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Segunda-feira

9 de Dezembro de 2019

Loucura e crime: um bate-papo com o psiquiatra forense Guido Palomba

Guido Palomba explica as nuances da doença mental e os crimes praticados pelos doentes. “O louco é aquele que a gente acha que é louco, é simples. Ele rompe com a realidade“

Um simples bate-papo com o psiquiatra forense Guido Palomba vira aula. Polêmico, ele explica a associação entre crime e loucura e ainda critica a fase atual da Psiquiatria Clínica, que chama de decadente. “A indústria farmacêutica dita as regras. Todo mundo é considerado depressivo e toma remédio. Precisamos voltar a entender o que realmente é doença”, disse ele no XIV Comec (Congresso Médico Científico), promovido pelo Centro Acadêmico Dr. José Martins Fontes (C.A.M.F) da Faculdade de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), um pouco antes da entrevista.

Apaixonado pela área em que atua, Palomba ressalta que todas as doenças mentais propriamente ditas têm alguma repercussão física. “Não existe nenhum fenômeno corpóreo que não tenha algo de psíquico e nenhum fenômeno psíquico que não tenha algo de corpóreo”. Para o médico, a doença mental é como uma doença qualquer e deve ser tratada como tal. “Ela não aumenta a periculosidade da pessoa. Um criminoso é um criminoso. Pode ter doença mental ou não”.

DEPRESSÃO

Como anda a psiquiatria hoje em dia?

Absolutamente decadente. Nas duas últimas décadas, principalmente na última, o que aconteceu foi o domínio da indústria farmacêutica. Eu entendo que ela fabrica e precisa vender. Mas só que vieram para cima de nós médicos. E somos nós que receitamos. Sem receita não se vende remédio. Então, hoje, o diagnóstico está absolutamente deturpado, avacalhado. Hoje o diagnóstico foi laceado a ponto de, por exemplo, dizerem que a depressão é o mal do século. Mal do século é o diagnóstico errado. Não podemos ficar tristes se o nosso cachorro morrer. Já vai no médico e sai medicado porque está triste.

Hoje se dá antidepressivo para parar de fumar, engordar, emagrecer, TPM e até para a tristeza. O antidepressivo é válido para aquele paciente que tem depressão endógena, que é raríssima! A exógena, que é motivada por fatores externos, todos nós temos. E ela passa em 10, 12 dias. Quem não fica triste não está vivendo. É impossível ficar alegre o tempo todo.

E os suicídios de jovens?

Não é por depressão. São três tipos de suicídio. Um é originário daquele pensamento: “eu vou me matar pra deixar um culpado”. É uma falta de noção até do suicídio. O segundo é o que quer se livrar daquela situação, não quer se matar. E o terceiro, que é bem mais raro, tem realmente uma doença mental envolvida, que não dá em qualquer tipo físico, nem em qualquer idade.

E por que esse aumento de casos?

A rede social ajuda a propagar esses comportamentos inconsequentes. Faz a propaganda negativa da coisa toda. Glamouriza. Mostra que você precisa estar feliz o tempo todo. E a vida não é assim, nunca foi. A internet produz o efeito manada. Isso é horrível.

LOUCURA E CRIME

O que é loucura?

É a ruptura com a realidade. Todas as vezes que você estiver diante de alguém que rompeu com a realidade, obrigatoriamente ele é louco. A realidade é essa: um celular é um celular, uma cadeira é uma cadeira. O mundo do louco não é esse mundo. O doente mental sempre vai achar que o mundo dele é que é o real e não o nosso. Se você perguntar para um doente mental verdadeiro se ele acha que ele é doente mental, se a resposta for sim, é porque ele não é. O doente mental vive aquele mundo delirante e alucinado como se fosse uma realidade. É impossível convencê-lo do contrário. 

Como reconhecer o doente mental?

O louco é aquele que a gente acha que é louco. Essa é a melhor definição. A loucura é simples. Como é uma ruptura com a realidade, a pessoa tem comportamentos estranhos, não se comporta como os outros. Você pode não saber dar o diagnóstico da doença, especificamente, mas sabe que a pessoa é louca. Doente mental se mostra esquisito e chama atenção por isso mesmo. 

Como saber que um delito foi praticado por doente mental?

Pela bizarria. Todo crime praticado por doente mental tem bizarria. É bizarro e incompreensível psicologicamente. Todos os delitos são fotografias exatas e em cores do comportamento do indivíduo. Se soubermos ver essa morfologia, teremos dados do psiquismo do indivíduo. 

Algum exemplo?

Um crime compreensível, portanto não bizarro, é o seguinte... eu estou sem dinheiro, roubo a carteira do indivíduo e o mato para não ser descoberto. Outro: a minha mulher separou de mim, quer ficar com meu dinheiro. Eu a mato para ela não ficar com as minhas coisas. Todos esses crimes, ainda que puníveis juridicamente e moralmente condenáveis, são compreensíveis. Agora, imagine um caso que realmente aconteceu: o indivíduo, que tinha ciúme da mulher, corta a cabeça dela. Pega o corpo e joga dentro de um poço. Até aqui está no âmbito do compreensível. Tinha o motivo e escondeu o corpo. Mas, passados três dias, ele sente saudade da mulher. E o que ele faz? Tira o corpo e a cabeça do poço, une com arame e barbante, leva para a cama e tem ato sexual com o corpo. Bizarria incompreensível. Outro exemplo: o crime de Suzano. Dois rapazes armados que entraram 
na escola e mataram com tiros e machadadas, e se mataram. Isso é bizarro, é incompreensível. 

Mas a loucura não é individual?

Sim, mas existe um tipo de contágio de doença mental, chamada no termo francês de folie à deux, que significa loucura a dois. Nessa situação sempre tem um que é o verdadeiro doente mental, o louco. Este, nas suas loucuras, induz um que é um “cabeça fraca”. Neste caso de Suzano, o louco era o de 17 anos. O induzido era o mais velho. O induzido sempre é o fraco, porque só assim para ele embarcar na loucura do outro. Suicídios coletivos funcionam assim também. É um guru, que é o louco verdadeiro indutor, que induz uma grande quantidade de pessoas fracas, vulneráveis.

FRONTEIRA

E crimes bizarros praticados por pessoas que não são esquisitas?

Entre a loucura e a normalidade, temos os fronteiriços. Quem são os habitantes dessa zona fronteiriça? São aqueles que são descritos, popularmente, como psicopatas ou sociopatas. Prefiro chamá-los de condutopatas. A patologia está na conduta.

Como reconhecer o condutopata?

A condutopatia não é uma ruptura com a realidade e também não é normalidade. Condutopatas parecem normais, são capazes de viver muito bem, camuflados, participantes da sociedade, sem que ninguém os perceba. Mas condutopatas têm distúrbios dos sentimentos. Todos nós, normais, temos sentimentos superiores de piedade, altruísmo, compaixão. E temos arrependimento. No condutopata isso não existe. Assim, a vontade dele é deformada. Ele pode matar só para ver o corpo cair. Não existe ressonância afetiva com a vítima. 

Como o crime dele é reconhecido?

Assim como o do doente mental, todo delito do condutopata também é bizarro. Mas mais que isso. Uma característica extraordinária deles é a ausência completa de remorso. Nenhum condutopata verdadeiro tem remorso do que ele faz. Quer exemplo? Uma moça que matou, com dois “laranjas”, o pai e a mãe. Foi ao enterro e chorou. Teatro. No dia do julgamento, um dia extremamente importante na vida de qualquer pessoa, estava entediada. Só chorou quando a sentença foi dita, mais de 40 anos. Condutopata é egocentrado. Só se arrepende por ter sido pego. Outra coisa muito comum é colocar a culpa na vítima. 

INFLUÊNCIA

O meio em que a pessoa vive tem alguma influência?

Sim. Mas condutopatia e doença mental não são adquiridas por traumas psicológicos, bullying etc. Não. Você nasce com aquela potência. Se a potência é muito grande, tanto faz o meio social. Ela vai desenvolver. Agora, se a potência é pequena e ele está num meio social favorável, é provável que nunca desencadeie. Se estiver num meio social desfavorável, é possível que desencadeie. Por isso que cada caso é um caso especial. E deve ser visto em todos os seus múltiplos aspectos.

Criança pode ser condutopata?

Não. A adolescência é um período “condutopático”. É um traço natural dos mais jovens. Tem rebeldia, questionamento, inconsequência. Não temos como afirmar que uma criança é condutopata. A não ser que pratique um crime bizarro. Mas um fato é certo: quando você examina um adulto condutopata, ele já apresentava um traço na infância. Mas não falamos em crianças condutopatas.

PENA E FICÇÃO

Para onde vão os criminosos condutopatas?

A pessoa que é normal vai para a cadeia. Com 10 anos e 1 dia de pena, tem que ir para a rua. Qualquer advogado consegue isso. O doente mental não é um criminoso. Ele é um doente. Não pode ficar na rua. Então, ele vai para aquilo que é chamado de hospital-cadeia, que são os manicômios judiciários, hoje a Casa de Custódia e Tratamento Psiquiátrico. O máximo que o juiz pode aplicar de medida de segurança (internação) são três anos. O término dessa medida de segurança não significa a liberdade. A periculosidade dele é avaliada e essa internação pode ser prorrogada para sempre. Na minha opinião, não deve sair mais. Vale lembrar que medida de segurança não é pena. A pena só pode até 30 anos. O condutopata depende da avaliação do juiz: ou vai para a cadeia comum ou vai para a Casa de Custódia. É o que diz a lei.

E os filmes que falam de doentes mentais?

São muito fantasiosos, com seus julgamentos. Eventualmente sou convidado a analisar filmes que falam de doentes mentais, com crimes ou sem. Nunca fui e nunca irei. Como eu trabalho com isso, não me sinto à vontade em analisar algo que tem licença poética e criativa. É apenas um filme. Eu não acho que um filme seja responsável por criar ou incentivar pessoas doentes mentais. Se isso fosse verdade, os filmes, os videogames, as guerras, as notícias... tudo isso estaria nessa culpabilidade. Na realidade, a pessoa já tem uma potência. São filmes e jogos apenas e nunca vão passar disso.

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