos teriam de estar integrados ao que a população como um todo definiu como prioridade. O que acontece é que nós não temos, em nível nacional, um projeto explícito. Não existe clareza, por exemplo, sobre como será o financiamento da educação básica depois que o Fundeb vencer (a previsão é de o fundo ser extinto em 2020). A gente tem noção apenas de que existem algumas ações muito pontuais na área da educação relativas a aspectos que até são secundários no processo pedagógico e que têm mais a ver com uma moralização de algo que, no fundo, é discutível. 

CONHECIMENTO A humildade intelectual é um tema recorrente nas suas apresentações. Para a maioria das pessoas é difícil colocá-la em prática, concorda?

Sim, mas não é algo impossível. Em julho, eu estava fazendo uma palestra em São Paulo e citei a morte de Aquiles, no meu entender relatada na Ilíada, obra que li há muito tempo. Perto do fim da apresentação, uma jovem falou: “Não há um relato da morte de Aquiles no livro. Aliás, não existe nenhum documento que cite isso de modo explícito. Portanto, sua avaliação, com todo respeito, está equivocada”. Eu tinha duas possibilidades nessa hora. Uma seria a atitude idiota de responder: “Imagina, menina. Tenho doutorado e faz anos que ensino isso”. Só que disse para a jovem, que depois descobri ser jornalista de um veículo de comunicação: “Poxa, devo ter sido traído pela memória. Achei que tinha lido a respeito”.

No dia seguinte, procurei o e-mail dela e pedi para que me orientasse sobre o tema. Não foi uma postura meramente demagógica, eu quis realmente aprender com ela.

Quem não é humilde – o que é diferente de ser subserviente – acaba perdendo demais, porque fica aprisionado dentro de si.

O que mais sugere para quem pretende exercitar tal humildade?

O melhor caminho é ter noção muito clara de que a gente não sabe todas as coisas e de que isso não é um defeito. Afinal, estamos falando de patrimônio intelectual. O fato de eu não nascer sabendo tudo é um estímulo para tentar ampliar o meu conhecimento e renovar meu olhar, a minha compreensão da vida.

Em Manuscritos Econômico-Filosóficos, uma de suas obras clássicas, Karl Marx diz que o ser humano tem uma grande vantagem sobre a aranha. Apesar de fazer teias maravilhosas, a aranha costuma agir igual à mãe, à avó, à bisavó... Apenas a natureza a altera, ela não muda por si só. Já o ser humano, por mais que não saiba como fazer uma teia igual à aranha, pode criar, inventar algo e inovar. Digo mais: quando a vida nos traz um problema novo, quem tem apenas soluções antigas tende a fracassar.

Você fala muito de valores. Acha que eles estão deturpados?

Alguns estão. Hoje, por exemplo, nós temos uma percepção egoísta um pouco mais densa. Perdemos a compreensão de que a regra deve ser um por todos e todos por um e passamos a adotar a ideia do cada um por si e Deus por todos. Isso é malévolo. Em contrapartida, hoje temos um reconhecimento muito mais extenso da diversidade e uma recusa maior da violência. Os valores têm movimento pendular e alguns precisam ser melhor direcionados.

POLÍTICA

Está satisfeito com a realidade que vivemos?

Tenho dois sentimentos. Um deles é uma alegria cívica muito grande, por estarmos em um momento da vida nacional em que as pessoas pensam, debatem e tratam de temas que antes não tinham a devida importância no nosso cotidiano. Se você, por exemplo, sair perguntando por aí qual foi o último jogo da Seleção Brasileira e o placar, não é todo mundo que vai saber responder. Em compensação, se perguntar da política nacional, a maioria das pessoas vai comentar o assunto. Isso é uma novidade na trajetória do Brasil. O outro sentimento que tenho é uma preocupação por haver autoridades na nossa república que são menos republicanas. 

Como assim?

O fato de alguém ser eleito democraticamente não dá a essa pessoa uma natureza soberana. A soberania é diferente da autonomia. Numa monarquia, o monarca decide as questões de modo soberano. Agora, numa democracia, é preciso que haja uma estabilidade entre as estruturas da sociedade. Por mais que os conflitos, crises e divergências sempre existam, não podemos permitir rupturas, pois elas costumam ser ruins. Me preocupo com a solidez de algumas pessoas que têm o poder e não o entendem como um serviço à comunidade. 

Falta um pouco de humildade para nossos governantes?

De vez em quando, falta. Mas isso também pode ser um problema de autopercepção. Quando fui secretário de Educação de São Paulo, eu era uma autoridade e, por isso, precisava de nitidez para não deixar a soberba chegar. Quando as pessoas abrem a porta para passarmos e há todo um ritual para nós, podemos criar uma noção errônea do que é serviço público. A tarefa de quem está no poder é servir, não ser servido. 

Por que não continuou na política?

Eu continuo na política, só não estou mais na atividade partidária ou de governo. Atuo na política de outro jeito: nas colocações que faço na mídia, nos livros que escrevo, nas palestras que ministro... Tive diversos convites para seguir vida parlamentar, mas isso limitaria as minhas demais atividades. Foi uma questão de escolha, de convicção. Acho que sou mais útil fazendo política de outras maneiras.

TRAJETÓRIA

Você chegou a experimentar a vida monástica?

Sim. Como minha família é de tradição católica, eu sempre quis ter uma experiência religiosa mais densa. Aos 18 anos, havia entrado na faculdade de Filosofia e decidi ingressar no convento da Ordem dos Carmelitas Descalços. Fiquei três anos na clausura estudando e fazendo atividades monásticas. Essa experiência foi magnífica, mas, como desejava investir na docência e na comunicação, a vida religiosa, portanto, seria muito restritiva. No convento, aprendi a ser disciplinado, a ter uma rotina simples. Para você entender o que estou falando, lá a gente só consumia o que produzia. Essa vida mais comunitária foi importante na minha formação. Eu não teria uma bagagem mais densa se não tivesse passado por isso.

Como vê o papel que você, o Leandro Karnal e outros estudiosos têm hoje na sociedade?

Eu e o Karnal viemos de uma boa coincidência, porque, quando começamos a consolidar nossa carreira acadêmica um pouco mais – nós já tínhamos feito doutorado e estávamos escrevendo mais –, as plataformas digitais nos trouxeram maior notoriedade. Num certo momento, a sociedade começou a procurar na mídia pessoas que lidassem com a reflexão sobre a vida e os seus porquês e que não tivessem postura apenas técnica. De repente, o Karnal, que é da História, o Clóvis de Barros Filho, que é da Comunicação e do Direito, e o Luiz Felipe Pondé, que é médico de origem e também da Filosofia, todos nós passamos a ter uma presença na mídia. Por causa disso, a minha sala de aula, que antes tinha 50 alunos, começou a ter milhares de pessoas. E possuo milhões de seguidores nas redes sociais, o que significa que, além de contar com maior abrangência, preciso ter mais atenção para não falar tanta bobagem (risos). 

É ótimo a Filosofia reconquistar um espaço de destaque na sociedade. 

A Filosofia sempre foi aquela tia velha que ficava trancada no quarto e que, agora, de repente, veio para a sala e as pessoas a chamaram para a rua. A única pena é que, nas escolas, a Filosofia geralmente ainda fica restrita às aulas de sexta-feira, no fim do período.

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