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Sexta-feira

5 de Junho de 2020

Fábio Vasconcellos avalia que a moda enfrenta uma série de desafios no Brasil

CEO da Calvin Klein no País é um entusiasta e consumidor de moda

Apaixonado pelo mundo fashion, Fábio Vasconcellos, de 47 anos, sonhava com as roupas que via nas vitrines na sua adolescência nos anos 90. Era um período de grandes marcas e, assim que pôde, arrumou emprego em uma delas, como estoquista. Formado em Publicidade pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), teve uma passagem rápida pela W/Brasil.

Mas acabou enveredando para a moda, onde fez carreira. Atualmente, é CEO da Calvin Klein no Brasil, empresa na qual está desde 2006. A marca, aliás, acaba de chegar à região, com lojas em duas cidades: uma em Praia Grande, no Litoral Plaza Shopping, outra em Santos, no Praiamar Shopping.

Foi durante a inauguração da unidade santista que conversamos um pouco com Fábio, que tem mestrado em Negócios pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e é pai de duas meninas, uma de 10 e outra de 13 anos. No bate-papo, ele fala sobre o crescimento e as dificuldades do setor e a paixão do brasileiro pelo jeans. “Acho que tem muito a ver com a informalidade do povo. Mas é um fato: a gente adora o jeans”.

Você sempre foi um consumidor de moda?

Sim, desde moleque. Meu poder aquisitivo era limitado, mas sempre prestei muita atenção no que se usava, quais marcas eram bacanas e faziam sucesso. Acho que é importante, pois a maneira como as pessoas se vestem fala um pouco delas.

E como foi que começou a sua trajetória no setor?

Trabalhei em duas empresas: na Fórum, por 13 anos, e agora na Calvin Klein, onde estou desde 2012 e exerço a função de diretor-executivo. Eu comecei no mercado como estoquista da loja Triton da Oscar Freire, em São Paulo, em 1991. Aí, fui crescendo... Virei vendedor, gerente, supervisor de franquia, gerente de franquia. Quando eu estava na Fórum, recebi o convite para integrar o time da Calvin Klein, que estava há três meses no Brasil. Vi ali uma oportunidade de trabalhar em um negócio internacional e abrir os horizontes. 

A Calvin Klein é uma marca mundial, mas no Brasil ganhou algumas especificidades. Gostaria que você falasse mais a respeito dessas diferenças. 

É verdade, ela acabou tendo uma brasilidade muito forte. Nós somos o único escritório do mundo que conta com a própria equipe de design. Infelizmente, o design dos Estados Unidos e da Europa não é tão tropicalizado. Além disso, não temos tantas estações definidas como outras regiões do planeta. Graças a essa característica, conseguimos tropicalizar a marca de acordo com o clima e o shape do brasileiro. E isso é meio único no mundo.

Essa foi uma percepção que teve logo de cara?

Sim, no business plan. Quando participava de reuniões lá fora para ver a coleção, a gente já notava muitas diferenças. Um exemplo: em 2006, os americanos usavam calça com cintura alta. Aqui no Brasil, era o auge da cintura baixa. Se não fizéssemos nada, não iríamos vender jeans. Outra diferença: a marca tem um design minimalista e usa muito branco, preto e cinza. O brasileiro, apesar de gostar, prefere cores mais fortes. E foi preciso adaptar as peças para o nosso mercado.


CHEGADA 

A marca fez 50 anos mundialmente e, no País, 15. Como o brasileiro a recebeu?

Chegamos por aqui em 2005, primeiro com uma loja de underwear. Em novembro do mesmo ano, abrimos a unidade de jeanswear. O brasileiro sempre gostou de grifes internacionais e conseguimos unir uma marca internacional a preços locais. 

Por que investiram em duas unidades de uma só vez no litoral?

A Baixada Santista é uma forte consumidora de moda. Venho para a região há mais de 20 anos e sempre foi uma meta minha trazer a marca para cá. Acredito que a Calvin Klein tenha tudo a ver com praia. Além disso, encontramos um parceiro legal e um projeto forte, então, foi uma decisão fácil. 

Quais são os principais produtos que o brasileiro consome?

O underwear é a principal referência na nossa marca. Principalmente o homem, quando pensa em cueca, pensa em Calvin Klein. O jeans também é bem forte, pois trata-se de uma característica do mercado brasileiro. Aqui, as pessoas são mais informais e o jeans tem um apelo muito forte.

Qual o motivo de gostarmos tanto de calça jeans? Você também curte?

Muito, uso praticamente todos os dias. O brasileiro se veste de uma maneira mais informal do que as pessoas de qualquer parte do mundo. E tem uma outra coisa: o jeans tem uma durabilidade boa, é confortável e combina com tudo. 

As campanhas também são focadas no nosso mercado?

Não, a gente só faz uma campanha internacional, global. Isso é uma guide da marca, mas podemos, sim, interferir em nossos produtos. Muitas campanhas, aliás, são feitas com coisas brasileiras. Até porque nós esbarramos na questão da sazonalidade invertida. Quando está frio nos Estados Unidos e na Europa, é calor no Brasil. Muitas vezes, em uma campanha, isso não ajuda. O que procuramos fazer para equilibrar a situação é apostar em peças mais neutras do ponto de vista climático.

Quem é o seu consumidor?

Predominantemente o público jovem, de 25 a 35 anos. A faixa dos 16 aos 25 é a nossa segunda principal. Também investimos muito no público infantil, criando memórias e vislumbrando um futuro consumidor.

 

MEIO AMBIENTE

Como a marca encara a questão do consumo x a sustentabilidade?

Vou separar essa resposta em dois momentos: existe a Calvin Klein que veio dos Estados Unidos e da Europa, que tem um apelo sustentável, com produtos orgânicos, upcycling e tudo o que existe nesse sentido. No Brasil, temos feito um trabalho para inserir na coleção de produtos ecofriendly. A gente tenta ser sustentável na medida que é possível aqui no País, pois não é algo para o que a indústria está preparada e não há matérias-primas do tipo à disposição. Então, temos, sim, essa preocupação. E 15% dos itens vendidos pela marca estão prejudicando menos o meio ambiente. Mas acho que a essência dessa resposta é outra coisa...

O quê?

A nova geração que está entrando no mercado: os alfas, os zês... Eles já vêm com essa preocupação ambiental. Aprendem na escola a cuidar do ecossistema, a separar o lixo, a tentar comprar menos. A também investir na qualidade e não na quantidade.

De uma forma geral, a moda brasileira se consolidou e passou por grandes e importantes mudanças. Como você enxerga esse processo de evolução?

Acho que essa resposta é um pouco mais abrangente. Quando a gente pensa na abertura dos portos e do mercado internacional no País, é fato que o brasileiro começou a ter mais acesso ao que vem de fora e a moda foi um desses elementos que, aliás, tiveram muita aderência e aceitação no Brasil. A partir daí, houve uma transformação e as referências deixaram de ser só o que se via no País. Acredito que as referências internacionais foram decisivas para o nosso mercado evoluir, inclusive para a entrada de players estrangeiros. Nesse sentido, abriu uma competitividade muito grande, não só de business, mas também da moda em si.

Acha que o Brasil acompanha a tendência de as marcas serem compradas por grupos?

A própria Calvin Klein é do PVH, que ainda tem a Tommy Hilfiger...O País ainda tem muito a crescer nesse sentido quando a gente olha os grandes conglomerados no mundo. Mas é inegável que trata-se de uma realidade de mercado aberto e do mundo moderno. No Brasil, tivemos alguns grupos que tentaram se consolidar, mas realmente ainda possuímos uma mentalidade de dono que é muito enraizada em nossa cultura. Acredito que, nesse sentido, ainda temos espaço para evoluir.

FUTURO 

Quais são os maiores desafios da indústria da moda atualmente? 

Eles são vários: a questão da sustentabilidade, o investimento na infraestrutura, o maquinário... Outro ponto crucial é o da falsificação no Brasil, que é um drama na nossa vida. A gente investe fortunas para tentar coibir. O que é uma pena, afinal a falsificação existe porque alguém está comprando aquilo. Quer dizer: as pessoas querem usar a marca, mas não têm dinheiro e não percebem o mal que fazem ao adquirir essas falsificações. 

Na sua opinião, como seria possível resolver esse problema da falsificação?

Acho que todas as marcas que são falsificadas deveriam se unir cada vez mais contra essa prática. É um problema muito sério. Você tem cidades que são incentivadas a isso, com fábricas empregando pessoas e que só fazem produtos falsificados. E você não sente um movimento para interromper essa cadeia de fornecimento.

Por falar em dificuldades, como vocês enfrentaram a forte crise econômica que assolou o mundo e o Brasil? Quais os próximos passos?

Ela aconteceu e foi difícil atravessar esse período com serenidade. Porém, a marca possui um grupo de rede muito forte, com atuação nos Estados Unidos, na Ásia e na Europa. Ela não surgiu a curto prazo e nossa preocupação é com o longo prazo. A gente não demitiu ninguém e a nossa expectativa, perspectiva, é que o pior ficou para trás e a tendência, melhorar.
 

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