Joaquim Lopes quer conciliar arte com gastronomia e se prepara para ser pai

Em entrevista, o ator, apresentador e gastrônomo conta sobre os novos planos para a carreira e vida pessoal

A maioria das pessoas está acostumada a ver Joaquim Lopes nos papéis de ator e apresentador, mas pouca gente sabe que ele também é gastrônomo. Tanto que já trabalhou em restaurantes de São Paulo e do Rio de Janeiro. E essa paixão pela cozinha o levou a fazer uma experiência no começo da pandemia, postando no Instagram alguns vídeos caseiros com receitas de família. Devido à boa resposta do público a esse material, criou um programa para o globo.com: o Receitas do Joaquim, no qual, além de ensinar a preparar vários tipos de pratos de família, compartilha memórias marcantes ligadas a essas comidas.

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Na entrevista, o ator, apresentador e gastrônomo de 40 anos, que nasceu em Campinas e também é louco por tênis e leitura, faz um balanço da sua carreira. Ele fala ainda dos seus próximos projetos e dos preparativos para encarar, pela primeira vez, a paternidade – a mulher de Joaquim, a cantora Marcella Fogaça, está no oitavo mês de gravidez; o casal espera gêmeas.

GASTRONOMIA Como surgiu a ideia para o Receitas do Joaquim?

Eu nunca tinha feito nada totalmente focado na culinária até então. Apenas preparado um cuscuz paulista no Estrelas com a Angélica; cozinhado algumas vezes no Mais Você, da Ana Maria Braga; e teve ainda o quadro de delivery do Vídeo Show, em que fazia receitas de família e entregava, de surpresa, para as pessoas que estavam gravando novela. No ano passado, no começo da pandemia, resolvi produzir alguns vídeos caseiros de gastronomia para a IGTV. O feedback me surpreendeu, foi inacreditável. Recebi alguns relatos até emocionantes, porque a culinária envolve uma memória afetiva e eu acabava contando histórias da minha família ligadas a cada prato que ensinava a preparar. A ideia para o Receitas do Joaquim surgiu a partir disso, como uma espécie de evolução natural dos vídeos da IGTV. Marquei uma reunião na Globo para apresentar o projeto e demos início às gravações.

Qual das receitas que selecionou para o programa do globo.com é a mais especial?

O bacalhau de forno, sem dúvida. Pois, além de ser algo que não podia faltar na ceia de Natal da minha família, foi o último prato que preparei com a minha avó, que era uma força da natureza. A gente ficou por horas na cozinha, lembro da roupa azul que ela estava vestindo, do ponto cruz que fazia nos intervalos. Essa história sempre me emociona... Quando o bacalhau terminou de assar, minha avó foi retirá-lo do forno e deixou a bandeja de vidro cair no chão. A travessa estourou. A minha avó virou para mim com os olhos marejados e disse: “Acho que não consigo mais cozinhar, meu filho”. Eu respondi: “Pelo amor de Deus, não fala isso. Você é a melhor cozinheira do mundo. Eu te amo, está tudo certo”. E a abracei. Toda vez que faço esse prato é para a minha avó. Sabe, momentos marcantes assim nos lembram que somos seres humanos e que estamos vivos.

O que despertou o seu interesse pela culinária?

Aprendi a cozinhar com a minha avó. Desde quando eu tinha 6 anos, ela me levava junto para a feira e me fazia experimentar os ingredientes. Quando voltávamos para casa, eu a ajudava a preparar a comida. Café da manhã, almoço, jantar... Todas as refeições sempre foram muito importantes em casa, com a família reunida em volta da mesa, conversando. Até hoje, valorizo demais isso. Mais tarde, me formei em Gastronomia na Anhembi Morumbi (universidade em São Paulo) e trabalhei como chef-executivo por um período na Capital. Quando me mudei para o Rio de Janeiro, tive emprego ligado à culinária, mas, aí, fiz minha primeira novela e a paixão pela gastronomia ficou em segundo plano.

Cozinha regularmente em casa?

Geralmente, sou eu quem comanda a cozinha. Ainda mais agora, com a pandemia e a quarentena, fui para o fogão todos os dias. A minha mulher faz comida bem pra caramba, mas ela esconde o jogo, porque gosta que eu cozinhe para ela. Como isso, para mim, é um prazer, fica tudo certo (risos). Quando preparo pratos salgados, só sigo receita se for algo clássico; prefiro ir pelo feeling, provando e ajustando a comida conforme vai ficando pronta. Em contrapartida, ao fazer doces, não abro mão da receita, pois um pouco de farinha ou açúcar a mais ou a menos muda tudo. A cozinha brasileira é a minha favorita. Amo feijoada, rabada com agrião e batata e, apesar de não ser um prato nacional, sou louco por carpaccio.

TRAJETÓRIA Que paixão veio primeiro: as artes cênicas ou a culinária?

A minha família inteira é de médicos. Prestei, inclusive, vestibular para Medicina e passei em alguns lugares. Mas, quando conversei com o meu irmão – que, na época, estava no quarto ano do curso da USP (Universidade de São Paulo) – e perguntei sobre os desafios que o médico enfrenta no dia a dia, vi que eu não conseguiria ter, digamos, o distanciamento emocional necessário e que ia sofrer muito. Aí, entrei na faculdade de Administração, depois mudei para Publicidade, curso que concluí junto com o de Teatro. Apenas mais tarde, decidi me graduar em Gastronomia, lá pelos 24, 25 anos.

E como se interessou pela interpretação?

A minha mãe meio que me obrigou a fazer teatro. Quando eu tinha 19 anos, ela me inscreveu no curso do Célia Helena (Centro de Artes e Educação, em São Paulo) sem avisar. Nunca havia passado pela minha cabeça ser ator. Brinco que mãe tem visão além do alcance. A minha achou que, através da arte, eu poderia canalizar melhor a minha energia.

Você, por acaso, era tímido?

Pelo contrário! Eu era muito extrovertido. Devo ter enlouquecido demais a minha mãe, para ela chegar à conclusão de que a escola de artes cênicas faria com que eu deixasse de azucrinar a galera em casa. No teatro, conheci pessoas incríveis e me dei conta de que não teria como viver sem aquilo, porque a arte abriu os meus olhos não apenas para o ofício em si, mas também para a condição humana. Foi um momento importante, de construção da minha personalidade e da minha visão de mundo. Já fiz 25 espetáculos de teatro, dois filmes, nove novelas, no entanto, na minha opinião, o grande divisor de águas da minha carreira foi o Vídeo Show, pois o programa permitiu que me descobrisse como apresentador, como comunicador. Agradeço muito ao Boninho por essa oportunidade. Geralmente não gosto de me definir, só que tenho claro que, daqui para frente, quero tocar em paralelo as três coisas: a interpretação, os trabalhos como apresentador e a gastronomia.

FUTURO Tem algum projeto em vista?

Pretendo lançar, provavelmente no segundo semestre, um livro de receitas e de memórias relacionadas com a gastronomia, na mesma linha do que tenho feito desde os primeiros vídeos da IGTV. A obra ainda está na fase inicial, mas já a esbocei. Vou aproveitar esse comecinho de ano para finalizar o material.

Está nos seus planos abrir um restaurante?

Tenho essa vontade, sim, só que mais para frente. Porque, quando abrir um restaurante, vou querer ficar bastante lá. Existe uma glamourização da profissão de cozinheiro. A maioria da população acha que a pessoa já sai da faculdade sendo chef. Na verdade, você se forma cozinheiro; chef é um cargo que o profissional adquire com os anos de experiência. A vida de quem trabalha em restaurante é bastante intensa, puxada.

PATERNIDADE A sua mulher entrou no oitavo mês de gestação. Como está a expectativa para a chegada das gêmeas?

Eu e a Marcella (Fogaça) estamos tentando nos preparar da melhor maneira possível. Temos lido bastante coisa, ainda fiz dois cursos. Mas sei que, no fundo, a paternidade e a maternidade acontecem no dia a dia, na hora em que você está com o filho. Eu e o meu irmão sempre tivemos liberdade para conversar sobre qualquer assunto em casa e quero proporcionar esse ambiente seguro, livre de tabus, e de estímulo da compreensão mútua e da troca de experiências, para as minhas meninas que estão vindo aí.

O que mais deseja transmitir para elas?

Eu e a Marcella queremos criar duas mulheres fortes e independentes, que ocupam seus lugares na sociedade de forma intensa e completa. A gente vai prestar muita atenção na personalidade de cada uma das meninas e dar espaço e suporte para que possam ser elas mesmas. As duas só terão uma obrigação: serem felizes. O resto a gente dá um jeito.

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