Decoração adequada ajuda no desenvolvimento do autista

Cada paciente é único, mas algumas dicas podem ser valiosas para acertar na arrumação do quarto e contribuir para a segurança e para o desenvolvimento da criança ou jovem com Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Nem pense em cores vibrantes ou papéis de parede infantis cheios de detalhes para o quarto da criança. Esqueça também a coleção de bonequinhos ou a dúzia de miniaturas que o pai ou a mãe idealizavam comprar, para enfeitar o cômodo. E calcule muito bem antes de colocar texturas no chão ou na parede na fase da adolescência.

Parece que todas essas orientações estão ao avesso, mas não. Elas são bastante valiosas para quem vai decorar ou arrumar o quarto de uma criança, adolescente ou jovem com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Gesika Amorim, neuropsiquiatra infantil referência no tratamento de autismo, explica que uma casa comum pode oferecer vários riscos para autistas. Não só de acidentes, mas de piora em transtornos de comportamento. E o quarto é um ambiente essencial, que pode auxiliar ou atrapalhar nisso.

“Porque os autistas têm algumas necessidades básicas, como a rotina. Muitas vezes, a dificuldade sensorial pode desencadear crises, é preciso pensar nisso. O que a família deve é tornar o ambiente, além de confortável, funcional para o desenvolvimento, primando por segurança, neurodesenvolvimento e equilíbrio emocional”. 

Carla Louback, designer de interiores da Cael Decor, descobriu nesse nicho de atuação uma paixão. “Percebi que poderia ajudar famílias a decorar locais apropriados para autistas. E a gente sabe que, para qualquer um, o lar é um lugar onde precisamos nos sentir bem. Para o autista, é mais do que isso. Um quarto bem montado melhora o seu desenvolvimento”, conta ela. 

A primeira experiência de Carla foi reorganizando um espaço na Casa da Esperança, em Cubatão. Conversando com as profissionais que atendem os pacientes, viu que era possível ampliar a área de atendimento, mudando a posição de alguns móveis. “Isso é muito importante para eles, que precisam de um ambiente mais clean”, diz.

Entre as dicas que a designer dá estão a colocação de piso vinílico, que evita barulhos, pois geralmente pessoas com TEA têm uma sensibilidade maior aos sons. E, para criar um ambiente mais interativo, uma parede de atividades, com brincadeiras simples e organizadas. 

Gesika Amorim explica o motivo desses cuidados: “As crianças com TEA, quando submetidas a muito estímulo, se desorganizam e não evoluem. Por exemplo, a maioria dos quartos infantis tem papel de parede, milhões de brinquedos. A criança autista não lida bem com essa quantidade de informações visuais. Há até a tendência de pegar objetos pequenos e ficar enfileirando. É preciso um quarto sem muitas informações. O ideal é que os brinquedos estejam arrumados de forma que consiga alcançá-los, mas sem excesso de informação”.

Gesika acrescenta que tapetes  e outros recursos que ofereçam texturas devem ser estudados antes, com os profissionais que atendem o autista – aliás, o suporte deles é essencial durante toda a elaboração do projeto do cômodo. Pois, na maioria dos casos, o estímulo sensorial contínuo pode desencadear uma crise.

“E a tendência é a pessoa com TEA fugir do espaço quando se sente insegura. Por isso é importante sempre ter uma fechadura segura, assim como remédios escondidos”.

Quartos com TV e ventiladores de teto, nem pensar. Caso contrário, o autista pode focar a atenção nesses objetos, prejudicando o seu desenvolvimento.

Móveis devem ser apenas os essenciais e, se possível, arredondados ou com proteção, para evitar machucados. Por isso, tatames e placas emborrachadas na parede auxiliam em casos mais severos. Atenção também à luz. Equipamentos que ajustam a intensidade da luminosidade são indispensáveis nesse caso.

“Ter uma área de repouso no quarto, com um colchão no chão, também é bem legal. Relaxa e dá segurança”, diz a neuropsiquiatra.

Carla Louback cita que, nem por isso, o quarto precisa ser sem graça ou sem cor. Conhecer o filho para saber suas necessidades e falar com a terapeuta ocupacional e outros profissionais que conhecem o autista é essencial para entender e direcionar ambientes mais propícios ao bem-estar de todos.

“Tem criança que gosta de pisar na grama. É possível colocar um tapetinho no ambiente. Da mesma forma como em todos os quartos, é sempre importante dar ao espaço a cara do dono”, conclui a designer.

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