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Quinta-feira

18 de Julho de 2019

Ginasta da região é destaque de grupo acrobático europeu

O santista Peterson da Cruz Hora está à frente do Zurcaroh, grupo acrobático da Áustria que foi vice-campeão do America’s Got Talent e vai se apresentar pela primeira vez no Brasil

A história de Peterson da Cruz Hora é daquelas que nos inspiram a correr atrás de nossos sonhos e jamais desistir. De origem humilde, o santista começou a se destacar na ginástica como atleta da equipe da Prefeitura de Guarujá – da qual fez parte por 15 anos.

Aí, em 2007, teve a chance de participar com a Confederação Brasileira de Ginástica de um evento que mudou a sua vida, pois rendeu convite para montar o grupo acrobático Zurcaroh, na Áustria. Atualmente com 55 membros – que têm de 6 a 27 anos e vão de estudantes a engenheiros e médicos das mais diferentes nacionalidades (há sete brasileiros em meio a austríacos e integrantes originários da Suíça, Alemanha, Turquia, Finlândia e Rússia) –, o Zurcaroh passou a acumular títulos e apresentações pelo globo, incluindo performance na frente das pirâmides de Gizé, no Egito. Mas o grande divisor de águas na trajetória do grupo foi brilhar, em 2018, como vice-campeão da 13ª temporada do programa norte-americano America’s Got Talent – competição de talentos exibida por aqui pelo Canal Sony. Agora, Peterson se prepara para a primeira visita do Zurcaroh ao Brasil: em 14 de julho, às 16 horas, a equipe apresenta no Credicard Hall, em São Paulo, o espetáculo As Escrituras Sagradas, que reproduz passagens bíblicas de forma artística – os ingressos, de R$ 40 a R$ 280, podem ser adquiridos no ticketsforfun.com.br. Na entrevista a seguir, o coreógrafo de 38 anos relembra momentos marcantes da sua carreira e fala da vontade de montar um projeto social no País.

DESAFIO Como surgiu a chance de montar o Zurcaroh, na Áustria?

Em 2007, participei de um evento fora do País com a Confederação Brasileira de Ginástica e, por causa disso, recebi o convite para criar o Zurcaroh. Demorei para me decidir, porque estava com um trabalho bom na área de Comércio Exterior, tinha acabado de comprar a minha casa e levava a ginástica mais como um hobby – há 15 anos, fazia parte do grupo da Prefeitura de Guarujá. Foi um risco que assumi, deixando para trás os meus pais, os meus quatro irmãos e tudo o que havia conquistado aqui no Brasil para ir sozinho para a Áustria em 2009.

Qual foi a sensação que teve ao se ver em um país tão diferente?

Não foi nada fácil me adaptar, pois não falava alemão (idioma oficial da Áustria), sabia apenas inglês. Comecei a fazer cursos em paralelo ao Zurcaroh para aprender a língua e evoluí aos poucos. No ano passado, como viajo sempre com o grupo, tive de abrir mão da cidadania brasileira e me tornar austríaco, para atender algumas leis.

Quanto tempo demorou para estruturar a equipe?

O projeto do Zurcaroh consistia em iniciar no esporte crianças e jovens sedentários. No prazo de quatro anos, com treinos nos finais de semana, nas férias e nos demais horários livres deles, o grupo atingiu um nível bom e, em 2013, foi participar do 2º World Gym For Life Challenge (campeonato da Federação Internacional de Ginástica) na Cidade do Cabo, na África do Sul. Para minha surpresa, ganhamos o torneio, que tinha equipes de 70 nações – o Brasil não estava presente. Voltamos para a Áustria com visibilidade e começamos a fazer apresentações (algumas esgotadas) e a participar de eventos, inclusive, fora do país.

E como o grupo foi parar no America’s Got Talent?

Em 2016, aproveitei o dinheiro da bilheteria de uma apresentação que fizemos em um teatro na divisa da Alemanha com a Suíça e contratei profissionais que tinham passado por Hollywood para filmar um curta-metragem sobre o Zurcaroh com uma pegada motivacional.

Por causa desse vídeo, que disponibilizamos no perfil do grupo no YouTube em 2017, recebemos convite para o Got Talent da França. Anteriormente, fomos chamados quatro vezes para a versão alemã do programa e recusamos, mas resolvemos nos comprometer com a atração francesa. O curioso é que o curta também rendeu o convite para o America’s Got Talent

LIMITE O que achou da experiência no Got Talent da França?

Fomos para a final do programa, só que, como os franceses são muito patriotas, jamais deixariam uma equipe de outro país vencer a competição. Em março do ano passado, viajamos para Los Angeles (EUA), com todas as despesas dos nossos 55 membros pagas pela produção do America’s Got Talent, para nos apresentarmos no programa. Sinceramente, não esperava que a gente fosse além da audição. Quando nos classificamos para a etapa seguinte, eu não tinha o que mostrar, pois já havia usado nossos melhores exercícios. Como estava empolgado com aquilo e só precisávamos retornar dali a quatro meses, consegui montar nova coreografia. Aí, um mês antes da apresentação, acertei alguns detalhes com a equipe do Cirque du Soleil que nos deu suporte. Acabamos indo para a final, mas estávamos no nosso limite.

Como assim?

Não é fácil viabilizar uma apresentação internacional do Zurcaroh, porque, como o grupo é formado por crianças e jovens que estão na escola e por profissionais de diversas áreas (de professores a médicos e engenheiros) – apenas dois membros vivem da equipe exclusivamente –, muitas vezes eles têm que faltar no colégio e no trabalho para viajar. No caso do America’s Got Talent, a equipe já havia atingido o seu limite de faltas e não poderia nem gravar o último episódio da temporada, nem fazer o show em Las Vegas, que estava previsto em contrato. Diante desse impasse, ficamos esperando uma posição da produção do programa. Para nossa alegria e gratidão, fomos eleitos vice-campeões.

BRASIL Qual a sua expectativa para o espetáculo em São Paulo?

Sempre tive o sonho de fazer uma apresentação no Brasil, pois é onde o meu coração está. Recentemente, realizamos duas performances – uma em Las Vegas (EUA) e outra em frente às pirâmides de Gizé, no Cairo (Egito) – que nos permitiram financiar a vinda para São Paulo. Também estamos contando com o auxílio de parceiros da Áustria para bancar as despesas, de cerca de R$ 500 mil. Para poderem viajar, os membros da equipe que não estão de férias pediram liberação do trabalho. E ninguém vai ganhar nada com o espetáculo. O dinheiro da bilheteria será revertido para entidades do País que cuidam de crianças com câncer e dependentes químicos. Ainda vamos levar pessoas de comunidades carentes de Guarujá, Vicente de Carvalho e Praia Grande para assistir à apresentação e arrecadar de uma a duas toneladas de alimentos para distribuir cestas básicas para elas.

Você é santista, certo?

Sim, nasci em Santos, mas morei mesmo em Guarujá, em Santa Rosa e Conceiçãozinha. Na sessão do Credicard Hall, meu coração vai estar a mil, porque também será a primeira vez em que a minha família verá, ao vivo, o meu trabalho com o Zurcaroh. Como as pessoas que o grupo vai levar para assistir ao show em São Paulo, cresci em comunidades onde a gente não tinha condições de comprar alimentos e muito menos de ir a espetáculos como os do Zurcaroh e do Cirque du Soleil. Sei que existem crianças nesses lugares que só precisam de uma oportunidade assim para se sentirem inspiradas a correr atrás de seus sonhos. Estou fazendo isso como uma forma de retribuir o que a vida me deu. Sem falar que me sinto mais feliz e completo ajudando os outros. Sou um sonhador, sabe? Quero mostrar para as pessoas o quanto é importante sonhar. Você não precisa de dinheiro para sonhar, é grátis. Me tornei quem sou hoje pois, um dia, simplesmente me permiti sonhar.

Tem outros planos para o Brasil?

Mais para frente, pretendo montar um projeto social no País. No momento, dou suporte para uma causa de Uganda, na África. Contribuo com um grupo acrobático que tirou 45 crianças e jovens das ruas e ainda reproduziu uma das performances do Zurcaroh no America’s Got Talent. Eles viram nosso vídeo na internet – de todos os participantes do programa até hoje, nós somos os mais procurados na web (mais de 390 milhões de views). Fiquei tão comovido com a atitude desse grupo de Uganda que viajei para lá para fazer um treino com eles.

ORIGEM O que despertou o seu interesse pela ginástica?

Comecei na dança. Desde pequeno, participava de tudo o que tinha a ver com isso, cheguei até a me profissionalizar. Aí, me tornei atleta de ginástica acrobática do grupo da Prefeitura de Guarujá. Fui bicampeão brasileiro em 1998 e 1999. Por conta desses títulos, ganhei bolsa em uma escola particular. Aos poucos, ainda passei a liderar o grupo de ginástica de Guarujá. O professor que cuidava da gente, o Antonio Carlos Moreira, foi como um pai. Ele colaborou com o meu sustento enquanto morava na favela e deu uma bicicleta para poder ir treinar – antes, eu andava de Conceiçãozinha até o Ginásio Guaibê, eram seis quilômetros a pé. Tive a chance de falar, por telefone, com o Antonio Carlos antes de ele morrer em 2014. Na época, o Zurcaroh havia ganhado seu primeiro título. Comentei para o professor que tudo o que estava acontecendo na minha vida era por causa da inspiração que ele me deu.

Vê com bons olhos o futuro da ginástica brasileira?

O que apresento hoje ao redor do mundo nos espetáculos do Zurcaroh é o que sempre fiz a minha vida inteira. A diferença é que nunca tive no Brasil uma estrutura como a que a Europa me proporciona para poder crescer e desenvolver a equipe. Por mais que tenha participado e me destacado em programas nacionais, como os do Faustão, Silvio Santos e Raul Gil, infelizmente os artistas e ginastas do nosso País carecem de reconhecimento. 

REESTRUTURAÇÃO Qual é a sua meta a partir de agora?

Como o Zurcaroh não pode viajar com frequência, tenho negado vários convites para apresentações internacionais. Vou aproveitar que alguns membros precisarão sair da equipe no próximo semestre e remontar o grupo com atletas que viverão apenas em função dos nossos treinos e da nossa agenda de performances. Estou trabalhando nessa reestruturação com um ex-produtor do Ballet Bolshoi. Os integrantes que vão continuar no Zurcaroh poderão participar dos espetáculos fora da Áustria sempre que estiverem disponíveis para viajar. Para essa equipe renovada, já fechei até um show em Dubai no final do ano.