EDIÇÃO DIGITAL

Sábado

20 de Abril de 2019

José Antônio Marengo Orsini faz análise das fortes chuvas que atingiram a Baixada Santista

Em entrevista, climatologista fala ainda de diversos assuntos entre eles o aquecimento global

A notícia, infelizmente, não é das melhores: se não mudarmos – para ontem – a forma como cuidamos do meio ambiente, chuvas como as registradas nesta semana na Baixada Santista e no Rio de Janeiro podem se tornar ainda mais frequentes e intensas. E além do aumento cada vez maior da temperatura do planeta, passaremos a presenciar conflitos sociais e até guerras geradas pela falta de água e de comida.

O alerta é do climatologista peruano José Antônio Marengo Orsini, que escolheu o Brasil como casa e integra o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Na entrevista a seguir, o pesquisador também fala dos dados obtidos pelo Metrópole, projeto que ele coordenou e que traçou um panorama sobre o avanço do nível do mar nas cidades costeiras de Broward (Estados Unidos), Selsey (Inglaterra) e Santos – onde a estimativa é de o oceano subir 60 cm até 2100. Marengo ainda comenta a falta de visão ambiental do atual Governo, o degelo dos polos, dos Andes e dos Alpes e os reflexos – extremamente preocupantes – do desmatamento crescente da Amazônia.

Consciência

Que conclusão podemos tirar a partir das fortes chuvas na Baixada Santista e no Rio de Janeiro durante esta semana? - Fenômenos extremos como essas chuvas e a onda de frio nos Estados Unidos tendem a ficar ainda mais intensos. Assim como as estações estão se tornando cada vez mais severas. Isso, de certa forma, já começou a ser observado na última década. A consequência do aquecimento global não é somente o aumento da temperatura mundial. Ele também afeta o ciclo de chuvas, dos rios... Gerando mudanças climáticas. Na semana passada, Lima, que é uma cidade costeira do Peru, chegou a 30 graus, algo nunca visto antes. Enquanto Santiago, no Chile, e Buenos Aires, na Argentina, registraram 36 graus. Ou seja, houve uma onda de calor continental, de magnitude inédita.

Até que ponto isso pode chegar? - O aquecimento do planeta é a mistura de um processo natural de aumento da temperatura da Terra com a emissão de gases de efeito estufa, o que intensifica esse cenário e pode deixá-lo fora de controle. Se a gente, por exemplo, zera a emissão dos gases do efeito estufa, o aquecimento do planeta vai continuar, porém com taxa menor e uma redução dos extremos que citei. Isso envolve aquela velha história: utilizar combustíveis limpos, conservar recursos hídricos, favorecer o reflorestamento, porque as florestas absorvem o carbono e limpam a atmosfera. Coisas que falamos já faz tempo. Há quem defenda que a mudança climática é uma ideologia. Na realidade, trata-se de um fato científico. Em paralelo a essas discussões, o fenômeno continua andando. É como se uma pessoa tivesse câncer e os médicos ficassem debatendo a doença, em vez de buscarem um tratamento. Quando eles chegarem a uma conclusão, o paciente já estará morto. O que falta é essa percepção na população. Essa consciência deveria ser estimulada não só pelas escolas como pelo Governo. Afinal, as evidências estão aí.

Mas o nosso Governo não se mostra o maior apoiador das causas ambientais. - É verdade. O Governo anterior chegou a fazer alguma coisa pelas questões ambientais. Basta ver que o Ministério do Meio Ambiente tinha uma divisão de mudanças climáticas. Mas esse braço acabou sendo desmantelado pelo atual Governo.

Adaptação

 A situação do planeta realmente se tornou irreversível? - Reverter o quadro é praticamente impossível. Neste momento, o mais importante é pensarmos em atitudes de adaptação ao que está acontecendo e ao que pode acontecer, porque, como falei, o aquecimento vai continuar. Ainda que seja menor, com todo mundo fazendo a sua parte, mesmo assim teremos populações afetadas ao redor do globo. Com a elevação do nível do mar, há a possibilidade de as pessoas se deslocarem para áreas mais altas, no entanto não dá para considerar essa alternativa para a biodiversidade. O que quero dizer? Algumas espécies podem sumir e outras aparecerem. Devemos avaliar como protegeremos a população, o processo de adaptação que eu mencionei é para podermos sobreviver.

Pode dar um exemplo disso? - A transposição do Rio São Francisco é uma ideia excelente de adaptação, pois leva água para lugares que não a têm. Ações desse tipo já foram realizadas com sucesso nos Estados Unidos e na Rússia.

Existe um país que seja referência em termos de adaptação às mudanças climáticas? - A nação mais ativa nesse sentido provavelmente é a Holanda. Como faz parte dos Países Baixos, ela está em altitude menor do que o nível do mar. Os holandeses construíram várias barreiras de proteção. Logo, estão bem adaptados, em grande escala. E se, de repente, o nível do mar subir e as tempestades aumentarem de força, destruindo diques e inundando cidades, a tendência é que se mobilizem para construir estruturas mais altas e resistentes, para, assim, poderem seguir com as suas vidas.

Há chance de a Terra começar a se resfriar e termos talvez uma nova era glacial? - Isso é possível. Só que estamos falando de processos geológicos, que levam centenas, milhares de anos para ocorrer. Ao longo da história, o planeta já foi mais quente, depois se tornou mais frio e assim por diante. Tudo por causas naturais, ainda não existia a poluição urbana. Sabemos que a Terra vai resfriar no futuro, mas serão necessárias algumas centenas de anos para que essa transição aconteça. Aí, lá na frente, o planeta aquecerá de novo etc.

Nacional

O Brasil tem se preparado em algum sentido para enfrentar as mudanças climáticas? - Por aqui, a adaptação não foi considerada por muito tempo. Ainda estamos começando a caminhar nessa direção. O número de experiências desse tipo tem crescido, no entanto elas não são tão expressivas como gostaríamos. Os alertas que o Cemaden emite de risco de deslizamentos de terra salvam vidas e, de certo modo, podem ser considerados uma adaptação. Destaco o projeto Adapta Sertão, que está em andamento há alguns anos no semiárido da Bahia e busca incentivar a agricultura familiar. E existem dois documentos do Governo, o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima e o Plano Nacional de Mudanças Climáticas, que definem algumas estratégias. O que falta é elas serem implantadas. No ano passado, participei de reuniões no Ministério do Meio Ambiente sobre isso, mas agora, infelizmente, essa questão já não faz mais parte da agenda da pasta.

Você coordenou o Projeto Metrópole, que traçou um panorama da elevação da maré em cidades costeiras de dentro e de fora do Brasil. Quais foram as principais constatações no caso de Santos? - A maior parte dos impactos será estrutural. Conforme o nível do mar sobe, cada vez mais as ondas, a ressaca, invadem os subsolos dos prédios da região da orla. Portanto, será preciso adaptar as construções, por exemplo, tirando os geradores do subterrâneo e colocando os estacionamentos em pontos mais elevados. A Zona Noroeste também registra reflexos indiretos, porque o aumento do nível do mar faz com que os canais fiquem mais cheios. Para contornar isso, uma alternativa natural é promover a restauração  do ecossistema local, que servirá como uma espécie de proteção. OK, o custo trazido pelas consequências das mudanças climáticas é alto, só que, sem adaptação, a despesa fica ainda mais cara.

O Metrópole estimou de quanto será o aumento do nível do mar em Santos? - Ele pode chegar a 15 cm até 2040 e a 60 cm em 2100. Nesse último cenário, ficará difícil viver na Cidade. Será necessário construir barreiras para proteger o Município. Para se ter ideia, com o nível do mar subindo 20 cm, as ondas ficarão tão fortes que conseguirão adentrar em Santos. Sem contar que as tempestades poderão se tornar ainda mais intensas. A migração não será uma opção, pois não estamos falando de uma cidade extensa, pelo menos, na parte insular. A possibilidade seria mudar determinados bairros para áreas mais altas. Também precisaria canalizar a água e manter cuidado redobrado em lugares de risco com infraestruturas estratégicas, como hospitais e gasodutos.

Mas a obra realizada na Ponta da Praia já ajuda, né? - Sim. Uma das formas de adaptação é justamente engordar a praia, colocando mais areia para ampliar sua extensão. Com isso, as ondas tendem a se aproximar menos dos prédios. Nesse sentido, a intervenção feita na Ponta da Praia já começa a demonstrar alguns resultados. Geralmente, o engordamento da praia é uma boa opção. Esse recurso, inclusive, foi adotado em Miami (Estados Unidos) nos anos 60. O Metrópole terminou em 2007, mas a Prefeitura deu continuidade aos nossos apontamentos. Eu diria que Santos talvez esteja na vanguarda das adaptações às mudanças climáticas dentro do Brasil.

Mobilização

Acha que as pessoas, infelizmente, se prendem ao que o Governo e os empresários deveriam fazer a favor do meio ambiente e esquecem que elas também podem contribuir com pequenas atitudes cotidianas? - Sem dúvida! Tudo começa em casa. Uma das principais fontes dos gases do efeito estufa são os veículos. A população, portanto, poderia usar mais a bicicleta e o transporte público, que, em contrapartida, precisaria ser de melhor qualidade. Vamos levantar outro ponto: tudo bem, adaptar as indústrias a um novo tipo de energia não é barato. Só que os investidores, em vez de pensarem apenas no lucro imediato, deveriam considerar o retorno, inclusive financeiro, que será trazido pelas energias renováveis dentro de 20 ou 30 anos. E se o Governo não faz a parte dele, a população tem mais é que se mobilizar. Além de cobrar as autoridades, ela pode proteger árvores e não permitir invasões em áreas de mata.

Quais outras ações considera válidas? - Se você vai comprar algo a 800 metros de casa, para que ir de carro? E não podemos esquecer que o problema da falta de água é uma realidade. Se continuarmos de braços cruzados, podemos voltar a ter uma crise hídrica no estado de São Paulo. Precisamos conservar o máximo de recursos. Tem mais: com as fortes chuvas, muitas vezes vemos, nas áreas de alagamento, sacos de lixo boiando ou obstruindo bueiros. Então, nada de ficar poluindo a cidade. Falta essa consciência ambiental mínima. O Brasil não tem a cultura de trabalhar com prevenção, é mais reativo aos desastres.

Por mais que haja inúmeras campanhas de conscientização, parece que isso não entra na cabeça das pessoas. - E, de fato, não entra. Quer ver só? No Apagão, em 2001, a empregada da minha casa não entendia o motivo de não poder lavar a calçada com mangueira. O problema é que as mudanças climáticas não causam apenas a elevação da temperatura da Terra. Elas vão fazendo com que comece a faltar água e comida em alguns lugares do planeta, o que tende a criar conflitos sociais e guerras.

Onde é mais provável isso acontecer primeiro? - Esse tipo de problema normalmente começa a surgir em áreas com populações mais vulneráveis e castigadas pela seca, particularmente a África, onde as pessoas já morrem de fome. Com isso, vemos gente migrando e perdendo a vida ao longo do Mar Mediterrâneo. Imagina algo assim em escala global, com pessoas que não têm comida e água tentando entrar em outros países e não sendo aceitas.

Qual a sua opinião sobre ações como o Acordo de Paris e entidades como a Organização das Nações Unidas (ONU)? - Tento ser otimista, porque os Estados Unidos, que são os maiores poluidores do planeta, saíram do Acordo de Paris. Esse tipo de iniciativa internacional deve ser respeitado por todo mundo. Não adianta você limpar a sua casa e, depois, vir a poeira do vizinho e sujar tudo de novo. O fato de a China, outro grande poluidor, ter se mantido no Acordo de Paris me ajuda a manter a esperança.

Dilemas

 Há chance de o degelo se estabilizar? - A tendência é de ele, a longo prazo, diminuir. Tanto nos polos quanto nas geleiras continentais dos Alpes, dos Andes, regiões onde nascem rios importantes. A probabilidade, por exemplo, de a Groelândia derreter por inteiro é muito baixa.

O que mais preocupa na questão da Amazônia? - No quesito diversidade, ela é única. Quando a floresta perde tamanho, sua riqueza de espécies acaba sendo comprometida. A Amazônia ainda tem o papel de recicladora de umidade e contribui com o ciclo de chuvas. Devido ao seu tamanho continental, qualquer coisa que venha a acontecer por lá naturalmente vai refletir não só na América do Sul como no resto do globo. Aí é que está o problema: as pessoas não entendem a importância da Amazônia. Ela tem que ser mais protegida, pois atua na regulação do clima mundial. Vale dizer que a taxa de desmatamento aumentou de 2018 para 2019. Onde fica aquela história da conservação, do aproveitamento sustentável da floresta?