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Segunda-feira

21 de Outubro de 2019

Falar mal de empregos anteriores prejudica imagem de candidatos

Especialistas afirmam que é melhor virar a página do que reclamar, detonar, expor intimidades e falhas por nada

Nesses tempos em que o desemprego figura como uma das maiores preocupações dos brasileiros, convém saber que um dos quatro grandes motivos para um candidato ser dispensado no processo seletivo é ficar falando mal do emprego anterior. É inaceitável, assim como mentir no currículo, não se encaixar na cultura da empresa ou demonstrar pouco interesse pela vaga. Esse alerta consta na sétima edição do Índice de Confiança Robert Half (ICRH), que também traz uma boa notícia: de que uma recuperação do mercado de trabalho está próxima de acontecer. 

“Desde 2017, quando lançamos o índice, esse é o melhor resultado de toda a série histórica. Para nós, é um claro indício de que os profissionais estão tendo mais acesso às oportunidades e que as empresas têm interesse em dar andamento a projetos que estavam paralisados em decorrência das incertezas econômicas e políticas do País”, explica Fernando Mantovani, diretor geral da Robert Half, empresa de recrutamento especializado com mais de 300 escritórios e 13.600 colaboradores no mundo. 

Os resultados recentes também apontam para uma disputa dos recrutadores (responsáveis pelo preenchimento das vagas) por profissionais qualificados, com 25 anos ou mais e formação superior. “A recomendação é que as empresas estruturem processos de seleção ágeis, porém completos. Do contrário, há grandes riscos de perderem o candidato escolhido para a concorrência”, avisa.

Diante desse quadro esperançoso, a última coisa que um profissional inteligente deve fazer, não só num processo seletivo como em qualquer ambiente de trabalho, é gastar seu tempo e energia detonando ex-emprego, ex-chefe, colegas que tinha ou mesmo a função que executava... O próprio Robert Half explica qual é a impressão que isso passa: “Falar mal de ex-chefes ou empresas em que já trabalhou pode criar nesse profissional a reputação de antiético ou pouco confiável. Além disso, esse tipo de comportamento sugere que a pessoa é imatura e não faz autocrítica”. 

Talvez você queira perguntar a esse expert: mas como, então, falar do emprego anterior, quando a experiência não foi boa, de uma forma que cause boa impressão e mostre maturidade?

“A recomendação é se preparar antes para a entrevista, escolhendo a melhor forma de explicar alguma experiência negativa. Pode buscar, por exemplo, reforçar os aprendizados”.

Foi assim com a estudante de Pedagogia Fabiana Souza. Ela aceitou estagiar numa escola, pensando que ficaria numa sala de aula, não na administração. Por esse motivo, passados alguns meses, batalhou por uma vaga em outra instituição de ensino.

“Diante da atual coordenadora, não reclamei do estágio anterior. Preferi registrar que tinha outra expectativa, de ficar mais próxima dos alunos e docentes, mas emendei contando que aproveitei para aprender ao máximo sobre a parte administrativa do negócio”. 

Em uma entrevista de emprego, complementa Robert Half, quando perguntarem por que você quer sair do atual trabalho, “pode dizer que tinha problemas com o gestor direto ou que a empresa não atendia às suas perspectivas de desenvolvimento de carreira. Caso tenha sido demitido, sugiro focar nos resultados positivos que alcançou, enquanto esteve no emprego antigo”.

Ninguém quer ser alvo de más línguas

A mais óbvia dúvida que vem à mente de Gisele Irikura, gerente de RH da distribuidora de aços e metais GGD Metals há 11 anos, quando se depara com candidatos falando mal de ex (empresas, colegas, familiares etc.), é esta: quais vínculos o candidato mantém em seus relacionamentos? “Creio que essa dúvida surja na cabeça não apenas de um selecionador, mas de qualquer ser humano. Além de não ser agradável de ouvir, indica que a pessoa tem dificuldade em lidar com outras. E pior: continua sofrendo após a situação ter passado”. 

Sob essa análise, levando para a responsabilidade do RH, Gisela afirma preferir escolher candidatos que possam melhor adaptar-se ao time, com menor risco de relacionamentos conflituosos. “Além disso, é provável que tal comportamento se repita com o emprego atual. Prefiro proteger a minha empresa e o meu time de se tornarem alvo de más línguas”, diz Gisele, que é formada em Psicologia pela Unesp e especializada em Gestão de Pessoas pela ESPM.

E será que é inteligente usar o tempo da entrevista para falar mal de outrem? Cada vez mais, o tempo do selecionador é limitado. “Quando o candidato decide usar minutos preciosos da entrevista para esse tipo de queixa, indica falta de esperteza, inteligência e planejamento, pois isso não agrega nada à avaliação de seu potencial, de suas possibilidades de contribuir com a empresa na qual quer ingressar”.

Qual o foco dessa pessoa? Essa é outra pergunta que vem à mente de Gisele. Ela reforça que, ao falar mal de coisas ou pessoas de seu passado recente, o candidato demonstra estar preso nele, como se olhasse a vida pelo retrovisor. “Seu foco mantém-se no problema, que em seu íntimo não fora solucionado. Com isso, indica que terá comportamentos defensivos e pouca abertura para aprendizados. Só que ter disposição para aprender e adaptar-se a mudanças são habilidades essenciais frente a um mercado tão competitivo; e o foco em resultados, cada vez mais demandado”.

Quando o namoro ou casamento desanda

Todo mundo conhece alguém que desata a falar mal do parceiro amoroso após o término do relacionamento. Entre as muitas razões, há aqueles que alimentam o pensamento de que, “se não vai ficar comigo, não vai ficar com ninguém”; outros tentam se sentir melhor ou superior desmerecendo o outro.

De acordo com o psicólogo Eduardo Yabusaki, pós-graduado em Sexologia pela Faculdade de Medicina do ABC, muitas pessoas têm esse hábito sem pensar que aquele que está ouvindo pode desaprovar ou até mesmo achar despropositada tamanha exposição da intimidade vivida naquele namoro ou casamento. 

“É importante refletir sobre qual a necessidade ou o papel desse tipo de comentário e exposição de si mesmo e do outro. Por mais difícil que tenha sido o término ou a convivência com o(a) ex, vale pensar: em que pode ajudar falar mal do outro ou do relacionamento que viveu?”, indaga o psicólogo e terapeuta de casais, acrescentando que, quase sempre, se conclui que não ajuda em nada. Pior: facilita se ver em situação vexatória, por expor a própria incapacidade de resolver problemas e dificuldades, superar mágoas e ressentimentos. 

Portanto, antes de sair falando mal de ex-amor, avalie qual benefício isso lhe trará. Por vezes, esse tipo de comentário mais depõe contra do que a favor. Sem contar que pode estar faltando maior noção de que, tirando algumas exceções, um romance termina por causa dos dois lados, e não apenas de um. 
“Na minha prática de 30 anos atuando com casais, fica claro que um relacionamento caminha bem quando ambos se esforçam, se dedicam, se empenham. Em outras palavras, é preciso disposição para se alcançar um nível satisfatório de convivência, entendimento, harmonia! Quando as coisas vão mal é porque um ou ambos descuidaram ou permitiram que interferências dificultassem continuar junto”, comenta Eduardo, que discute esse e outros temas no site www.vidadecasalbh.com.br. 

Cuidar, zelar e priorizar o relacionamento deve ser observado sempre pelos protagonistas dessa parceria: “Quando um desliza, o outro, se está atento, ampara para que as coisas não desandem; e vice-versa. Verdade que ninguém é o tempo todo cuidadoso e dedicado para com o outro. Equívocos e divergências vão ocorrer. A questão é não permitir que inevitáveis pisadas de bola evoluam de forma negativa ou destrutiva para a vida a dois”, alerta o psicólogo, que acredita que a maior parte dos relacionamentos acaba por desistência de ambos. “Se deixam que um desgaste vá crescendo, minando a motivação e a crença de que podem mudar e se entenderem de novo, criam um distanciamento que mais parece um abismo, o que dificulta a reaproximação”.

Confira reportagem completa na edição deste domingo (7) de AT Revista.

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