EDIÇÃO DIGITAL

Sábado

8 de Agosto de 2020

Lino DiSalvo fala sobre produção de 'Playmobil: O Filme' e dá dicas sobre o mercado de animação

O diretor passou a maior parte da carreira trabalhando na Disney, em filmes como 'Frozen' e 'Enrolados'

Pode não parecer, mas filmes de animação como 'Frozen: Uma Aventura Congelante' chegam a ficar de um a dois anos apenas em fase de pré-produção – que, segundo o diretor Lino DiSalvo, é uma etapa fundamental para o sucesso do projeto. Depois de quase 20 anos na Disney, o americano, de 45, resolveu sair da zona de conforto e trilhar seu próprio caminho.

O primeiro resultado dessa empreitada é 'Playmobil: O Filme', que acaba de estrear nos cinemas. No longa, os irmãos Marla (Anya Taylor-Joy) e Charlie (Gabriel Bateman) são crianças felizes e bem unidas, mas, ao perderem os pais numa tragédia, veem sua vida mudar radicalmente. Um dia, ao ir atrás do caçula em exposição de bonecos Playmobil, Marla acaba transportada junto com Charlie para uma realidade paralela habitada pelos famosos brinquedos, onde os dois terão de rever seus conceitos e se tornar pessoas melhores para conseguir voltar ao mundo real.

Na entrevista, DiSalvo fala não só de sua trajetória e do processo de produção de uma animação computadorizada como dá dicas para quem sonha em trabalhar nesse mercado.

Transição

Você saiu da Disney para dirigir 'Playmobil: O Filme'. Foi difícil tomar essa decisão?

Foi. Quando resolvi fazer isso, há quase quatro anos, o meu filho tinha acabado de nascer. Quer época mais maluca do que essa para deixar um trabalho seguro e se aventurar em uma nova jornada profissional? O que ocorreu é que entrei na Disney cedo, aos 22 anos, com o sonho de fazer um conto de fadas musical e, quando completei 40, estava trabalhando em 'Frozen' (que foi lançado em 2013). Ou seja, consegui realizar o meu sonho. Também sou da opinião de que todo artista, em certo ponto, tem que seguir o seu próprio caminho. Comecei a sentir vontade de sair pelo mundo contando as minhas próprias histórias e colaborando com outras pessoas.

Mas não havia espaço para contar suas próprias histórias na Disney?

Ao fazer um filme lá, você trabalha dentro de um sistema. Há mais outros dez diretores no estúdio, então cada um acaba fazendo uma animação a cada sete anos. Não quero me dedicar só a um projeto no prazo de sete anos. Gostaria de produzir uns cinco. E eu sou um ítalo-americano nascido no Brooklyn. Como minha família sempre teve pizzarias em Nova York, cresci numa atmosfera de mudanças e desafios constantes. Se eu quisesse, poderia ter continuado na Disney pelo resto da vida, mas preferi me desafiar, sair da zona de conforto e ver o que seria capaz de fazer fora da única empresa em que havia trabalhado. A minha mulher me encorajou. Ela disse: “Querido, você tem que ir para a próxima jornada da sua carreira”.

Como foi que entrou na Disney?

Ainda estava na faculdade quando surgiu a oportunidade de ser contratado. Eu cursava Belas Artes em Vancouver, no Canadá, para aprender a desenhar, e me apaixonei por 'Toy Story', que tinha acabado de sair (em 1995). Foi por causa desse filme que fui trabalhar com animação computadorizada. Mandei o meu portfólio, com os meus desenhos, para a Disney, para ver no que dava. Todo mundo dizia que eu estava louco, que era impossível me contratarem. Surpreendentemente, eles me deram uma chance.

Mercado

Há muitos brasileiros na indústria de animação dos EUA?

Um dos meus animadores preferidos é o Renato dos Anjos. Eu o acho incrível. E ele, que trabalha na Disney, é brasileiro. Em Los Angeles, existem vários profissionais talentosos que vieram do Brasil. Eles desempenham as mais diversas funções: animador, designer... Acho que os brasileiros são bem fortes principalmente nas categorias arte e música. A trilha do filme do 'Playmobil', inclusive, foi escrita e composta por um brasileiro, o Heitor Pereira. Quando a gente é apaixonado pelo que faz e trabalha duro, tudo é possível.

O que recomenda para quem sonha em trabalhar na área?

A principal dica é personalizar seu trabalho, colocar sua experiência de vida no que está produzindo, de modo a expressar o que faz com que seja quem é. A última coisa que alguém pode querer é ter um trabalho que pareça igual ao dos demais profissionais do mercado. A pessoa precisa mergulhar profundamente dentro dela mesma, para descobrir qual é o seu estilo. Quem mexe com animação também deve entender de interpretação.

Que aprendizado fez a diferença nestes mais de 20 anos de carreira?

Na Disney, sempre escutei que você precisa encontrar a verdade do material e dos personagens que está criando, porque a gente só consegue fazer bem o que conhece. Acredite ou não: quando você faz uma animação, grande parte do trabalho é pesquisar, entender de onde aquela história vem e os motivos para os personagens pensarem e agirem de determinada maneira. O que estou querendo dizer com isso? Que a pré-produção é fundamental. O próprio Walt Disney, quando começou o estúdio, já defendia que é preciso saber exatamente o que se desenha.

Fórmula

Qual foi o ponto de partida do filme do 'Playmobil'?

Fiquei sabendo que os produtores estavam em busca de uma boa história para o longa. Sem falar que o meu filho ama Playmobil. Viajei para Paris (França) para expor a minha ideia. Disse que, enquanto o Lego é mais para montar, o Playmobil é um brinquedo para você contar histórias; e afirmei que me certificaria de que o filme teria essa essência. Os produtores amaram e me encaminharam para a companhia dona dos direitos dos brinquedos, que também aprovou o meu conceito. No longa, deixo uma mensagem para o público: a vida não é fácil, mas podemos aproveitar os obstáculos para nos tornarmos pessoas mais fortes. Tanto é que a protagonista, a Marla (Anya Taylor-Joy), se vê obrigada a assumir o controle da sua própria história.

Pensou em introduzir doses de live action no filme como uma forma de surpreender o público?

Sim. Um dos pontos principais – e mais divertidos – da minha proposta era justamente a Marla e o irmão caçula, Charlie (Gabriel Bateman), se transformarem em brinquedos e, a partir disso, explorar a jornada dos dois para encontrarem um modo de voltarem a ser humanos e escaparem da realidade paralela habitada por bonecos Playmobil. Eu amo contos de fadas. Se você observar, todos os filmes da Disney são editados como livros: há um prólogo e um epílogo, o antes e o depois dos personagens são apresentados. Como, até então, eu só tinha passado pela Disney, o meu jeito de trabalhar é bem similar.

Não acha que as animações se massificaram de tal modo que parece que a maioria delas segue a mesma fórmula?

Realmente muitas animações computadorizadas se assemelham. Vou te falar que eu entendo o porquê. Se elas são lindas e faturam milhões e até bilhões de dólares, para que você vai mudar aquele padrão e correr o risco de não fazer sucesso? Mesmo assim, acho que mais produtores, diretores e animadores deveriam se arriscar mais, testando as possibilidades existentes. Um bom exemplo de como se pode inovar numa animação é 'Homem-Aranha no Aranhaverso'. O visual fenomenal desse filme mexeu com a minha cabeça; tem me inspirado bastante. Em outras palavras, é preciso experimentar até acertar e fazer algo que modifique a indústria inteira. Gosto de lembrar que, quando 'Toy Story' saiu, muita gente afirmou que a animação computadorizada não teria futuro.

O que é mais desafiador na hora de fazer uma animação?

Uma das coisas mais difíceis é escrever e desenhar pensando em como aquilo vai impactar não apenas as crianças e os adolescentes como também os adultos. Afinal, se trata de um filme para a família toda. Esse é outro motivo de eu amar tanto as animações. Tem mais: sempre vamos querer assistir às histórias com personagens que conquistam a nossa simpatia e a nossa torcida.

Dedicação

Como foi da pré à pós-produção de 'Playmobil: O Filme'?

A pré-produção demorou um ano e meio. Montei quatro longas em storyboard antes de descartar qualquer ideia e começar a preparar a parte do design. É bem mais fácil e barato consertar um problema nesse momento, quando você ainda está na fase do desenho, do que se pôr a fazer ajustes na etapa seguinte, de confecção da animação computadorizada. Assim que decidi quais eram os elementos certos, eu, minha família e a equipe do filme nos mudamos de Los Angeles (Estados Unidos) para Montreal (Canadá), dando início à produção propriamente dita do longa, que durou 24 meses. Aí veio a pós-produção. No primeiro momento, foram três semanas em Londres (Inglaterra) para edição das músicas. A seguir, passei cinco semanas em Paris (França) para a mixagem do som e a finalização do filme, em janeiro deste ano. A Disney adota o mesmo processo. A diferença é que ela tem toda a estrutura necessária em um lugar só: Burbank, na Califórnia (EUA).

Pode detalhar experiências interessantes que teve em projetos anteriores?

A pré-produção de 'Frozen' levou dois anos. A gente foi para lugares bem frios e com neve, entre eles Quebec (Canadá) e o estado norte-americano de Wyoming, para entender melhor como é andar na neve e como ela afeta a iluminação dos ambientes. Em 'Enrolados', como se tratava de conto de fadas que já era conhecido (o de Rapunzel), a maior parte da pré-produção girou em torno da definição do estilo que seguiríamos no filme: como faríamos os desenhos no computador, como as roupas se comportariam nas animações... Cada longa é um pequeno mundo. Você deve aplicar tudo o que aprendeu até então, mas, para tentar tornar aquele projeto único, a tendência é que tenha que aprender coisas novas.

Já sabe como será o seu próximo trabalho?

Estou desenvolvendo uma história baseada na cultura italiana. Iniciei a pré-produção há algumas semanas; a previsão é lançar o longa em 2022. Como te falei, sou ítalo-americano. Toda vez em que vejo um italiano em um filme americano, ele é retratado como um criminoso. Não gosto disso. Quero mostrar para o mundo uma perspectiva diferente da cultura italiana. Além de tentar trazer um frescor na animação em si.

Tudo sobre: