Impactos da pandemia mudam o paladar

Antonio Pereira Carvalhal Neto e Adilson Carvalhal Junior respondem pela importadora Casa Flora. Os primos falam da transformação enogastronômica vivenciada pelo brasileiro

Uma das maiores importadoras de bebidas e alimentos do País, a Casa Flora é um negócio familiar que faz 50 anos em 2020. Nesse tempo, a empresa não só acompanhou como contribuiu com a mudança de paladar do brasileiro, de um modo que hoje produtos antes considerados seletos estão mais acessíveis e presentes em boa parte dos lares. Os primos Antonio Pereira Carvalhal Neto e Adilson Carvalhal Junior tocam a importadora fundada por seus pais. No bate-papo, além de detalhar esse processo de transformação dos nossos hábitos enogastronômicos, eles falam dos impactos trazidos pela pandemia e pelo isolamento social à mesa da nossa casa.

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EVOLUÇÃO . A Casa Flora completa 50 anos em 2020. Como analisam a transformação que aconteceu no paladar do brasileiro neste tempo? 
Adilson Carvalhal Junior: Ao longo desses anos, houve uma melhora enogastronômica expressiva. A maior parte dos consumidores brasileiros passou a ter acesso a produtos que antes eram para um público mais seleto, classificados como de luxo e que acabavam sendo encontrados em poucos lugares. Para citar alguns deles: arroz arbóreo, funghi e a mostarda dijon. Hoje, esses produtos se tornaram mais comuns e podem ser comprados, inclusive, no supermercado. Lembro que, na minha infância, era chique utilizar óleo de milho, e quase ninguém consumia azeite de oliva, o mais usual era aquele óleo misto. Agora, o azeite é item hiperusado no dia a dia, um produto que ficou mais acessível e é muito importado.

Antonio Pereira Carvalhal Neto: Algo que chama a minha atenção é como há uns 15, 20 anos o brasileiro quase não utilizava a massa de grano duro, o tomate pelado, o jámon e a conserva de alcachofra. O verdadeiro divisor de águas nessa transformação que ocorreu no paladar da população nas últimas décadas foi um produto que o Junior citou: o arroz arbóreo. Conforme as pessoas passaram a preparar risotos com ele, perceberam que existem várias alternativas diferentes para se ter uma experiência enogastronômica de qualidade. 

Os itens importados provocaram alguma outra mudança relevante no mercado nacional? 
Junior: Fala-se pouco de como o produto importado ajudou a melhorar a indústria brasileira. Por exemplo: os fabricantes nacionais de vinho tiveram de se aperfeiçoar diante da concorrência com rótulos portugueses, espanhóis, franceses, italianos... Outra situação bem significativa diz respeito à indústria brasileira de queijos, que evoluiu bastante para não perder espaço na mesa da população. Afinal, alguns queijos de fora ofereciam um bom custo-benefício. Hoje, os fabricantes nacionais têm queijos com uma baita qualidade. E toda essa evolução enogastronômica que houve no País acabou criando um consumidor mais exigente, que conhece melhor a diversidade de produtos e de técnicas de preparo de uma receita e que, por isso, faz com que a indústria brasileira procure sempre evoluir. 

Neto: Isso tudo também levou nós, da Casa Flora, a entender que, dentro do nosso modelo de importadora e distribuidora, poderíamos começar a investir na distribuição de linhas nacionais para o mercado interno. Pois há produtos brasileiros, de várias categorias, que são excelentes. 

BEBIDAS. Vocês falaram do mercado de vinhos. Algo curioso é que a gente ainda acha rótulos nacionais suaves e secos, algo que na Europa, por exemplo, não existe. 
Junior: O Brasil é um consumidor jovem de vinhos. O nosso mercado começou a abrir mesmo na década de 90. Ou seja, incorporamos o hábito de beber vinho há 20, 30 anos, enquanto outras nações já são consumidoras centenárias. Essa cultura do vinho doce, mais facinho de beber, é própria dos mercados mais novos. Você vai encontrar também esse tipo de rótulo em locais como os Estados Unidos. Alguns espanhóis até brincam que o lambrusco é o vinho que existe entre a Coca-Cola e o vinho fino. O que eles querem dizer com isso? Que esses rótulos suaves são produtos de passagem, que ajudam a trazer o consumidor para o universo dos vinhos e facilitam o processo de adaptação para as opções popularmente chamadas de “secas”. Aí está um dos motivos da importação de rótulos da uva primitivo ter dado tão certo por aqui. O brasileiro amou essa uva, pois os vinhos dela são mais frutados e possuem residual de açúcar um pouquinho maior, o que faz do rótulo de primitivo uma alternativa bem amigável para quem ainda está aprendendo a distinguir o seco do suave. 

Apesar dos bons índices de consumo, a base nacional de apreciadores de vinho poderia ser bem maior. O desafio é inserir cada vez mais gente nesse universo.

A paixão do brasileiro por cerveja é um “complicador” para isso? 
Junior: A tributação da cerveja por aqui é baixa, então a diferença de preço que existe entre ela e o vinho acaba sendo considerável, o que não acontece em vários países. Fora isso, o brasileiro tem um consumo per capita de cerveja de mais de 60 litros por ano, contra dois litros de vinho. E as grandes multinacionais, por conta desse volume absurdo e da sua presença massiva na mídia, conseguem com facilidade não só impulsionar as suas marcas de cerveja como atingir os consumidores a todo momento. Vale dizer: com o início da importação das cervejas belgas e alemães lá atrás, a indústria nacional também evoluiu, porque as pessoas passaram a querer opções internas com mais qualidade. 

TENDÊNCIAS Quais alimentos e bebidas são as apostas da indústria nacional e global daqui para frente? 
Neto: Estamos nos preparando para ajudar a promover essas tendências no mercado brasileiro. O interessante é que, com a pandemia, as feiras onde essas apostas costumam ser apresentadas estão ocorrendo virtualmente neste ano. Pelo que percebi, mesmo quando a situação melhorar, determinados eventos não voltarão a ser presenciais.

Junior: A gente viu, de um tempo para cá, o consumo de gim crescer absurdamente. Mas a indústria projeta que o rum, que era um produto supernichado, vai ganhar um baita espaço no mundo da coquetelaria daqui para frente. Até então, ou ele é caro demais, ou muito barato. Isso deve mudar. 

Outra tendência em termos globais é o crescimento do uísque bourbon, com a disponibilização de mais minimarcas no mercado. Quanto aos alimentos, nós não temos conseguido trazer para o Brasil boa parte da ampla diversidade de orgânicos ofertados no exterior, por questões de registro, que costuma ser bem custoso. A ideia é mudar essa situação, porque esse segmento só tende a crescer, no mundo inteiro. 
 

CORONAVÍRUS.A pandemia impactou o setor de comidas e bebidas importadas de maneira positiva, como nos supermercados?
Junior: A gente não tem do que reclamar. Fomos bem machucados pelo impacto cambial, pois não dá para repassar a oscilação das moedas do jeito como ela nos atinge. Houve variações bastante abruptas em um curto espaço de tempo. O melhor para o importador é quando o câmbio fica estável. Mas é fato: o setor de bebidas e alimentos importados não sofreu tanto quanto outros segmentos da economia. Com o lockdown, tivemos alguns problemas de atraso na entrega de mercadorias, e tentamos ajudar restaurantes que são clientes e tiveram dificuldades durante o isolamento. No geral, 2020 tem sido um ano bom. 

A questão é que, agora, não podemos nos permitir arriscar e errar ao experimentar algo.
Neto: Ao mesmo tempo, houve uma mudança no comportamento do consumidor, uma espécie de virada de chave. As pessoas, daqui em diante, vão querer comer e beber cada vez melhor na mesa de casa. É tendência que veio para ficar. 

Pode-se dizer que o processo de gourmetização acabou sendo acelerado pela pandemia? 
Neto: Creio que sim. O momento atual pode ser considerado um divisor de águas. Antes, por mais que houvesse um monte de receitas sendo disponibilizadas das formas mais diferentes, nem sempre as pessoas se sentiam à vontade de se arriscar na cozinha. No isolamento social, a gente se permitiu tentar, errar e consumir ingredientes 
que não cogitava até então. 

Junior: Para você ter ideia, durante o isolamento, a nossa venda de arroz arbóreo para restaurantes caiu bem, porém essa queda acabou sendo compensada no varejo, pelo fato de esse tipo de produto ter sido bastante procurado pelas pessoas em geral, que o queriam em casa. Com a pandemia, a população se permitiu pequenas indulgências, que geraram avanço gastronômico. 

PREFERIDOS. Que tipo de consumidor mais busca produtos importados aqui no País? 
Junior: O Brasil ainda é carente em pesquisas de mercado nessa linha. Detectamos que os importados não têm vendido bem apenas em São Paulo; a procura por eles se mostra crescente no País inteiro, e me refiro a todos os estilos de produto.

Neto: É impressionante como, hoje, todas as classes sociais consomem bebidas e alimentos importados. As pessoas se mostram cada vez mais abertas às boas experiências gastronômicas. Por isso, tentamos contribuir com o processo, dando orientações. Por exemplo, se você gostou de um vinho português do Alentejo, o indicado é pesquisar sobre essa região e degustar outros rótulos de lá para criar referências.

E como a gente ficou isolado, sem viajar, a culinária ajudou a reativar nossa memória afetiva, concorda? 
Neto: Exatamente! As pessoas se deram conta de que podem recriar experiências e sensações que tiveram numa viagem, por exemplo, para a Europa preparando refeição com ingredientes e receitas de lá. Ajuda a matar a saudade, né? 

Quais são os importados queridinhos do brasileiro? 
Junior: Os produtos e a gastronomia italiana são consumidos com rapidez e facilidade pelo brasileiro. O italiano possui algo genial: de modo geral, nada dele é caro demais e acaba tendo um preço que cabe no bolso. Sem falar que os seus pratos não são tão difíceis de fazer. Agora, falando dos vinhos, os que o brasileiro mais consome são chilenos, argentinos e portugueses. Os rótulos de Portugal passam por um novo boom. Mas o brasileiro ainda prefere o vinho tinto – que vende bem mais do que os outros. Os rosés e espumantes têm crescido consideravelmente, mais do que os brancos, na preferência do consumidor nacional.

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