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Segunda-feira

17 de Junho de 2019

Didi Wagner tem a missão de indicar passeios curiosos nos destinos mais diferentes

No programa 'Lugar Incomum', apresentadora mostra ainda o lado mãe e empresária

Didi Wagner é muito mais do que uma pessoa descolada, mente aberta e que ama música e viagens. A apresentadora também gosta de arte, de estudar e pretende se lançar como empresária – recentemente, fez até um curso na Universidade Harvard, nos EUA. Conhecida do grande público pelo tempo em que trabalhou na MTV Brasil e pelo programa de viagens Lugar Incomum, do Multishow – cuja temporada atual mostra passeios bacanas em Israel –, a paulistana de 43 anos ainda dedica parte do seu tempo ao canal, que lançou há pouco mais de um ano, no YouTube. Sem falar que faz o tipo mãezona – ela tem três filhas (Laura, de 15 anos; Luiza, de 13, e Julia, de 10). Na entrevista a seguir, Didi não dá apenas dicas para quem planeja se aventurar pelo mundo. Também relembra o tempo em que morou em Nova York, conta curiosidades das entrevistas que fez com astros da música e da experiência que teve como modelo. 

PROGRAMA

O que motivou a escolha de Israel para a nova temporada do Lugar Incomum?

Eu já havia viajado duas vezes para lá. Como tenho identidade judaica, possuo um vínculo com o país, gosto dele. Acho que uma nação com território tão pequeno como Israel, apesar de ter sido formada de maneira tão polêmica e de ter uma imagem tão comprometida do ponto de vista geopolítico, possui grandes qualidades positivas que a maioria das pessoas desconhece e que merecem ser mostradas.

Pode dar exemplos?

Lá existe um contraste muito interessante entre o passado e a modernidade. Israel foi palco de acontecimentos relevantes para a história da humanidade – fossem eles bíblicos ou não – e isso fica evidente ao andar por suas cidades. Ao mesmo tempo, hoje, o país é reconhecido por ter tecnologia de ponta e inovar. Depois do Vale do Silício, nos Estados Unidos, lá é o lugar do mundo que abriga o maior número de startups. E por mais que muita gente não imagine, Israel é, realmente, uma pequena área democrática no meio de tantos países mais autoritários e fechados do Oriente Médio. Quando falo em democracia, não quer dizer que os israelenses não cometam erros. Ainda assim, é um local onde as pessoas têm liberdade de expressão e as mulheres são reconhecidas. Para completar, Israel reúne paisagens bem distintas e peculiares. Algumas mais inóspitas; outras mais povoadas.

Destaca quais lugares?

O país tem desde o Mar Morto até as Colinas de Golã e o Deserto de Negev, onde fica Makhtesh Ramon, uma das maiores crateras de erosão do planeta, formada por movimentos geológicos, que permite fazer várias atividades, como rapel e safári. Dá para pegar uma praia em Eilat, cidade no sul do país, perto do Egito, banhada pelo Mar Vermelho. Já Tel Aviv, além de maior cidade e maior polo econômico de Israel, também é um destino litorâneo lindo, banhado pelo Mar Mediterrâneo. Lá, fica notória a preocupação com o urbanismo e o uso coletivo dos espaços públicos, por meio, por exemplo, de ciclofaixas. 

PERSPECTIVA

De onde vem a sua paixão por viajar?

Sou filha de uma francesa, nascida em Paris, e de um brasileiro. O meu avô é um imigrante da Romênia. Portanto, já existia na minha cultura familiar o pensamento de que, sempre que possível, temos mais é que conhecer o mundo. Obviamente, não é algo barato, mas meus pais jamais deixaram de valorizar esse tipo de investimento. Fiz muitas viagens bacanas com eles. Hoje, minhas filhas estão tendo a oportunidade de viajar bem mais do que eu na idade delas, porque, de um tempo para cá, há mais facilidades para comprar passagens aéreas, reservar hotéis etc. Tem um meme da internet que acho que resume o que estou querendo dizer: “Viajar é uma das poucas coisas em que você gasta dinheiro e fica mais rico”.

É algo que abre a mente e nos faz não só reconhecer o que existe de bom em outros países como também valorizar determinados aspectos do Brasil, concorda?

Totalmente! Vivi em Nova York (EUA) por quase cinco anos e costumo dizer que, por mais que seja uma das cidades que mais amo no mundo, morar lá não é o mesmo que visitar a turismo. Todo lugar tem seus defeitos e qualidades. Nova York, na minha opinião, é atraente por oferecer atrações culturais variadas e sempre em renovação. Parece que algumas coisas ainda acontecem primeiro lá. Mas nem por isso a cidade deixa de ter, por exemplo, moradores de rua. Apesar de todos os problemas sérios e estruturais do Brasil, gosto muito daqui.

Qual é o seu bairro preferido de Nova York?

Curto demais o West Village. Ele tem ruas pequenas e, ao andar por cada uma delas, você vai encontrar lojinhas e restaurantes legais. É um bairro com um clima meio de cidade pequena. Algo que também superindico é passear sem pressa pelo Central Park, pois, além de gratuito e democrático, é um palco de interações humanas e de apresentações de artistas tentando ganhar um troco. No inverno, há a pista de patinação; no verão, um parque de diversões. Fora o teatro de marionetes.

Imaginava que viajar viraria o seu trabalho?

Não, foi algo que aconteceu por acaso. Quando comecei a fazer o Lugar Incomum, o programa era em São Paulo. Mas eu o transferi para Nova York, porque mudei para lá com a família. O Fred (Wagner, empresário), meu marido, quis tirar um período sabático para testar uma possibilidade de carreira; estava montando uma startup que, para acontecer, era preciso que ele morasse nos Estados Unidos. Como as nossas filhas ainda eram pequenas, resolvemos ir para lá em 2006. Aí, com o tempo, o Lugar Incomum se tornou naturalmente itinerante. Já fiz temporadas em lugares como República Tcheca e Nova Zelândia.

IMPREVISTOS

O que você recomenda para quem está se preparando para cair na estrada?

Uma preocupação que sempre tenho, esteja gravando o programa ou viajando a lazer, é estudar um pouco sobre o lugar para onde vou. Compro guias, procuro ler desde dados mais estatísticos até curiosidades, para chegar lá mais embasada e, a partir disso, construir a minha opinião sobre o local. Algo que aprendi durante as minhas viagens é que as coisas que entre aspas dão errado podem se tornar surpresas bem agradáveis. Me refiro a pequenos imprevistos, como perder um trem e, por causa disso, começar a conversar com alguém que mora na cidade e que acaba indicando um café incrível que você jamais conheceria se não tivesse perdido o trem. O pessoal em casa tira sarro de mim, porque, nas viagens, eu saio com uma check-list de passeios que não podemos deixar de fazer. Só que, de vez em quando, uma dose de improviso no cronograma cai bem.

Teve algum perrengue que foi memorável?

Em julho do ano passado, fui com a família para a Riviera Francesa. Em Saint-Tropez, eu e o Fred pedimos para trocar de quarto, para podermos ficar mais perto das nossas três filhas. O atendente do hotel solicitou que, antes de sairmos para passear, deixássemos as malas fechadas e prontas para serem transferidas para a outra acomodação. Quando voltamos, para nossa surpresa, as malas não estavam no quarto novo e ninguém sabia para onde elas tinham ido. Foi uma dor no estômago, uma angústia! Fiquei pensando que, nas nossas bagagens, havia os passaportes com os vistos americanos da família inteira, a maior parte do nosso dinheiro, o computador... Após uma hora, descobriram que as camareiras, por engano, colocaram as malas na van que ia levar embora hóspedes que haviam feito check-out. As bagagens estavam em Cannes, demorou em torno de oito horas para a gente tê-las de volta. Foi bastante estressante!

VJ

A música também faz parte do seu trabalho há um bom tempo. Curte que tipo de som?

Amo hip hop americano, música brasileira e indie rock. Mantenho uma relação bastante orgânica com o universo musical. Sempre gostei de ouvir música e de ver videoclipes, além de procurar me informar ao máximo sobre a área. Mas não sou crítica, nem tenho entendimento tão aprofundado como muita gente pensa. Estou longe de ser aquela pessoa que sabe os nomes dos discos de um artista e a sequência cronológica dos álbuns. Percebo ondas, consigo sacar talentos que estão surgindo, enfim, capto as coisas de um modo mais geral. Quando fiz entrevista para a MTV, fui super-honesta sobre a minha bagagem musical.

Sente saudade da MTV?

Por mais batida que a palavra gratidão tenha ficado, eu sou imensamente grata à MTV. Foi um período feliz, satisfatório, muito pleno da minha carreira. Me sinto privilegiada por ter trabalhado na emissora numa época em que ela era tão criativa e relevante. Sem contar que tive contato com pessoas incríveis. Muitas delas continuam minhas amigas, como a Marina Person, a Sarah Oliveira, o Cazé (Peçanha), o Edgard (Piccoli) e o João Gordo. Tudo isso faz parte do legado imensurável que a MTV deixou para mim. Mas não gosto de falar em saudade, porque fica nostálgico demais e, na ioga, aprendi que devemos viver o momento presente. Por mais momentos únicos e inesquecíveis que tenha vivido lá atrás, estou muito contente com o que faço hoje.

Entre tantas entrevistas com astros da música, tem alguma que foi bem curiosa?

São diversas histórias... Vou contar uma que aconteceu recentemente, na cobertura do Lollapalooza 2019 para o Multishow. O Lenny Kravitz foi supersolícito, mas ficou muito preocupado com o lugar onde faríamos a entrevista. A princípio, seria na sala montada pela organização do festival, com sofá e adesivos na parede. Porém, a equipe do Lenny Kravitz não curtiu, preferiu mudar para o camarim. Chegando lá, foi a vez de ele achar a luz feia e sair para procurar outro local. Escolheu um espaço com tapadeiras metálicas e, rapidamente, organizaram o lugar, incluindo cases de instrumentos. Ficou bem legal, mais rock´n´roll, vamos dizer assim.

MODA

Antes de se tornar apresentadora, foi modelo?

Sim. Minha mãe já tinha sido modelo. Quando eu estava com uns 16, 17 anos, ela perguntou se queria fazer fotos para tentar entrar em uma agência. Achei graça na ideia e acabei ingressando no casting da Ford Models. Foi nessa época em que conheci muitas pessoas que hoje estão na mídia, entre elas a Luana Piovani, que também foi modelo. 

Teve experiências fora do País?

Não, porque não possuo o apelo necessário para desfilar em passarela, ou seja, não sou tão alta: tenho 1,70m e o padrão é 1,75m. Eu questionava essas exigências de medidas de busto, quadril... Demorou um pouco para o mundo da moda evoluir e se abrir para a diversidade. Afinal, cada pessoa tem seu valor independentemente de ser gorda, magra, alta, baixa... Para completar, eu ainda frequentava um colégio muito puxado de São Paulo e a minha prioridade sempre foram os estudos. Tanto que, se precisasse perder aulas, não aceitava o trabalho. Mas vamos deixar claro que tinha o benefício de poder contar com os meus pais me sustentando. Fiz bons trabalhos como modelo. Fotografei com nomes como Bob Wolfenson e J.R. Duran.

BELEZA

É muito vaidosa?

Me preocupo na medida certa para alguém que lida com a imagem. Mas não sou muito disciplinada para passar cremes, nem me deixo ser refém da demanda por uma beleza máxima, muitas vezes imposta para a mulher. Quero estar bonita com os meus 43 anos, não parecer que tenho 25 (risos). Me cuido pensando primeiro na saúde, depois vem a estética. Costumo correr, fazer ioga e aulas de hip hop.

Teve crise de idade?

Tive não só aos 40 como aos 25 e aos 30, em todas essas idades de virada, que inspiram uma espécie de reflexão. Na minha opinião, isso é saudável. Senão, você vai vivendo sem reconhecer as mudanças e sem enxergar novos horizontes. Como minhas filhas estão com 15, 13 e 10 anos, todo dia sou confrontada pelo fato de elas estarem crescendo e eu, envelhecendo. Mas cada momento da vida tem a sua beleza! Sou uma mãe exigente, rigorosa e, acima de tudo, muito carinhosa. Olha que as minhas meninas estão entrando na fase da aborrecência. Anda cada vez mais complicado para educá-las; de vez em quando, elas me dão uns foras... (risos) 

NEGÓCIOS

Quais são os seus planos daqui para frente?

Pretendo, em paralelo à TV, continuar com o meu canal no YouTube. Ele tem pouco mais de um ano. Admito que entrei meio tarde na plataforma... Por enquanto, estou mais tateando, conhecendo aos poucos como ela funciona e me divertindo, explorando um outro lado meu, pois sou alguém que carrega o DNA da televisão, né? Também tenho pensado em montar um negócio, como a Fernanda Lima, que entrou de sócia em um restaurante. Até agora, não defini em que investir. No ano passado, fiz curso interessante em Harvard, que falava bastante dessa questão empresarial. Além de gostar de estudar, nunca fico sem me colocar algum tipo de desafio.