Glenda Kozlowski leva sua vida movida pelo esporte

Antes de se tornar jornalista esportiva de sucesso, ela já brilhava como tetracampeã mundial de bodyboard

Glenda Kozlowski deve muito ao pai a paixão que tem desde criança por esporte. Basta ver que, ainda pequena, praticou todas as modalidades possíveis e imagináveis. E, até hoje, fica paralisada quando coloca os pés no Maracanã – passeio que tantas vezes fez com o pai a partir dos 4, 5 anos.

Flamenguista assumida, a carioca de 44 anos teve uma trajetória de sucesso no bodyboard, consagrando-se quatro vezes campeã mundial. O único sonho que não conseguiu realizar como atleta foi ir para uma Olimpíada, mas teve essa oportunidade como jornalista, ao cobrir a competição, pela primeira vez, em 2000 em Sydney (Austrália). Outro título atribuído a Glenda é o de primeira narradora da Rede Globo – estreia que se deu nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, quando também se tornou a primeira mulher a narrar a conquista de uma medalha do seu país em uma Olimpíada.

Prestes a abrir um instituto para ajudar atletas e paratletas, a carioca divide com os filhos – Gabriel, de 23 anos, e Eduardo, de 13 – a paixão pelos esportes. Na entrevista a seguir, ela mostra um pouco do seu lado mãe, relembra o tempo em que foi atriz e comemora a boa fase no 'Tá na Área', programa que apresenta desde janeiro, de segunda a sexta, a partir das 17 horas, na SporTV.

JORNALISMO O que está achando da experiência no Tá na Área?

Ele é um programa muito interessante, porque entramos no ar num horário muito nobre para o esporte (de segunda a sexta, às 17 horas), quando os treinos dos times ou já aconteceram, ou estão rolando. Então, a gente sempre tem tudo muito quente, de todos os clubes do Brasil. Para completar, os treinos das equipes da Europa já terminaram. Outra coisa bem legal é que o Tá na Área me faz voltar a falar bastante de futebol. Eu já fui repórter de campo, setorista de clube, depois fiquei um bom tempo, em torno de 20 anos, sem acompanhar o futebol tão de perto. O retorno à SporTV foi uma mudança radical. Fico em torno de duas horas no ar, ao vivo, sem teleprompter, com informações chegando o tempo inteiro. É o tipo de jornal que, se você não estiver por dentro dos assuntos, não consegue desenvolver apresentação, fica monossilábico. Fazer uma revista eletrônica como o Esporte Espetacular é mais tranquilo. O Tá na Área traz de volta a adrenalina da cobertura diária. Ele é assustadoramente dinâmico, mas isso não me incomoda, não fico insegura porque o roteiro mudou. Pelo contrário, gosto disso.

O jornalismo diário deixa a gente meio pilhado. É uma pessoa naturalmente elétrica?

Sou bem calma. Já fui mais elétrica na adolescência, quando saía de manhã e só retornava à noite, e ficava emendando uma coisa na outra. Não sou mais assim. Adoro ficar em casa, sou caseira. Mas, no trabalho, fico pilhada, a hora passa rápido. Chego entre 10 e 11 horas à redação e, quando vejo, o dia já foi. Às vezes, fico sem almoçar e só me dou conta disso às 16h30, perto de entrar no ar. Aí, deixo para comer depois do programa, no jantar. Tinha esquecido como é isso. Nas grandes coberturas, como as da Copa e Olimpíada, o dia começa muito cedo e termina bem tarde, é normal a gente comer e dormir pouco. Na sexta, após uma semana de bastante trabalho no Tá na Área, minha cabeça está de tal forma que preciso ficar uma hora, uma hora e meia, em silêncio, quietinha em casa, para poder desligar o cérebro e voltar para o mundo (risos).

CONEXÃO Gosta muito de futebol?

Sim, e não escondo que torço para o Flamengo, pois, antes de trabalhar como jornalista, era atleta e todo mundo já sabia que torcia para o Flamengo, por causa da minha admiração pelo Zico. Ele sempre me inspirou muito. Também gosto bastante dos esportes olímpicos. Divido meu tempo entre ver futebol e as outras modalidades. Já cansei de optar por assistir a uma partida de vôlei em vez de futebol. Se estiver de boa em casa, mesmo na folga, ligo a TV para ver algo. Sou consumidora de esporte desde pequena.

O que despertou essa paixão?

A grande frustração do meu pai é que ele teve duas meninas e nenhum menino. Eu era como o filho homem (risos). Fiz todos os esportes que você pode imaginar: vôlei, basquete, futsal, judô, tênis, na escola era fera no handebol... Minha primeira memória com esporte é ir ao Maracanã com o meu pai aos 4, 5 anos. Minha mãe ficava enlouquecida com isso, mas, para mim, era um programão, me sentia a criança mais feliz do mundo. Adoro ir a estádio, até hoje fico paralisada no Maracanã. Cheguei a ser mascote da torcida do Flamengo, me arrependo de ter jogado fora a camiseta que fizeram para mim. É que sou muito prática, vou me desfazendo das coisas. Minha segunda memória marcante com o esporte já é uma vontade de ser atleta. Ao assistir à Olimpíada de 80, de Moscou, ficava me imaginando ganhando medalhas. Talvez por isso, quis ser jogadora de vôlei. Em 85, fui negada no teste para a escolinha do Flamengo, olha como eu era ruim. Também não me aceitaram no Fluminense. Foi a minha primeira frustração, fiquei triste demais. Logo depois, como cresci na Barra da Tijuca e vivia na praia, comecei a pegar onda aos 11 anos. Quem diria que o bodyboard me levaria a representar o Brasil? Não fui atleta olímpica como desejava, mas tive conquistas como ganhar quatro mundiais.

Sua irmã também curte esporte?

Sim. Eu não consegui ser jogadora de vôlei, mas a Wladia, que é a caçula, foi uma das melhores levantadoras do Rio na época. Tinha o maior orgulho dela. Ela jogou no Flamengo, Botafogo, Fluminense e até na seleção durante a fase juvenil. Só que acabou preferindo se afastar. Como as duas filhas competiam, minha mãe ficava com a Wladia nos torneios regionais e nacionais; o meu pai, que é inglês, viajava comigo para o exterior. 

CAXIAS Quais as recordações mais especiais que guarda do período em que foi atleta profissional?

Para mim, o bodyboard começou como uma brincadeira e evoluiu naturalmente. Peguei o início desse esporte no Brasil, sou da primeira geração que realmente competiu. Jamais vou esquecer quando conquistei o tetracampeonato mundial em Pipeline, praia emblemática do Havaí. Também foram especiais as amizades e as viagens que fiz. Eu era muito nova, comecei a descobrir o mundo, me tornei fluente no inglês, fiquei uma temporada na Austrália. Enfim, conheci lugares incríveis por causa do bodyboard e para os quais nunca imaginei que iria, porque minha família não tinha condições para bancar tantas viagens. O esporte abriu a minha cabeça.

Era uma atleta muito autocrítica?

Demais! E até hoje sou bastante disciplinada, dedicada, caxias. Gosto de estudar, de ler e pesquisar, de saber o contexto das coisas. Isso me ajuda como jornalista. Quando era atleta, não tinha tempo ruim para mim, adorava treinar. Se não havia onda, cuidava da preparação física. Corria e pedalava muito, ia da Barra ao Recreio. Com 13, 14 anos, também fazia ginástica localizada. E sempre fui competitiva. Ainda mantenho uma sintonia grande com o mar. Brinco que ele é o meu divã. Quando quero pensar na vida ou tomar uma decisão, vou para a praia. A natureza ensina a gente demais, falo da sua importância para os meus dois filhos.

Eles também gostam de esporte?

Super! O Eduardo, meu caçula, de 13 anos, é flamenguista doente e jogador de basquete do clube. Ele tem a rotina e as responsabilidades de qualquer atleta. Acho isso o máximo! O Eduardo também é meu companheirão, costumamos ver os jogos de futebol juntos. Agora, o Gabriel, meu filho mais velho, de 23 anos, mora em Lisboa, Portugal, para fazer faculdade de arte e fotografia. Ele nunca competiu, mas é um bom ciclista, gosta mais de esportes radicais. Considero o Gabriel um artista de alma. Ele é fotógrafo, músico...

BELEZA Depois que você parou de competir, manteve a rotina de exercícios?

Durante uns oito anos, não queria saber de absolutamente nada. Aí, aos 30, na gravidez do segundo filho, engordei 27 quilos. Após o Eduardo nascer, continuei com 18, 20 quilos a mais. Foi, então, que tomei vergonha na cara e voltei a correr, a fazer musculação. Com o tempo, também descobri o pilates e o funcional. E continuo pegando onda, mas gostaria de aprender outra modalidade, como o kitesurf. É que falta tempo para isso.

É vaidosa? 

De uns cinco anos para cá, comecei a me preocupar com cremes e outros cuidados com a pele e o cabelo. Como qualquer surfista, nunca fui muito ligada nisso, mas, com a chegada dos 40, senti demais as mudanças no corpo. Sempre fui de ter amigas mais velhas e elas cansavam de falar sobre os efeitos da idade, eu achava aquilo a maior baboseira. Só entendi o que elas diziam quando completei 40.

TRANSIÇÃO Houve época em que realmente pensou em ser atriz?

Fiz teatro a adolescência inteira. Cheguei até a trabalhar em uma minissérie da Manchete e em dois filmes. Em 1992, fui chamada para fazer Sex Appeal, minissérie da Globo que lançou a Luana Piovani. Eu ia interpretar uma espécie de rival da personagem dela. No piloto que gravei, havia uma cena de nudez, não explícita, e por ter 17 anos, precisava de autorização dos meus pais para seguir adiante. Minha mãe não deixou. Fiquei tão arrasada! Aconteceu tudo junto. Na mesma época, entrei na faculdade e veio o convite para apresentar um programa de esporte. Aí, me apaixonei pelo jornalismo, profissão que ainda me deu a chance de conhecer vários ídolos. Quase morri quando fui apresentada para o Zico! E assim, mergulhei de cabeça no jornalismo, não quis mais outra carreira.

Ainda é ligada em arte?

Muito! Gosto de música eletrônica, adoro projeção e iluminação, converso bastante com artistas plásticos... Tenho uma veia artística dentro de mim.

Qual foi a experiência mais marcante que teve como jornalista?

Vivi tantos momentos bacanas!

A minha primeira cobertura de Olimpíada, Sidney em 2000, foi emblemática. Fiquei emocionada demais, chorava o tempo inteiro, porque aquele era um ambiente que sempre quis frequentar. Sem falar que me lembrava da temporada em que passei na Austrália, por causa do bodyboard. A recente entrevista com o Neymar para o Fantástico também foi surpreendentemente emocionante, pois o acompanhei desde o início da carreira, quando eu apresentava o Globo Esporte de São Paulo, conheci a mãe dele para o programa As Matrioskas e o Neymar confiou em mim para falar coisas que normalmente não fala. Ainda destaco a experiência de pegar onda na pororoca, em 2003, para uma matéria; minha primeira cobertura de Copa do Mundo, que foi a da Alemanha, em 2006; a minha estreia, em 2016, no Rio, como primeira narradora da Globo e primeira mulher na história das Olimpíadas a narrar a conquista de uma medalha do seu país. Tem tanta coisa que vou acabar esquecendo algo. Graças a Deus, sou uma privilegiada.

BENEFICENTE Como anda o projeto social que está montando?

O Instituto Um Real vai sair do forno em breve. O esporte me deu tanta coisa que sempre penso em como posso retribuir isso. Foi assim que surgiu a ideia para a entidade. O nome e a logomarca, que desenhei, vieram em sonho. Meu marido os achou geniais. Meu objetivo é ajudar atletas e paratletas que já competem a conseguir equipamentos, passagens e hospedagens para disputar as provas, enfim, proporcionar o que eles precisam para evoluir no esporte. Sei quantas dificuldades os atletas enfrentam. Eu, por exemplo, penei para ter patrocínio e dinheiro para viajar no início da carreira. Só peço R$ 1 das pessoas que pretendem contribuir com o instituto. Imagina o seguinte: se cada um dos meus seguidores do Twitter doarem R$ 1, terei quase R$ 1 milhão para ajudar vários atletas. Faço isso, pois sei que o esporte é transformador.

Confira reportagem completa na AT Revista deste domingo (12).

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