Juliana Goes mostra por que é uma nova mulher

A busca pelo autoconhecimento a transformou radicalmente. De influenciadora digital de beleza, passou a falar de amor próprio e, hoje, está em paz com o passado no BBB

Tive a chance de conversar com Juliana Goes logo depois de a jornalista e influenciadora digital santista, de 34 anos, ter saído do Big Brother Brasil (BBB) em 2008. Na semana passada, ao reencontrá-la para nova entrevista para a AT Revista, o que vi foi uma pessoa totalmente diferente. Uma mulher que se reinventou após crise existencial - quando tudo corria superbem na sua vida - e que, em vez de falar apenas de beleza, também passou a levantar no seu canal do YouTube, no seu blog, no Instagram e no Facebook a bandeira do autoconhecimento e de uma abordagem mais ampla e holística da saúde.

Como consequência disso, Juliana, que costuma praticar ioga e meditar com regularidade, em paralelo à terapia e aos cursos de Programação Neurolinguística (PNL), ainda idealizou o aplicativo de meditação Zen, lançou o livro A Liberdade de Ser Quem Você É e tem ministrado palestras como a que leva o título Honre a sua História. A seguir, ela comenta também as lições que tem aprendedido como mãe da pequena Anne Liv, de 2 anos; da empresa que ajudou a fundar com o marido, o empresário Christian Wolthers, mais conhecido como Crica, e das várias novidades que prepara para os próximos meses.

REINVENÇÃO Você mudou bastante desde que saiu do Big Brother Brasil e se tornou influenciadora digital. O que desencadeou essa sua transformação?
Comecei o meu canal no YouTube em 2009, um ano após sair do Big Brother. Eu queria me reinventar e fazer algo que me permitisse iniciar do zero, sem o rótulo do programa. No canal, evitei falar do BBB por um tempo. Apenas comentava sobre a minha participação no programa no caso de algum seguidor perguntar, geralmente nesta época do ano, em que o Big Brother está no ar. Só quase dez anos depois é que resolvi fazer um vídeo realmente tendo o BBB como tema. Levei esse tempo para amadurecer dentro de mim o que foi o programa. Muito louco, né? A vida toda é um processo, em que você tem as suas fases. Algumas se concluem, mas não é por causa disso que você consegue entender quais foram os aprendizados e o propósito daquele ciclo que se encerrou. Às vezes, demora um pouco mais para amadurecer aquilo. A minha experiência no Big Brother foi muito intensa, eu era bem nova. O que sabia era que queria me reinventar, agregar valor à vida das pessoas, não somente ser uma carinha conhecida.

Todos os participantes falam da intensidade do programa. Acho que só quem esteve lá dentro consegue ter noção exata do que é essa experiência.
Você sente muitas emoções dentro do Big Brother. Afinal, está lá confinado num jogo, não em uma colônia de férias ou em um retiro. Você não sabe o dia de amanhã. É muita ansiedade, estresse, incerteza. Sem contar que está sendo observado, julgado. A saída do programa também é muito intensa, porque você entra de um jeito e sai de outro totalmente diferente. Por mais que imagine o que vai acontecer depois do programa, quando isso acontece de fato é um baque por você não conseguir fazer coisas que fazia antes numa boa, como ir à padaria e ao shopping, etc. Leva um tempo para você entender tudo o que ocorreu. O meu caminho de busca pelo autoconhecimento me permitiu ter essa compreensão.

CRISE Mas como foi que esse caminho se abriu para você? Até porque, no início, o seu canal era focado no universo da beleza e, aos poucos, passou a tratar também de questões comportamentais.
É verdade. No começo, eu falava de maquiagem, cabelo, enfim, de beleza, pois a minha alegria, a minha realização com isso era ver as pessoas se sentindo melhores com quem elas são. Querendo ou não, acredito que a missão sempre foi fazer as minhas seguidoras se sentirem mais felizes, seguras e confiantes. No princípio, isso se deva pela beleza, porque era a linguagem, o conhecimento que eu tinha para oferecer no momento. E eu recebia relatos incríveis das mulheres, de como elas passavam a se ver com mais carinho e a ter mais autonomia. Mesmo que no início fosse algo meio abstrato, sempre defendi que a pessoa deve ter momentos de qualidade com ela própria. De 2015 para 2016, tudo estava indo muito bem. Eu havia acabado de casar, a minha carreira se encontrava num momento bem próspero, com clientes e campanhas maravilhosas, já tinha até uma equipe trabalhando comigo. Só que, às vezes, me pegava com o olhar perdido, sem motivação. Eu pensava: “Por que estou assim? Tudo anda tão bem...”. Havia um vazio, algo dentro de mim que não entendia o que era, não sabia lidar com aquilo.

Buscou ajuda?
Comecei a fazer terapia. Na sequência, passei a praticar ioga, meditar e frequentar cursos de Programação Neurolinguística (PNL). Isso tudo me ajudou, pois estava acostumada a somente olhar para fora, dar o meu melhor e fazer o possível para ver as pessoas bem. Mas chegou um momento em que quem não estava mais bem era eu.

Foi uma depressão?
Não. Era uma falta de visão de futuro, de brilho no olhar. A partir disso, encarei um processo de desconstrução. Passei a ler sobre minimalismo e essencialismo. Como eu e meu marido mudamos de apartamento, decidi fazer uma limpa nos excessos de coisas que ganho por causa do trabalho. Eu precisava de um detox, porque também estava vivendo uma fadiga devido a preocupações excessivas e a ter que tomar decisões o tempo inteiro. Comecei a fazer desapegos, a sortear o que ganhava para seguidores e promover bazares beneficentes. Fiquei com 30% do que tinha no armário. Queria entender quem era a Juliana, o que fazia falta para ela. Eu, que estava sempre maquiada e arrumada, ainda resolvi começar a usar a cara lavada. Me desconstruí, pois não sabia mais qual era a minha essência, estava vivendo no automático. Foi a melhor coisa que fiz. Mas também foi complicado, porque, ao contar sobre a minha crise existencial em um vídeo, um monte de gente não entendeu e disse que o canal devia voltar a ser como antes.

RETOMADA Perdeu muitos seguidores?
Perdi. Uma parte passou a me seguir de novo com o tempo. Da mesma forma como tive que olhar para minha vida e ficar só com o que valia a pena, as pessoas que continuaram me seguindo foram as que se identificavam de verdade comigo, que tinham sinergia com aquilo tudo. Levei um tempo para entender isso, pois, ao perder seguidores, o influenciador digital perde clientes e campanhas. Também comecei a selecionar mais sobre quais produtos e marcas de beleza e de outros segmentos eu iria falar no canal. Novos seguidores foram chegando, as coisas voltaram a prosperar e nunca mais parei de abordar as questões comportamentais. Essa crise existencial ainda me fez ter uma empresa, que fundei junto com o meu marido – que mexe com tecnologia – e mais três sócios, para viabilizar um aplicativo que idealizei, o Zen. Eu baixava um monte de apps de meditação e não encontrava um do jeito que queria. Foi assim que o Zen surgiu, em 2016.

Foi uma transformação total.
Sem dúvida. Sabe o que é legal falar? Às vezes, a gente hesita em se reinventar, fica com medo de se arriscar em um território desconhecido. Tudo que é novo dá um frio na barriga, deixa a perna bamba. O cérebro fica dizendo para seguir o caminho seguro, já conhecido, só que o coração mostra que você não está mais feliz com aquilo. É preciso ter a coragem de mudar. Hoje, vejo que esse processo valeu muito a pena. A gente também deve entender e aceitar que a transformação não acaba ali, ela vai continuar. Passamos a vida querendo ser amados e aceitos, mas será que agimos com nós mesmos como gostaríamos que os outros agissem? Eu era autocrítica demais, tinha dificuldade para ser mais amorosa nos relacionamentos. Precisamos viver cada fase da vida na sua intensidade, porque cada uma delas tem a sua importância.

O livro A Liberdade de Ser Quem Você É surgiu disso tudo?
Sim. Escrevi junto com a Kalina (Juzwiak), que é uma das minhas melhores amigas. Nele, contamos nossas histórias de transformação e comparamos os ciclos pessoais do ser humano com os da natureza. Como a natureza precisa passar pelo verão, pelo outono, pelo inverno e pela primavera, nós precisamos respeitar nossos ciclos e não atropelá-los.

FAMÍLIA Nem bem essa mudança de vida terminou e veio outra transição, a da maternidade. Como lidou com isso?
A maternidade é um turbilhão louco, que nos escancara para uma realidade aumentada, sobre nossa luz e nossa sombra. Vemos nossos defeitos e vamos entendendo ainda melhor os nossos limites. Ser mãe é algo intenso e, às vezes, duro, mas também maravilhoso demais. Não romantizo a maternidade, acho que é uma forma de a gente crescer muito. Mesmo que você tenha uma rede de apoio, pessoas que ajudam com a criança, o senso de responsabilidade e a vulnerabilidade permanecem. A Anne Liv me ensinou que preciso olhar para minhas sombras e minhas feridas, para lados meus que, às vezes, escondi e que evitei acessar até na terapia. Entendi que não vim pronta, que estou aprendendo a ser mãe e que está tudo bem ser assim. O melhor que posso fazer é ser transparente com a minha filha e as pessoas ao meu redor quando não estou bem ou fiz algo que não é tão legal. A gente é humano. Vai errar no caminho e não precisa dar conta de tudo. O que devemos é nos manter em um processo evolutivo, senão nossas falhas e limitações viram uma fonte de acomodação.

Quando é que sua alimentação se tornou mais saudável?
Eu já tinha sido vegetariana em outras épocas e sempre mantive uma alimentação saudável, mas acho que despertei de vez para isso muito em função do meu marido. Quando contei que estava grávida, ele falou: “Se quero ser exemplo como pai, preciso melhorar agora”. No casal, ele era o que mais saía da linha, só que enveredou pela alimentação à base de plantas – estudando o assunto a fundo até hoje – e perdeu 30 quilos, além de começar a correr e a participar de maratonas. Eu e o Crica temos uma troca muito bacana e um respeita o tempo do outro. Do mesmo jeito como o inspirei em algumas transformações pessoais, ele também inspirou algumas das minhas mudanças. Hoje, em casa, sou a mais flexível dos três (risos). Enquanto o Crica e a Anne Liv mantêm à risca a alimentação à base de plantas, de vez em nunca eu como um peixe e está tudo bem.

METAS Tem ideia de aonde quer chegar?
Me tornei mais flexível em relação aos planos que faço depois da maternidade. Sei o que quero, tenho meus objetivos, mas passei a deixar as coisas fluírem do jeito que têm que ser. Não fico mais batendo a cabeça se algo não sai como eu esperava ou quando eu desejava. Ainda neste semestre, vou lançar um projeto próximo ao Zen, que é uma vivência on-line de transformação pessoal. Em paralelo, vou continuar a formatar uma vivência presencial de imersão na nossa essência, que pretendo que se torne uma realidade em breve, e dar sequência aos preparativos do meu segundo livro. Como também quero me aproximar cada vez mais do que é off-line, tenho feito algumas palestras. A mais recente serve de base para esse novo livro. A palestra se chama Honre a sua História e fala sobre revisitar o passado para gerar aprendizados que a gente ainda não teve.

Pelo contato com suas seguidoras, o que acha que mais assombra a mulher moderna?
É a distorção da autoimagem. Muitas mulheres não têm se visto como são, geralmente se enxergam de modo inferior, elas põem uma lupa sobre os seus defeitos não só estéticos como comportamentais. Precisamos olhar para o que importa, para o que nos faz bem, identificar nossos valores e nossa essência, em vez de ficar reproduzindo pensamentos e padrões que são impostos, que não são nossos.

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