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Sábado

19 de Outubro de 2019

Fones de ouvido: Perda auditiva nas crianças e adolescentes por causa do acessório é devagar

Nem sempre fica notória a perda da capacidade auditiva, exceto quando já compromete o entendimento das conversas

Com os smartphones cada vez mais presentes no cotidiano de todo mundo, uma preocupação só cresce: será que os fones de ouvido fazem mal à saúde auditiva de crianças e adolescentes? “As lesões que eles podem causar, quando usados de forma abusiva, são maiores do que se pensa. Além disso, essas lesões também valem para os sons altos vindos do ambiente, como baladas, shows, festas etc.”, alerta a otorrinolaringologista Tanit Ganz Sanchez, que explica sobre os fatores que geram problemas auditivos. “Excesso de volume, de tempo e vulnerabilidade individual. Ou pode acontecer tudo junto em uma pessoa”.

Foram realizados exames de ouvido em 170 adolescentes na faixa etária de 11 a 17 anos, matriculados em um colégio particular da cidade de São Paulo. Solicitou-se que fosse respondido um questionário sobre a percepção do zumbido nos ouvidos nos últimos 12 meses e, caso a resposta fosse positiva, com qual intensidade, duração e frequência. “Mais da metade dos adolescentes (54,7%) respondeu que tinha sentido zumbido nos ouvidos no período. Os resultados dos testes revelaram que 28,8% dos adolescentes ouviram zumbido nos ouvidos dentro da cabine acústica em níveis comparados aos de adultos”.

Esse zumbido é causado pela lesão temporária ou definitiva das células ciliadas, localizadas no ouvido interno (cóclea). “Elas alongam e encurtam repetidamente quando estimuladas por vibrações sonoras. Ao serem estimuladas por altos níveis de vibrações sonoras, como os causados por uma explosão, fogos de artifícios, o som alto de um fone de ouvido ou em um show, por exemplo, ficam sobrecarregadas e podem sofrer lesões temporárias ou definitivas. Para compensar a perda de função das células ciliadas lesionadas ou mortas, as regiões vizinhas passam a trabalhar em um ritmo mais acelerado do que o normal, o que dá origem ao zumbido nos ouvidos”, observa Sanchez.

A perda auditiva por fone de ouvido ocorre devagar, por isso, nem sempre as pessoas a percebem, exceto quando já está comprometendo o entendimento das conversas. “O primeiro sinal de que algo não está bem geralmente é esse zumbido percebido nos momentos de silêncio ou incômodo com os sons do dia a dia que não incomodam as outras pessoas. Esses são os sintomas precoces”, ressalta Tanit.

Nesse momento, o ideal seria procurar um otorrinolaringologista para avaliar a saúde auditiva, com exame de audição para ver se há alguma perda (audiometria), zumbido (acufenometria) ou sensibilidade a sons (limiar de desconforto a sons). “Muita gente não vai ao médico com receio de que ele proíba o uso dos fones. Nem sempre isso é necessário, pois o uso com moderação pode ajudar bastante. O importante é fazer um diagnóstico da situação atual e poder monitorar a evolução no futuro, com ou sem tratamento”.

Mas atenção: uma vez que as células auditivas morrem por excesso de ruído, elas não se regeneram mais. A prevenção é a única saída efetiva. “A regra geral é não ultrapassar a metade da potência de cada aparelho (volume), além de evitar duas horas seguidas de uso (tempo). Com esses dois fatores sob controle, resta apenas a vulnerabilidade individual de cada um, que é muito difícil de conhecer e controlar. Além disso, sugerimos buscar produtos de mais qualidade, com abafador de ruído, por exemplo”.

No caso do zumbido já estar instalado, é importante procurar um médico para investigar as possíveis causas, pois outros fatores também podem ocasioná-lo. “Alguns tratamentos são simples e rápidos, outros lentos ou sofisticados. O melhor é personalizar para cada caso, considerando as causas individuais do zumbido e a presença de perda auditiva, incômodo com sons ou tontura”, alerta a médica.

Fone compartilhado

Para quem tem a mania de compartilhar o fone com amigos e familiares, é melhor pensar duas vezes. Segundo Tanit Ganz Sanchez, alguns problemas podem acontecer. “O mais comum é compartilhar a cera do ouvido, que fica aderida ao fone. Nos casos em que uma pessoa está com secreção no ouvido (por otite ou otomicose, por exemplo), os germes podem ser compartilhados. Indica-se boa higiene do fone antes e depois de compartilhá-lo”. Além disso, os fones que entram no canal auditivo, no movimento contrário à saída natural da cera, podem empurrá-la e acabar causando uma obstrução.

Mais dicas

1) Quando for a festas, shows ou bares ruidosos, não tenha vergonha de usar protetores de ouvido e faça intervalos periódicos (a cada uma hora, saia de cinco a dez minutos). Com fones de ouvido, evite ultrapassar a metade da potência do seu aparelho ou usar por mais de duas horas seguidas.

2) Alimente-se bem, de quatro a seis vezes por dia, sem “pular refeição”. Evite excesso de cafeína, doces, álcool e nicotina.

3) Estimule os seus ouvidos com baixo volume de música suave ou outros sons agradáveis.

4) Evite automedicação, pois certos remédios podem causar zumbido e atrapalhar o diagnóstico.

5) Informe-se! O tvzumbido.com.br disponibiliza palestras gratuitas.

E quanto aos bebês?

A cada mil bebês nascidos, três são diagnosticados com algum tipo de problema auditivo. O dado é da Academia Americana de Pediatria. É nos primeiros anos de vida que ocorre o desenvolvimento das habilidades auditivas e de linguagem. Portanto, deve-se ter atenção extra. Uma forma de precaução é realizar o Teste da Orelhinha logo nos primeiros dias de vida. Indolor, gratuito e sem contraindicações, se mostra imprescindível para todos os bebês.

“No teste, o fonoaudiólogo coloca um aparelho de Emissões Otoacústicas Evocadas, que produz estímulos sonoros leves e mede o retorno das estruturas do ouvido interno. O diagnóstico precoce é de extrema importância, pois a criança com deficiência auditiva que recebe intervenção adequada até os 6 meses de idade pode desenvolver a linguagem muito próxima à de uma criança ouvinte”, explica a otorrinolaringologista Milena Costa.

As causas de perda auditiva nos bebês podem variar, indo desde doenças genéticas, infecções virais/ bacterianas, traumas ao uso de alguns medicamentos, entre outras.

Milena afirma que o alerta precisa ser mantido até mesmo na idade escolar, durante e após a alfabetização. “A maioria das crianças não tem surdez profunda, e, sim, graus variáveis de perda auditiva que interferem no aprendizado. Aquele aluno desatento, que não progride na escola, pode não estar escutando bem as explicações do professor. Os pais devem sempre estar alertas, pois, mesmo para as crianças sem indicação de surdez, a intervenção rápida e a prevenção evitam riscos e problemas futuros”, finaliza.

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