Contato com animais domésticos reduz estresse infantil na quarentena

Psicólogos e famílias contam como foi enfrentar o isolamento social da pandemia, com crianças isoladas em casa e que santo remédio encontraram para combater até crises de ansiedade

A pandemia mudou a rotina das famílias. As crianças ganharam mais acesso às telas, muitas passaram a dormir menos, se exercitar pouco e, como se não bastasse, fez com que elas praticamente cessassem o relacionamento social.

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Sem a escola presencial, tiveram uma limitação do exercício das habilidades socioemocionais. Tudo isso contribuiu para o surgimento ou aumento de um sintoma que antes era, quase sempre, coisa de adulto: a ansiedade. Mas, muita gente encontrou um santo remédio de prevenção, em casa: o contato e o cuidado com os animais domésticos. Especialistas e familiares contam como essa proximidade ajudou famílias a passarem pela pandemia sem enlouquecer.

Adriana Drulla, mestre em Psicologia Positiva e especialista em Parentalidade Consciente, diz que uma criança mais ansiosa e ociosa requer mais atenção dos pais. “Mas é claro que as famílias estão sobrecarregadas e nem sempre é possível cuidar da casa, do trabalho, e ao mesmo tempo levar a criança para brincar e correr, cuidar da rotina de sono, limitar o uso das telas. E muitas vezes os pais não estão bem emocionalmente. Acabam sendo mais punitivos com os filhos”, diz, indicando que pets são uma boa estratégia para a quarentena por algumas razões.

Primeiro, porque a convivência com os animais traz diversão e gargalhadas. Segundo, porque são fonte de conexão e conforto emocional. Terceiro, porque a criança pode ficar responsável pelo cuidado do bichinho, descobrindo a sensação do propósito, dando e recebendo cuidado e carinho. 

Quem sentiu o quanto esse contato com animais fez diferença foi Cláudia Duarte, jornalista e mãe da Catharina Duarte Cunha Marajó Dalsecchi, de 13 anos.“Minha filha estava muito isolada. O que ajudou foi minha cachorra Tucha e um coelho que ela pega, cuida e devolve. A gente combinou e ela trouxe emprestado, ficou uns dias em casa e fez companhia”, conta a mãe. “Claro que o coelho é muito mais parado que cachorro, mas é tão legal porque ele a deixou ocupada. Foi quase como um bebê. Ela dava rúcula, o levava para tomar sol...”, Segundo Cláudia, mesmo com o fato de a cachorra já estar com a família há 16 anos, Catharina não deixou Tucha de lado. “Até para estudar, às vezes ela ficava com a Tucha do lado”. 

Os coelhos emprestados para Catharina são de um amigo da família, o Yuri, de 3 anos. Quando Yuri nasceu, sua mãe, Akemi Nakasone Peel Furtado de Oliveira, que é psicóloga, tomou a decisão de deixar os poucos coelhos que a família tinha, procriarem. 

Yuri aprendeu desde cedo como era cuidar da felicidade do outro. (Arquivo Pessoal)

Cuidado e respeito

“Queríamos que o Yuri tivesse, desde cedo, o contato com filhotes. Na prática, para a criança, isso é muito importante. Mesmo antes da pandemia ele adquiriu o cuidado e o respeito com outro ser vivo. Ainda bebê, ele sempre se preocupou em cuidar. Quando via uma criança chorando, ia engatinhando oferecer algum brinquedo, igual fazia com os bichos. Ele já tem a noção de que pode alterar o humor de alguém”. 

Mesmo novo, Yuri ajuda na alimentação dos animais, dá as medicações ao cachorro idoso da casa junto com o pai e, assim, faz da rotina de cuidados, uma forma de aliviar a ansiedade, explica a mãe. 

“Foi a única válvula de escape de ansiedade e de liberação de energia, porque ele corre atrás dos bichinhos. Não tem tempo para pensar em roer a unha, cutucar feridinhas, procurar telas ou ficar estressado”, conta Akemi, indicando também como psicóloga que outras famílias introduzam a vivência com animais, principalmente durante o isolamento social. 

Mãe conta que o comportamento das filhas mudou. Pet ajudou . (Alexsander Ferraz)

Mais proximidade
Tem gente que acha que santo de casa não faz milagre. Que só algo novo anima crianças. Letícia Costa Pinto Kabbach, supervisora de atendimento ao cliente, provou a tese em casa. Mãe da Alice, de 1 ano e 10 meses, e da Maria Clara, de 6 anos, ela viu que a companhia da cachorrinha Luna, além de deixar as crianças mais tranquilas, criou uma intimidade maior entre a família e a integrante de quatro patas.

“No começo da pandemia foi bem difícil. Ansiedade total. A mais velha ficou muito impaciente e fazia coisas que não eram da características dela, como dar respostas atravessadas. Aí, comecei a passear mais vezes com a Luna e levar as meninas comigo. Foi a melhor coisa que fiz. Elas passaram a participar mais da rotina da cachorra, brincam mais e o engraçado é que, mais recentemente, a gente foi viajar e pela primeira vez, levou a Luna com a gente. Tenho certeza que foi contribuição da pandemia”.

Ansiedade
No lar de Márcio Ribeiro Afonso, fisioterapeuta e quiropraxista, um cachorrinho também ajudou, chegando na quarentena para ficar. O pai de Yasmin Santos Afonso, de 6 anos e João Victor Santos de Brito, de 16, se assustou quando a caçula chegou em seu quarto, no meio da noite, reclamando que seu coração estava acelerado. 

“Sou da área da saúde e minha cunhada, também. Então, em casa, sempre falamos sobre coronavírus. E quando eu chego do trabalho, meus filhos não podem me beijar ou abraçar. Vou primeiro tomar banho para depois falar com todos. Inicialmente, não percebemos nenhum sinal de ansiedade neles, até a Yasmin chegar no nosso quarto com taquicardia. Após dois dias seguidos assim, a levei na médica, que disse que isso estava acontecendo com muitas crianças. Era crise de ansiedade”, lembra ele, que recebeu orientação da médica para brincar mais, principalmente para distrair a pequena.

“Porém, trabalhando, era difícil. Então uma paciente minha tinha acabado de cruzar a shitzu dela e nos deu um filhote macho, o Scooby. A Yasmin tinha medo de cachorro e agora não desgruda dele. Nunca mais teve crises de ansiedade”.

Pesquisa comprova
Essa relação maior com os bichinhos não auxilia só na saúde mental de crianças (e adultos), diz Adriana Drulla. 

“Eu gostaria de comentar uma pesquisa muito interessante feita pelo Dr. Sheldon Cohen, um psicólogo e pesquisador na Universidade de Carnegie Mellon, que estuda a relação entre estresse, emoções e bem-estar. Esta pesquisa submeteu 193 voluntários ao rinovírus e descobriu que as pessoas que eram mais positivas, que tinham um humor mais alegre, adoeceram menos quando expostas ao rinovírus do que as pessoas que tinham um humor mais negativo. Quando adoeciam, as pessoas mais positivas tinham menos sintomas e recuperaram mais rapidamente também”, conta ela, afirmando que é bastante possível que o bom humor esteja associado ao fortalecimento e resposta mais efetiva do sistema imune em casos de infecções respiratórias. Então, complementa a psicóloga, animais de estimação e todas as atividades relacionadas ao convívio com eles podem ajudar as crianças a lidarem melhor com as incertezas para passar pela pandemia com mais saúde. 

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