Cresce procura por aulas de canto na pandemia

Soltar a voz tem sido o caminho para muita gente aliviar o estresse e se divertir

Na música “Sangrando” Gonzaguinha traduz o terapêutico ato de cantar: “Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda que palavra por palavra eis uma pessoa se entregando”.

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O verso carregado de emoção ilustra muito bem o que especialistas da voz e da psique humana explicam sobre o que acontece quando cantamos. A cada nota musical emitida pelas cordas vocais colocamos um pouco de nossas emoções para fora, embalados pela melodia e pelo significado da letra interpretada. As cordas vibram e nós também vibramos, acessando sentimentos represados ou negligenciados.

Desde que a pandemia transformou radicalmente o cotidiano coletivo, as angústias, alegrias, tensões, o amor e outros sentimentos passaram a ressoar com mais frequência nas residências e nas escolas de música, graças à mediação das plataformas digitais de comunicação.

Justamente por conta da necessidade de manter o distanciamento físico, as aulas online de canto se multiplicaram, unindo por meio da música pessoas até mesmo de continentes diferentes. Gente que ao soltar a voz se reconectou consigo mesmo, fez amigos e encontrou um jeito de aliviar os medos que a crise sanitária desencadeou.

Imagine um coral com 800 vozes vindas de todas as partes do Brasil e de dezenas de países diferentes? A pandemia e o empenho do maestro Gabriel Machado tornaram isso possível. Via internet ele promove encontros online dentro do Projeto Oficina Nacional de Canto Coral.

Tudo começou em 2019, quando o maestro voltou de um mestrado em regência de coral nos EUA. Depois de especializações realizadas em vários outros países como Romênia e Japão, Machado percebeu que a educação musical está mais presente no exterior do que no Brasil. O motivo? Poucas oportunidades para as pessoas aprenderem. “Vontade dos brasileiros não falta. Mas lá fora há mais incentivos para orquestras, corais e ensino musical nas escolas. Resolvi fazer algo em relação a isso”.

Nasceram então as oficinas de canto coral. No início elas ocorriam de forma presencial, em Araucária, no Paraná. Com a pandemia, o projeto passou por adaptações e as aulas passaram a ser virtuais. A cada chamada para inscrições o número de interessados surpreendia mais a equipe. No último convite, em janeiro, mais de 10 mil pessoas de 22 países se cadastraram.

As aulas são gratuitas e não é preciso ter técnica alguma. Depois de dicas e orientações, iniciantes e profissionais do canto são desafiados a gravar áudios com trechos de canções, cujas bases e arranjos são refeitos por Gabriel, de forma a permitir que todos possam cantar.

A regência digital se encarrega de unir todas as vozes num só arquivo de vídeo e com múltiplos rostos. O resultado é surpreendente. Além da qualidade artística,

a beleza da iniciativa é evidenciada pelos depoimentos dos participantes e ouvintes. “Recebo histórias emocionantes. As pessoas relatam o poder da música em ajudá-las a superar momentos difíceis”.

Ao ler o lema do projeto - “Por mais canto em todo o canto” -, o engenheiro agrônomo João Luiz Cirilo Wendler encontrou o que buscava. O santista conta que sempre gostou de coral e que nos últimos meses sentiu a necessidade de fazer algo que pudesse ajudá-lo a aliviar a tensão e encarar o clima de apreensão.

Para ele é gratificante ver pessoas de idades, histórias e origens tão diferentes compartilhando os ensinamentos. “Do cantor de chuveiro ao cantor profissional, todos ganham um alimento para a alma, uma maneira de ficar alegre e mudar a chave da mente, deixando um pouco de lado as preocupações com a pandemia”.

Ele acredita que todo o ser humano tem a necessidade de se expressar através da arte para encarar melhor a realidade.

A psicóloga, cantora e musicista Suzany Brandão Almeida concorda com a tese. Ela criou o projeto “Cantarterapia”, que alia saúde mental à música e resgata um benefício inato à prática vocal: a respiração.

É mais simples do que parece. Segundo Suzany, todos nós nascemos sabendo respirar perfeitamente, mas com o tempo desaprendemos. Com a tensão do dia a dia, usamos muito pouco da nossa capacidade respiratória e cerca de um terço do pulmão. Isso acontece porque passamos a jogar toda a tensão para a parte torácica.

“O que mais a gente está precisando agora é respirar. Quem não ficou meio apavorado nessa pandemia? Quando cantamos, começamos a respirar corretamente. Volta aquela respiração de quando éramos bebês. Isso é extremamente relaxante”.

Resgatar, ainda que intuitivamente, a nossa capacidade respiratória maior é um dos benefícios do cantar, mas não o único.

“Ao cantar”, diz Suzany, “trabalhamos os músculos intercostais, que revestem a costela, e também o diafragma, músculo extremamente importante que atravessa o nosso abdome. Também são trabalhados o que chamamos de ressonadores do nosso corpo: seios da face, boca, nariz e garganta. Quando usamos o potencial de caixa de ressonância do corpo, inclusive a caixa craniana, obtemos bem estar. A ressonância massageia o cérebro”.

Yogis e budistas sempre souberam que o ar, ao passar por esses ressonadores do do corpo, provoca o relaxamento e foco necessário para a meditação. Por isso eles entoam som do OM. “É um processo fisiológico mesmo, além de psíquico e espiritual”.

No ano passado, o projeto atendeu virtualmente muito mais pessoas do que nos períodos anteriores. Bom sinal percebido também pela cantora lírica e

professora de canto Bianca Ribeiro, que teve de se reinventar para ministrar muito mais aulas de forma virtual.

O movimento de novos alunos aumentou. “Teve uma onda grande de julho e até outubro de pessoas interessadas em extravasar as tensões cantando, sem objetivo profissional. São alunos que estavam muito dentro de casa e que agora usam esse momento para mudar a rotina e descasar a cabeça”.

Interpretar a música é importante também para vencer a timidez. É uma das propostas do Sarau Online, da escola Blackbird, onde Bianca atua. A plateia virtual reage positivamente e isso aumenta bastante a segurança. Por sua vez, o estímulo para continuar a prática gera o aperfeiçoamento e, consequentemente, ainda mais confiança.

“Tenho uma aluna que fez questão de relatar numa cartinha o quanto as aulas ajudaram a passar por alguns momentos pessoais difíceis na pandemia. Nós, professores, ficamos muito felizes”.

Cantora e professora de canto, Carla Mariani também sentiu maior procura de interessados em canto. Idealizadora do Instituto da Voz Carla Mariani, ela atende remotamente pessoas de diferentes cidades do país. As aulas são individuais e ficam gravadas para que o aluno tenha acesso às explicações e orientações sempre que for estudar. Há um serviço online para tirar dúvidas e os exercícios são personalizados, de acordo com os timbres de voz, perfil de repertório e objetivo do estudante.

“Tenho pessoas no curso que vieram após o isolamento para se distrair e acabaram encontrando uma paixão. Algumas passaram a encarar como uma possibilidade de profissão”, comemora Carla.

Nas aulas por alguns minutos as pessoas esquecem seus problemas pessoais e os dramas do mundo. “Os alunos relatam que se sentem mais motivados. As pessoas passam a vida inteira achando que não são capazes e quando conseguem acertar vibram muito”.

Nelson Martins é um dos estudantes que buscaram o Instituto da Voz para driblar os percalços emocionais decorrentes da crise sanitária. “Sempre tive uma proximidade com arte, mas nunca me senti capaz de cantar. Em abril decidi, sem nenhuma pretensão, postar nas redes sociais alguns vídeos meus cantando”.

A ideia do jovem, morador de Barueri, era acabar com os bloqueios internos sempre que tentava expor sua relação com a música. “Eu só cantava escondido, dentro do meu quarto. Agora vejo na prática que expressar-se artisticamente é uma forma de lidar melhor com a realidade. Sou levado pela música, como num transe. Isso me faz muito bem e me transporta para um outro patamar”.

O que acontece com Nelson, segundo a psicóloga e cantora Suzany, é mais comum do que se imagina. Especialista em psicoterapia cognitiva comportamental, ela ressalta que comportamentos mudam pensamentos e

sentimentos de uma determinada situação de conflito. “Na terapia, a gente propõe comportamentos novos. Cantar pode ser um deles, assim como tocar um instrumento ou dançar, por exemplo”.

Os exercícios de técnica vocal, chamados vocalizes, fazem as pessoas conhecerem a própria voz e perceberem como podem ter uma extensão maior do que achavam que eram capazes. “Isso gera segurança para outras áreas da vida também”, explica.

Paliativo

Os benefícios são variados, mas é preciso entender que quadros reais de depressão e outros transtornos psíquicos não se resolvem de forma simplista, como propõe o ditado popular “quem canta seus males espanta”.

É importante frisar que a terapia através do canto, chamada de cantoterapia, é diferente de uma aula convencional de coral ou canto. Quem faz o alerta é a musicoterapeuta especializada em cantorerapia Juliana Bertelli Bertoncel.

“Depressão é uma questão de saúde mental. Precisa ser tratada. Para quem tem um transtorno cantar ajuda, mas não trata a doença”, adverte.

O mesmo se aplica a uma conversa com amigos. É boa para desabafar, mas não se compara a um atendimento com um psicólogo. “As ferramentas - canto ou conversa -podem até ser as mesmas, mas é essencial uma condução especializada em caso de quadros depressivos”, alerta.

De qualquer modo, ir atrás do que faz bem para a alma não tem contraindicação. Segundo Juliana, muitas pessoas passaram a vida distante delas mesmas. Num movimento de fuga e atendendo expectativas de família, chefe e sociedade, essas pessoas deixam de entrar em contato com o que é importante para elas.

“Com a pandemia, muitos viram a morte de frente, através de conhecidos que chegaram a falecer ou diante da ameaça iminente de contraírem a Covid. Nessa hora reavaliam a vida e perguntam: ‘se eu morrer amanhã, a vida terá valido a pena? Esse movimento das pessoas buscarem o que faz sentido para elas tem aumentado”, avalia.

A musicoterapeuta diz que a música, em especial a cantorerapia, trabalha com o não verbal e ajuda a trazer à tona emoções difíceis de serem expressadas pelo paciente de forma tradicional. “Muitas vezes é uma dor tão profunda que ele não consegue entrar em contato no campo teórico. Com esse tipo de terapia consegue acessar e expressar dor, tristeza, medo ou qualquer outra emoção que o angustia”.

A prática é importante porque só se pode curar aquilo que nos permitimos entrar em contato. “Muitas pessoas, principalmente homens, ficam presos na raiva, que é um mecanismo de proteção usado para evitar o contato com a emoção. A partir do momento em que nos permitimos percorrer esse caminho

começa o processo de cura, ainda que não tenhamos consciência do tamanho da dor”.

Além de conversar com os pacientes, Juliana propõe exercícios sonoros vocais. Muitos choram nas sessões, mas trazem as dores à tona e conseguem elaborá-las. “Entram em contato com aquilo que negam, principalmente os pacientes com padrão de maior de resistência em aceitar as verdades internas”.

Uma vantagem da cantoterapia é que o acesso às emoções contidas ocorre ao mesmo tempo em que elas vão sendo dissolvidas. Isso porque entre a música e a dor, o cérebro escolhe ficar com a música.

A especialista lembra que caminho neurológico de informação do corpo para o cérebro é o mesmo, tanto da dor quanto da expressão musical. “O som ameniza a dor. É um analgésico. Não é toa que gritamos quando damos uma topada com o dedinho. Ao mesmo tempo em que traz à tona o sentimento, o som já dá esse acolhimento. Emitir sons promove a transmutação daquela dor porque o padrão vibracional é um movimento. Tira a pessoa de um estado e leva para outro”.

Para quem quer começar a soltar a voz, uma oportunidade é o Coral da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), que está com inscrições abertas para novos participantes.

As aulas acontecem também em formato online e são abertas à jovens e adultos de toda a Baixada. Os ensaios acontecem às quartas-feiras, às 14h. Em 2021, as atividades começam do próximo dia 24. Inscrições pelo e-mail carla.marcilio@unimes.br

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