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Quinta-feira

19 de Setembro de 2019

Daniel Dantas relembra passagens curiosas dos seus mais de 50 anos de carreira

Ator está com duas peças em cartaz em São Paulo e se prepara para voltar à TV

Com seu jeito bem tranquilo e reservado, Daniel Dantas é o tipo de ator que surpreende durante a entrevista, ao comentar, por exemplo, que gosta de ler sobre Mecânica Quântica e que, antes de resolver se profissionalizar, fazia teatro porque era uma forma de, apesar da timidez, ficar mais perto das meninas da escola que achava interessantes. No momento, o carioca de 65 anos encena dois espetáculos no Teatro Raul Cortez, na Capital: O Inoportuno, obra do inglês Harold Pinter em que interpreta um mendigo que, após brigar em um bar, é acolhido pelos irmãos Mick (Well Aguiar) e Ashton (André Junqueira), causando uma verdadeira reviravolta na vida deles; e Crimes Delicados, comédia em que vive a empregada Efigênia, que motiva seus patrões, o casal de classe alta Lila (André Junqueira) e Hugo (Well Aguiar), a tramar o seu assassinato. No bate-papo, Daniel dá detalhes de seus próximos projetos na Globo. Fala ainda das parcerias profissionais com o filho, João Dantas, e a irmã, Andrea Dantas, e de como administra a exposição do seu namoro com a atriz Leticia Sabatella na mídia.

PROJETOS Você está com duas peças em cartaz na Capital. Dá para conciliar tudo numa boa?

Já fiz isso várias vezes, inclusive com papel na televisão. Lembro que em uma época eu estava gravando novela e encenava duas peças no Rio de Janeiro, uma às nove e outra à meia-noite. Houve fase em que conciliei teatro, tevê e cinema tudo ao mesmo tempo. Só quando tenho uma rotina de gravações diárias mais puxadas, como aconteceu em Ciranda de Pedra (2008), que não dá para assumir mais nenhum outro compromisso. Se eu tiver que trabalhar em três, quatro coisas ao mesmo tempo, dou conta. Trabalho é trabalho.

O que mais o motiva a entrar em um projeto?

Algo que pesa muito para definir se vou fazer um trabalho ou não é o quanto me encanto pelo personagem que vou interpretar.

O Inoportuno, por exemplo, além de contar com um texto de qualidade, me interessou bastante por tratar de um tema que, na minha opinião, tem a ver com a realidade atual do Brasil: que é como os oprimidos e desvalidos se alternam fazendo o papel de opressores diante de outros oprimidos. Ou seja, as pessoas ficam trocando as posições de carrasco e vítima. Aqui no País, enquanto uma parcela considerável da população se omitiu, outra parte, que no final das contas será a mais afetada, conseguiu colocar no poder um governo que vai prejudicar quase todo mundo. Nós, no fundo, viramos carrascos uns dos outros.

Tem algo em vista na televisão?

Sim. Vou fazer a segunda temporada de Pais de Primeira. A série teve seis episódios exibidos nas tardes de domingo, entre novembro e dezembro do ano passado. E, como a direção da Globo gostou do resultado, pediu a produção de mais 14, que serão gravados, a princípio, no início de 2020. Pode ser que eles estreiem logo em seguida, pois é muito interessante e bonito ver como a gente trabalha rápido e bem na Globo. As equipes são afinadíssimas, elas fazem as coisas em um ritmo que, em outros lugares, demandaria um tempo maior de trabalho. Eu também estou confirmado no elenco da novela Em Seu Lugar.

O que pode adiantar desse folhetim?

Há comentários de que o meu personagem será bárbaro, mas eu, particularmente, ainda não sei de nada. A novela está sendo escrita pela Lícia Manzo e terá direção do Maurício Farias. A gente deve começar a gravar ainda neste ano (porque a estreia está prevista para o primeiro semestre de 2020, logo após a sucessora de A Dona do Pedaço, que vai se chamar Amor de Mãe).

TRAJETÓRIA Qual é o balanço que faz dos seus mais de 50 anos de carreira?

Por mais que a gente nem sempre goste de perceber, acho que o que mais define a nossa vida é a sorte. Acredito que ela é mais importante do que qualquer outra coisa, e não tenho o menor problema de dizer que dei muita sorte na profissão e na vida pessoal. Gosto bastante da carreira que construí, me orgulho de diversos trabalhos.

Você enveredou pelas Artes Cênicas porque o seu pai também era ator?

Isso certamente contribuiu, mas de um modo mais indireto. Não tive nenhuma grande epifania, nenhum momento em que, de repente, falei: “Caramba, esse é o caminho que devo seguir”. Até acho engraçado quando alguns colegas contam que um dia entraram no teatro ou viram alguém em cena e despertaram para a profissão. Como a minha escola tinha poucos garotos, fui chamado para o grupo de teatro pela Lucia Coelho, uma grande diretora do Rio de teatro infantil, que faleceu há alguns anos. Eu fui ficando na turma, pois era muito tímido e ali estava próximo das meninas que considerava interessantes. Não sou um cara atirado, que chega com facilidade na mulher. Vou devagar, no papo.

E quando teve certeza de que ia ser ator pelo resto da vida?

Foi quando me dei conta de que estava conseguindo viver do teatro e entendi que esse é o lugar onde encontro a minha turma. A partir daí, me tornei um ator profissional mesmo e ingressei no grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone (por onde também passaram nomes como Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães e Evandro Mesquita). Depois, ajudei a fundar o Pessoal do Despertar. Aprendi demais sobre o fazer e o pensar teatro nesses dois grupos. Até então eu era ator meio de brincadeira. O que define muito se você consegue seguir carreira ou não é a forma como lida com o ensaio, com o processo de preparação para um trabalho e o momento chato de esperar para gravar uma cena na tevê. Se você é capaz de suportar tudo isso e continua tendo prazer no que faz, está no caminho certo.

FAMÍLIA Você e a sua irmã, Andrea, começaram a fazer teatro na mesma época?

Não, foram decisões separadas. Aí, com o tempo, eu e a Andrea, que é um pouco mais nova, acabamos trabalhando juntos. Quando montei Macbeth (em 2010), ela foi uma das primeiras pessoas que convidei para o espetáculo (que ainda trazia Renata Sorrah no elenco). A gente tem uma relação muito boa e conversa bastante sobre trabalho. Sempre vou assistir ao que a Andrea está fazendo, ela também não deixa de me prestigiar.

Seu filho, João, mexe com arte?

Ele é um tradutor excepcional. Junto com o Aderbal Freire-Filho, fez a melhor tradução de Macbeth que eu já li – e olha que li praticamente todas que existem. O João realizou mais um trabalho maravilhoso ao traduzir outra peça que montei: Quem Tem Medo de Virginia Wolf? (de 2014, que tinha no elenco Zezé Polessa, ex-mulher de Daniel e mãe de João). O meu filho também já produziu roteiros próprios, ele escreve superbem. Acho que poderia investir mais nisso.

CIÊNCIA Costuma ler muito?

Bastante! Leio um pouco de tudo. Durante um período, eu pegava mais os romances. Depois, fui para a ficção científica hard e, com o tempo, comecei a ler demais livros de Ciência, o que, eventualmente, me levou a buscar obras de Filosofia pura. O que cair na mão eu leio.

Qual área da Ciência mais o fascina?

Ingressei nesse universo pela Matemática e pela Física. E me interesso muito por Mecânica Quântica. Mesmo dentro do teatro, a gente conversa sobre essa maneira diferente de pensar o mundo e que, apesar de datar do início do século 20, ainda não faz parte da percepção da maioria das pessoas. O que também chama a minha atenção é o fato de que a Ciência tem sido atacada no Brasil, pois o conhecimento põe bastante medo em quem está no poder. Tem mais: a Ciência requer que algo seja provado para se tornar válido, só que, no nosso País, cada vez menos se precisa de provas para se fazer uma denúncia.

Já pensou em se aventurar em uma carreira que não fosse a de ator?

Como eu desenhava um pouco e a Arquitetura sempre me fascinou, cheguei a cogitar essa profissão. Para você ter ideia, quando viajo, uma das coisas que mais me interessa nos lugares é a arquitetura de cada cidade. Gosto de ficar analisando os prédios, os museus por fora...

PRIVACIDADE Você está namorando a Leticia Sabatella. Como lida com a exposição da sua vida pessoal na mídia?

Preciso dizer que sempre fui tratado com bastante delicadeza e respeito pela maioria dos meios de comunicação. E mesmo quando alguém me para na rua é para dar parabéns pelo meu trabalho. 

A minha vida pessoal geralmente fica em segundo plano. Quando é inevitável que ela ganhe evidência, sem problema. Se a pessoa que está comigo não se incomoda e leva numa boa uma invasão da nossa intimidade aqui ou ali, que falem o que quiserem da gente. Lembro que, quando comecei a minha carreira, era ainda mais comum a mídia e o público ficarem questionando se determinado ator era gay ou não, atitude, ao meu ver, bem preconceituosa e homofóbica. Descobri que alguns jornalistas ficavam loucos comigo, porque, se eu estava numa relação, me limitava a dizer que estava com uma pessoa. 

E o termo pessoa não dá nenhuma indicação de gênero.

Exatamente. Por causa desse meu costume de falar assim, teve uma vez em que saiu uma matéria com uma insinuação sobre a minha sexualidade. Não quis processar o veículo, pois, na minha opinião, seria o mesmo que assumir que é uma ofensa alguém dizer que você é gay. Não há demérito nisso.

SERVIÇO: A peça O Inoportuno tem sessões sextas (21h30), sábados (21 horas) e domingos (19 horas), com ingressos a R$ 90. Já Crimes Delicados pode ser conferida todos os sábados (18 horas) e domingos (16 horas).

As entradas custam R$ 70. Os dois espetáculos ficam em cartaz até o dia 29 no Teatro Raul Cortez (Rua Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, São Paulo, tel. 11 3254-1631). Vendas pelo www.ingressorapido.com.br.