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Domingo

25 de Agosto de 2019

Diálogo é uma poderosa ferramenta na vida profissional e meio social

Falar e ouvir mais, trocar ideias e discutir vários ângulos de um problema somam pontos na busca pelo sucesso profissional

Quando uma pessoa vai ao médico, a fim de saber o diagnóstico correto dos sintomas que a incomodam, espera ter uma boa conversa inicial. Pois, recentemente, viralizou na internet a história do pai de uma veterinária que resolveu dar um tapa na mesa do cardiologista, para que o especialista interrompesse suas anotações particulares, levantasse os olhos do papel e lhe desse a devida atenção. Até então, aquele senhor, beirando os 70 anos, estava se sentindo invisível. A tática funcionou. O profissional se desculpou, fez as perguntas necessárias, escutou as respostas e deu explicações técnicas numa linguagem para leigos.

Dialogar é essencial para um médico entender a queixa, além de avaliar a influência dos hábitos diários de cada paciente, tanto quanto a ingerência do seu histórico patológico e familiar. Mas também para trabalhar o emocional daquela pessoa em situação vulnerável e de seus familiares, esclarecendo temores, dando esperança, passando confiança. Não por acaso tem se falado bastante no resgate da medicina humanizada, para contrapor à tendência de médicos e pacientes darem lugar a números; exames e diagnósticos se tornarem códigos, e a comunicação perder sua essência. Ou seja, valorizar o humano dentro do jaleco, utilizando a tecnologia como aliada. 

Outras atividades profissionais não ficam atrás. Um advogado de família com boa capacidade de se comunicar acalma seus clientes traídos pelos cônjuges, evitando atitudes impulsivas que só atrapalham o processo de divórcio; e o advogado tributário aconselha empresários a não cometerem fraudes fiscais, explicando em português claro as consequências. Já o mundo das startups abre novas frentes de trabalho para esses bacharéis, mas repare bem no que disse Erik Nybo, professor e cocoordenador do curso Direito em Startups do Insper, em debate dessa instituição promovido em maio de 2018 a respeito do impacto da tecnologia no Direito:

“Os maiores obstáculos que vemos na relação das startups com seus consultores jurídicos são a barreira da linguagem e a dificuldade do advogado para estabelecer uma empatia imediata com seu cliente, que, na maioria das vezes, está tendo a primeira experiência com os serviços advocatícios do empreendedor. É fundamental que o advogado entenda o negócio...”.

“Quem ocupa cargo de liderança em empresa de qualquer porte também precisa gostar de dialogar com suas equipes (lembrando que trocar mensagens por aplicativo está valendo!), para apontar a direção certa, iluminar caminhos, cobrar resultados. Sem essa clareza, como é que os subordinados vão saber o que ele quer, o que não quer e, principalmente, como quer? A velha máxima de que chefe só precisa mandar, pois quem tem juízo vai obedecer, não funciona faz tempo!”, afirma Marcos Mendes, advogado com especialização em Gestão de Negócios pelo Senac São Paulo. 

Marcos comenta que essa necessidade de interação tem feito empresas derrubarem paredes e divisórias para que as várias áreas “se conversem”. Ele cita o exemplo de uma multinacional de análises e informações para decisões de crédito que coloca um colaborador de vendas vizinho de mesa de um do financeiro, que senta ao lado de um do marketing. Ou seja, sem a antiga organização física por departamentos. 

“Diálogo é peça fundamental de qualquer relacionamento. Já imaginou como seria a qualidade das relações num mundo sem comunicação? Deduziríamos e decidiríamos assuntos de outros apenas com base em nossas percepções e conteúdo”, analisa a psicoterapeuta sistêmica Andrea Umbuzeiro, master trainer coach habilitada no Instrumento MBTI I e II, practitioner em Programação Neurolinguística, graduada ainda em Comunicação Social, com MBA em Gestão de Pessoas.

Quem não se comunica...

Já que as pessoas estão estudando mais, para se atualizarem sobre as transformações decorrentes das novas tecnologias, vale a pena incluir em seu pacote de aprendizados e treinamentos a preocupação em melhorar a comunicação. Isso vai muito além de falar a mesma língua do outro. Inclui transmitir e interpretar ideias de forma que consiga passar o que deseja, fazendo-se entender da forma adequada. E mais: eleva sua condição de dar apoio emocional, ouvir as necessidades de seus clientes, desenvolver empatia. Quem se comunica bem consegue se relacionar com diversos públicos e atingir melhor e mais rapidamente seus objetivos. No caso dos médicos, pesquisas mostram que eles elevam em 80% as chances de acertarem nos diagnósticos se estabelecem uma boa conversa inicial. 

No pacote das habilidades sociais

Nos últimos anos, ocorreram muitas mudanças no que se refere aos avanços tecnológicos e à quantidade de dados disponíveis às pessoas, bastando alguns cliques. Isso é muito conhecido pela expressão Big Data. Além disso, os robôs conseguem diagnosticar doenças e preparar contratos jurídicos com maior rapidez e eficiência do que os humanos. Nesse cenário, para se ter sucesso na carreira, saber se comunicar e expressar suas ideias, sensações e sentimentos se tornam vantagens competitivas em relação aos robôs. 

Para quem teme perder seu emprego por causa da evolução das máquinas, pesquisadores do MIT, prestigiada universidade norte-americana que é referência em tecnologia, recomendam investir em três quesitos: aprendizado contínuo, capacidade de resolver problemas complexos e habilidades sociais. Esse último tem a ver com relacionamento interpessoal e trabalho em equipe, ambos favorecidos pelo diálogo, pela comunicação, pelo traquejo social, pela troca de ideias e emoções (de compaixão, por exemplo).

Carlos Baptista, executivo de TI, com mais de 30 anos de experiência trabalhando na área de serviços financeiros em Portugal e no Brasil, reconhece que as funções comoditizáveis, aquelas que de tão comuns e repetitivas podem ser automatizadas, são as que mais serão substituídas pelas novas tecnologias. Por exemplo, dirigir, elaborar contratos, aplicar injeção e realizar cirurgias. “Mas existem habilidades que a máquina não vai conseguir superar e são bastante valorizadas, como a empatia e a criatividade. Nas últimas décadas, fomos conduzidos pela industrialização; e com isso perdemos a habilidade de entender a necessidade do outro. É hora de resgatar isso”, explica Carlos.

O tema é pertinente, posto que a inteligência artificial (IA) está presente e sendo utilizada nos mais diversos setores da vida real, redefinindo o escopo de profissões tradicionais, como Medicina, Direito e Engenharia. Esse mundo em transformação exige que os profissionais melhorem habilidades e competências inerentes aos humanos, as chamadas soft skills, que estão relacionadas à inteligência emocional. Normalmente adquiridas por meio das experiências vivenciadas e do autoconhecimento, são interessantes para qualquer tipo de atuação profissional. 

Cada cliente é único

Os novos modelos de negócio e os avanços tecnológicos, segundo Carlos, fazem com que o trabalho bem feito hoje seja focado totalmente na experiência e nas pessoas, não mais em produtos. “Para que profissões tradicionalmente estáveis se mantenham relevantes, precisam deixar de ser processuais, entender que cada cliente ou paciente tem uma história específica, para poder-se dialogar de modo a fazer com que cada pessoa se sinta única”, detalha esse expert em tecnologia, que é mentor e consultor de negócios e gestor de projetos ágeis na A&B Consultoria e Desenvolvimento Humano.

Cada vez mais, as pessoas vão trabalhar em grupos, integrando várias áreas de conhecimento e visões de mundo, para que ocorra, de fato, diversidade de ideias e inovação... Nessa tendência, o diálogo ganha poder. A grande era da tecnologia na qual já entramos é baseada na integração dos profissionais, e não mais em divisões por funções. De acordo com Carlos, “novas necessidades de mercado exigem que as empresas e os profissionais sejam mais ágeis, e para isso precisam promover relações mais diretas, produtivas e menos burocráticas. Pessoas e empresas que não se preocuparem em abrir espaço para fluir a criatividade e a comunicação, que não olharem para tudo com mais simplicidade e abertura ao diferente, tendem a ter problemas num futuro muito próximo”, alerta o mentor.

Para ser bem compreendido

Andrea chama atenção ainda para que se evite interpretações equivocadas. “A maioria dos diálogos é pautada pelo universo individual de cada um, o que, por si só, dificulta o entendimento e a fluidez. René Descartes, filósofo francês, em sua obra Discurso do Método, observou que ‘...a diversidade de nossas opiniões não provém do fato de serem uns [referindo-se aos homens] mais racionais do que outros, mas somente de conduzirmos nossos pensamentos por vias diversas e não considerarmos as mesmas coisas’”. 

Trocando em miúdos, as pessoas devem falar, expor o que pensam e querem, tendo consciência e responsabilidade sobre como será o entendimento que cada um terá daquilo que estão dizendo. Quanto mais distante for a percepção de um em relação ao outro, maior o risco de interpretações equivocadas – e elas ocorrem aos montes nas conversas por redes sociais e e-mails, em palestras e em reuniões malconduzidas! 

É por isso que a empatia está cada vez mais atrelada à boa comunicação. Ao se colocar no
lugar do outro, fica mais fácil prever como ele entenderá sua mensagem e também a melhor linguagem a utilizar. Diante de adolescentes e jovens, por exemplo, Andrea recomenda aos adultos (pais, professores e líderes) fazerem o exercício de se lembrarem de quando tinham idade similar. “Muitas dificuldades são crenças estabelecidas. Por isso, vale desmistificar que é difícil dialogar com jovens, lembrando-se de que já foi um! Como se sentia? O que esperava que fizessem com e por você? Pode ser que a sua resposta à pergunta de como falar com um jovem já seja instantaneamente respondida assim”, finaliza a psicoterapeuta.

A reportagem completa está na edição deste domingo (10) da AT Revista.