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Domingo

19 de Maio de 2019

Glenda Kozlowski leva sua vida movida pelo esporte

Antes de se tornar jornalista esportiva de sucesso, ela já brilhava como tetracampeã mundial de bodyboard

Glenda Kozlowski deve muito ao pai a paixão que tem desde criança por esporte. Basta ver que, ainda pequena, praticou todas as modalidades possíveis e imagináveis. E, até hoje, fica paralisada quando coloca os pés no Maracanã – passeio que tantas vezes fez com o pai a partir dos 4, 5 anos.

Flamenguista assumida, a carioca de 44 anos teve uma trajetória de sucesso no bodyboard, consagrando-se quatro vezes campeã mundial. O único sonho que não conseguiu realizar como atleta foi ir para uma Olimpíada, mas teve essa oportunidade como jornalista, ao cobrir a competição, pela primeira vez, em 2000 em Sydney (Austrália). Outro título atribuído a Glenda é o de primeira narradora da Rede Globo – estreia que se deu nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, quando também se tornou a primeira mulher a narrar a conquista de uma medalha do seu país em uma Olimpíada.

Prestes a abrir um instituto para ajudar atletas e paratletas, a carioca divide com os filhos – Gabriel, de 23 anos, e Eduardo, de 13 – a paixão pelos esportes. Na entrevista a seguir, ela mostra um pouco do seu lado mãe, relembra o tempo em que foi atriz e comemora a boa fase no 'Tá na Área', programa que apresenta desde janeiro, de segunda a sexta, a partir das 17 horas, na SporTV.

JORNALISMO O que está achando da experiência no Tá na Área?

Ele é um programa muito interessante, porque entramos no ar num horário muito nobre para o esporte (de segunda a sexta, às 17 horas), quando os treinos dos times ou já aconteceram, ou estão rolando. Então, a gente sempre tem tudo muito quente, de todos os clubes do Brasil. Para completar, os treinos das equipes da Europa já terminaram. Outra coisa bem legal é que o Tá na Área me faz voltar a falar bastante de futebol. Eu já fui repórter de campo, setorista de clube, depois fiquei um bom tempo, em torno de 20 anos, sem acompanhar o futebol tão de perto. O retorno à SporTV foi uma mudança radical. Fico em torno de duas horas no ar, ao vivo, sem teleprompter, com informações chegando o tempo inteiro. É o tipo de jornal que, se você não estiver por dentro dos assuntos, não consegue desenvolver apresentação, fica monossilábico. Fazer uma revista eletrônica como o Esporte Espetacular é mais tranquilo. O Tá na Área traz de volta a adrenalina da cobertura diária. Ele é assustadoramente dinâmico, mas isso não me incomoda, não fico insegura porque o roteiro mudou. Pelo contrário, gosto disso.

O jornalismo diário deixa a gente meio pilhado. É uma pessoa naturalmente elétrica?

Sou bem calma. Já fui mais elétrica na adolescência, quando saía de manhã e só retornava à noite, e ficava emendando uma coisa na outra. Não sou mais assim. Adoro ficar em casa, sou caseira. Mas, no trabalho, fico pilhada, a hora passa rápido. Chego entre 10 e 11 horas à redação e, quando vejo, o dia já foi. Às vezes, fico sem almoçar e só me dou conta disso às 16h30, perto de entrar no ar. Aí, deixo para comer depois do programa, no jantar. Tinha esquecido como é isso. Nas grandes coberturas, como as da Copa e Olimpíada, o dia começa muito cedo e termina bem tarde, é normal a gente comer e dormir pouco. Na sexta, após uma semana de bastante trabalho no Tá na Área, minha cabeça está de tal forma que preciso ficar uma hora, uma hora e meia, em silêncio, quietinha em casa, para poder desligar o cérebro e voltar para o mundo (risos).

CONEXÃO Gosta muito de futebol?

Sim, e não escondo que torço para o Flamengo, pois, antes de trabalhar como jornalista, era atleta e todo mundo já sabia que torcia para o Flamengo, por causa da minha admiração pelo Zico. Ele sempre me inspirou muito. Também gosto bastante dos esportes olímpicos. Divido meu tempo entre ver futebol e as outras modalidades. Já cansei de optar por assistir a uma partida de vôlei em vez de futebol. Se estiver de boa em casa, mesmo na folga, ligo a TV para ver algo. Sou consumidora de esporte desde pequena.

O que despertou essa paixão?

A grande frustração do meu pai é que ele teve duas meninas e nenhum menino. Eu era como o filho homem (risos). Fiz todos os esportes que você pode imaginar: vôlei, basquete, futsal, judô, tênis, na escola era fera no handebol... Minha primeira memória com esporte é ir ao Maracanã com o meu pai aos 4, 5 anos. Minha mãe ficava enlouquecida com isso, mas, para mim, era um programão, me sentia a criança mais feliz do mundo. Adoro ir a estádio, até hoje fico paralisada no Maracanã. Cheguei a ser mascote da torcida do Flamengo, me arrependo de ter jogado fora a camiseta que fizeram para mim. É que sou muito prática, vou me desfazendo das coisas. Minha segunda memória marcante com o esporte já é uma vontade de ser atleta. Ao assistir à Olimpíada de 80, de Moscou, ficava me imaginando ganhando medalhas. Talvez por isso, quis ser jogadora de vôlei. Em 85, fui negada no teste para a escolinha do Flamengo, olha como eu era ruim. Também não me aceitaram no Fluminense. Foi a minha primeira frustração, fiquei triste demais. Logo depois, como cresci na Barra da Tijuca e vivia na praia, comecei a pegar onda aos 11 anos. Quem diria que o bodyboard me levaria a representar o Brasil? Não fui atleta olímpica como desejava, mas tive conquistas como ganhar quatro mundiais.

Sua irmã também curte esporte?

Sim. Eu não consegui ser jogadora de vôlei, mas a Wladia, que é a caçula, foi uma das melhores levantadoras do Rio na época. Tinha o maior orgulho dela. Ela jogou no Flamengo, Botafogo, Fluminense e até na seleção durante a fase juvenil. Só que acabou preferindo se afastar. Como as duas filhas competiam, minha mãe ficava com a Wladia nos torneios regionais e nacionais; o meu pai, que é inglês, viajava comigo para o exterior. 

CAXIAS Quais as recordações mais especiais que guarda do período em que foi atleta profissional?

Para mim, o bodyboard começou como uma brincadeira e evoluiu naturalmente. Peguei o início desse esporte no Brasil, sou da primeira geração que realmente competiu. Jamais vou esquecer quando conquistei o tetracampeonato mundial em Pipeline, praia emblemática do Havaí. Também foram especiais as amizades e as viagens que fiz. Eu era muito nova, comecei a descobrir o mundo, me tornei fluente no inglês, fiquei uma temporada na Austrália. Enfim, conheci lugares incríveis por causa do bodyboard e para os quais nunca imaginei que iria, porque minha família não tinha condições para bancar tantas viagens. O esporte abriu a minha cabeça.

Era uma atleta muito autocrítica?

Demais! E até hoje sou bastante disciplinada, dedicada, caxias. Gosto de estudar, de ler e pesquisar, de saber o contexto das coisas. Isso me ajuda como jornalista. Quando era atleta, não tinha tempo ruim para mim, adorava treinar. Se não havia onda, cuidava da preparação física. Corria e pedalava muito, ia da Barra ao Recreio. Com 13, 14 anos, também fazia ginástica localizada. E sempre fui competitiva. Ainda mantenho uma sintonia grande com o mar. Brinco que ele é o meu divã. Quando quero pensar na vida ou tomar uma decisão, vou para a praia. A natureza ensina a gente demais, falo da sua importância para os meus dois filhos.

Eles também gostam de esporte?

Super! O Eduardo, meu caçula, de 13 anos, é flamenguista doente e jogador de basquete do clube. Ele tem a rotina e as responsabilidades de qualquer atleta. Acho isso o máximo! O Eduardo também é meu companheirão, costumamos ver os jogos de futebol juntos. Agora, o Gabriel, meu filho mais velho, de 23 anos, mora em Lisboa, Portugal, para fazer faculdade de arte e fotografia. Ele nunca competiu, mas é um bom ciclista, gosta mais de esportes radicais. Considero o Gabriel um artista de alma. Ele é fotógrafo, músico...

BELEZA Depois que você parou de competir, manteve a rotina de exercícios?

Durante uns oito anos, não queria saber de absolutamente nada. Aí, aos 30, na gravidez do segundo filho, engordei 27 quilos. Após o Eduardo nascer, continuei com 18, 20 quilos a mais. Foi, então, que tomei vergonha na cara e voltei a correr, a fazer musculação. Com o tempo, também descobri o pilates e o funcional. E continuo pegando onda, mas gostaria de aprender outra modalidade, como o kitesurf. É que falta tempo para isso.

É vaidosa? 

De uns cinco anos para cá, comecei a me preocupar com cremes e outros cuidados com a pele e o cabelo. Como qualquer surfista, nunca fui muito ligada nisso, mas, com a chegada dos 40, senti demais as mudanças no corpo. Sempre fui de ter amigas mais velhas e elas cansavam de falar sobre os efeitos da idade, eu achava aquilo a maior baboseira. Só entendi o que elas diziam quando completei 40.

TRANSIÇÃO Houve época em que realmente pensou em ser atriz?

Fiz teatro a adolescência inteira. Cheguei até a trabalhar em uma minissérie da Manchete e em dois filmes. Em 1992, fui chamada para fazer Sex Appeal, minissérie da Globo que lançou a Luana Piovani. Eu ia interpretar uma espécie de rival da personagem dela. No piloto que gravei, havia uma cena de nudez, não explícita, e por ter 17 anos, precisava de autorização dos meus pais para seguir adiante. Minha mãe não deixou. Fiquei tão arrasada! Aconteceu tudo junto. Na mesma época, entrei na faculdade e veio o convite para apresentar um programa de esporte. Aí, me apaixonei pelo jornalismo, profissão que ainda me deu a chance de conhecer vários ídolos. Quase morri quando fui apresentada para o Zico! E assim, mergulhei de cabeça no jornalismo, não quis mais outra carreira.

Ainda é ligada em arte?

Muito! Gosto de música eletrônica, adoro projeção e iluminação, converso bastante com artistas plásticos... Tenho uma veia artística dentro de mim.

Qual foi a experiência mais marcante que teve como jornalista?

Vivi tantos momentos bacanas!

A minha primeira cobertura de Olimpíada, Sidney em 2000, foi emblemática. Fiquei emocionada demais, chorava o tempo inteiro, porque aquele era um ambiente que sempre quis frequentar. Sem falar que me lembrava da temporada em que passei na Austrália, por causa do bodyboard. A recente entrevista com o Neymar para o Fantástico também foi surpreendentemente emocionante, pois o acompanhei desde o início da carreira, quando eu apresentava o Globo Esporte de São Paulo, conheci a mãe dele para o programa As Matrioskas e o Neymar confiou em mim para falar coisas que normalmente não fala. Ainda destaco a experiência de pegar onda na pororoca, em 2003, para uma matéria; minha primeira cobertura de Copa do Mundo, que foi a da Alemanha, em 2006; a minha estreia, em 2016, no Rio, como primeira narradora da Globo e primeira mulher na história das Olimpíadas a narrar a conquista de uma medalha do seu país. Tem tanta coisa que vou acabar esquecendo algo. Graças a Deus, sou uma privilegiada.

BENEFICENTE Como anda o projeto social que está montando?

O Instituto Um Real vai sair do forno em breve. O esporte me deu tanta coisa que sempre penso em como posso retribuir isso. Foi assim que surgiu a ideia para a entidade. O nome e a logomarca, que desenhei, vieram em sonho. Meu marido os achou geniais. Meu objetivo é ajudar atletas e paratletas que já competem a conseguir equipamentos, passagens e hospedagens para disputar as provas, enfim, proporcionar o que eles precisam para evoluir no esporte. Sei quantas dificuldades os atletas enfrentam. Eu, por exemplo, penei para ter patrocínio e dinheiro para viajar no início da carreira. Só peço R$ 1 das pessoas que pretendem contribuir com o instituto. Imagina o seguinte: se cada um dos meus seguidores do Twitter doarem R$ 1, terei quase R$ 1 milhão para ajudar vários atletas. Faço isso, pois sei que o esporte é transformador.

Confira reportagem completa na AT Revista deste domingo (12).