Conheça o Ponto BR, único grupo brasileiro de teatro em Nova York

A companhia vai completar dez anos em 2021 e planeja sua primeira temporada aqui no país

A história da mineira Andressa Furletti, de 42 anos, e da paranaense Debora Balardini, de 49, não só inspira como enche o coração de orgulho e alegria por ver duas brasileiras dando certo no tão disputado show business americano. E o melhor: as produções do Ponto BR – grupo criado por elas, única companhia brasileira de artes cênicas de Nova York – tem como missão principal promover a cultura brasileira nos Estados Unidos.

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Na entrevista a seguir, a dupla não só relembra os desafios enfrentados nos quase dez anos de Ponto BR como detalha o projeto atual do grupo, voltado ao centenário de Clarice Lispector. Andressa e Debora também comentam os planos para a companhia se apresentar pela primeira vez no Brasil e falam do fundo que criaram para ajudar, durante a pandemia, artistas brasileiros que moram na Big Apple.

ORIGEM Como nasceu o Grupo Ponto BR?

Debora Balardini: Moro há 26 anos em Nova York. A Andressa (Furletti) está aqui há 13. Quando nos conhecemos em 2011, por causa de um amigo em comum, as duas já faziam teatro na cidade. A Andressa sempre falava que queria montar um espetáculo em português, com uma pegada brasileira. Então, eu, ela e esse nosso amigo organizamos a leitura de um texto. Ao todo, dez pessoas participaram, entre elas o Thiago Felix, que mais para frente fundou o Ponto BR comigo e com a Andressa. Mas nós tínhamos um certo receio de se isso ia dar certo, nos questionávamos se ia haver público interessado em uma peça de origem brasileira.

Andressa Furletti: Depois desse primeiro encontro, sugeri que a gente deveria pensar em algo para o centenário do Nelson Rodrigues, e começamos a pesquisar, pois havia um edital no Brasil voltado à produção de uma peça dele. Nós, inocentes, achamos que íamos conseguir entrar nesse edital, montar o espetáculo em Nova York e nos apresentarmos tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Isso não rolou, mas ficamos tão apaixonados pelo projeto que decidimos viabilizá-lo mesmo assim, apenas com sessões em Nova York.

Que texto vocês escolheram?

Debora: A Serpente. Fizemos cinco apresentações em 2012, num final de semana. A gente não esperava que seria um sucesso, com fila na porta do teatro. Tivemos de mandar algumas pessoas de volta para casa, porque estava lotado, havíamos atingido o limite do lugar. Produzimos tudo de forma superindependente, com dinheiro do nosso bolso e de uma campanha de crowdfunding. Por causa da boa recepção do espetáculo, eu, a Andressa e o Thiago resolvemos criar o Grupo Ponto BR e passamos a pensar qual seria o nosso próximo projeto. Ainda recebemos a proposta de um investidor, interessado em injetar US$ 500 mil na companhia. Foi assim que nasceu a peça Infinito Enquanto Dure, baseada na vida e obra do Vinicius de Moraes e voltada ao centenário dele. Só que nos vimos em duas frias. Primeiro, o investidor simplesmente desapareceu, não deu o dinheiro que havia prometido e decidimos que não iríamos desistir do projeto. Segundo, dez dias antes da estreia, perdemos o lugar em que iríamos nos apresentar.

Andressa: Com isso, aprendemos a duríssima lição de que não se deve fazer nada sem ter um contrato assinado. Íamos apresentar a peça em um loft, pois queríamos um local em que pudéssemos servir bebida e comida, para aumentar a imersão do público no universo do Vinicius de Moraes – já que iríamos transformar o loft na casa dele. Numa madrugada de sexta-feira, eu e uma colega de elenco fomos a todos os bares de Nova York que podíamos imaginar, perguntando se algum deles aceitaria receber o nosso espetáculo. O pessoal do Nublu amou a ideia – um dos donos do bar é uma brasileira e eles costumam ter programação de música brasileira. Conforme o público chegava para a sessão, se deparava com pão de queijo, coxinha, bolinha de queijo, cerveja e uma banda tocando bossa nova. Na peça, contávamos as histórias de amor vividas pelo Vinicius de Moraes; ele se casou nove vezes.

MISSÃO Era tudo em português?

Andressa: Em A Serpente, nosso primeiro espetáculo, as cenas eram todas em português. Como as sessões aconteceram em um teatro convencional, projetávamos as legendas em inglês, igual ocorre, por exemplo, numa ópera estrangeira que vem fazer temporada nos EUA. Agora, no Infinito Enquanto Dure, o espaço do bar dificultava um pouco a projeção das legendas. Por isso, tivemos de fazer a maior parte da peça em português e algumas intervenções em inglês. Também projetamos poesias do Vinicius nas paredes do Nublu.

O público de vocês é formado apenas por brasileiros?

Debora: No início, o nosso público era composto basicamente por brasileiros. Hoje, ele está cada vez mais misturado. Já tivemos até franceses e italianos na plateia. A missão do Grupo Ponto BR é justamente essa: promover a cultura brasileira nos Estados Unidos, através das artes cênicas. Acabamos fazendo duas temporadas do espetáculo dedicado ao Vinicius de Moraes: uma em 2013 e a outra em 2014; ainda concorremos a um prêmio por essa montagem.

O que aconteceu logo na sequência?

Debora: O Thiago Felix precisou sair da companhia, para focar nas aulas que ele dá em Nova York, e ficamos somente eu e a Andressa à frente do grupo. Começamos a ler tudo o que caía nas nossas mãos, até que decidimos que a nossa próxima produção seria inspirada na obra da Clarice Lispector. Isso foi em fevereiro de 2015. Curiosamente, em agosto, o The New York Times publicou a lista dos melhores livros do ano e entre eles estava uma coletânea dos contos da Clarice traduzidos para o inglês. Eu e a Andressa quase morremos, pois não havia momento mais propício para a nossa peça do que aquele. Estreamos meses depois, em 2016.

Andressa: Desde a fase de pesquisa para o projeto, colocamos na cabeça que o espetáculo deveria ser imersivo, dentro de uma casa, aonde tudo ocorreria ao mesmo tempo. Porque a Clarice escrevia muito em casa. Mas conseguimos apenas um galpão para fazer a peça e adaptamos o local. O espetáculo se chamou Dentro do Coração Selvagem e reunia os personagens principais dos nove romances e dos sete contos da Clarice.

Como a produção foi recebida pelos americanos?

Debora: Ela nos aproximou ainda mais deles. Aí, em 2017, como vimos que Dentro do Coração Selvagem ainda daria um caldo, resolvemos remontar a peça, que voltou a ficar em cartaz em 2018, aí sim em uma casa, de três andares.

Andressa: Nossos espetáculos costumam ser completamente abertos, nada lineares. Há coisas acontecendo em todos os ambientes, o tempo inteiro. Você recebe um mapa quando chega ao lugar e escolhe o que vai ver e se vai interagir com os atores ou não.

PANDEMIA E agora vocês estão com uma extensa programação voltada ao centenário de Clarice Lispector?

Andressa: Exatamente. Mas, quando montamos Dentro do Coração Selvagem lá em 2018, nem pensávamos nisso. Apenas depois, conforme fomos lendo mais biografias da Clarice que percebemos que ela faria 100 anos em 2020.

Debora: Começamos a desenvolver esse projeto do centenário em 2019, para estrear no segundo semestre deste ano. Mas aí veio a pandemia e tivemos de adaptar todos os planos. O nosso ponto de partida passou a ser, então, o Happy Hour Online, série de encontros virtuais em que fazemos leituras dos textos da Clarice Lispector, seguidas de bate-papos sobre a obra dela. Esses eventos digitais – sempre na quarta-feira, às 19 horas – iam durar a princípio de março a agosto, mas o público gostou tanto que pediu para que estendêssemos a temporada. Tiramos o mês de setembro para nos reorganizar e retomamos as transmissões em outubro.

Elas vão até quando?

Debora: O Happy Hour Online vai acontecer até 9 de dezembro, data da morte da Clarice. Aí, em 10 de dezembro, vamos fazer o que chamamos de Dia de Clarice, porque é quando ela completaria 100 anos de idade. Antes disso, na próxima sexta-feira, às 21 horas, vamos iniciar uma temporada virtual da peça Dentro do Coração Selvagem, utilizando uma plataforma que permite experiência, entre aspas, imersiva. As sessões seguintes do espetáculo vão rolar aos sábados e domingos, às 15 e às 21 horas, até 20 de dezembro.

Andressa: Já a programação do Dia de Clarice vai começar na madrugada de 10 de dezembro. Estão previstas lives, painéis, exibições de curtas... Vamos fechar o cronograma com uma festa de aniversário virtual. Todos os detalhes podem ser conferidos no nosso site. Em paralelo, estamos em fase de negociações para trazer Dentro do Coração Selvagem para o Brasil, no segundo semestre de 2021.

Será a primeira vez em que o grupo vai se apresentar por aqui?

Debora: Sim. Queremos muito mostrar o nosso trabalho no Brasil. Estamos com uma saudade! A ideia é que nos apresentemos, pelo menos, em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, que foi onde a Clarice cresceu. Acho importante também dizer que, nestes quase dez anos de Ponto BR, como nosso objetivo é promover a cultura brasileira nos EUA, acabamos não nos limitando aos espetáculos. Temos promovido, por exemplo, festas temáticas em Nova York, como a de São João e a de Carnaval, que atrai cerca de 600 pessoas e ocorre logo após oficinas de dança gratuitas que oferecemos para o público se preparar para a folia.

Andressa: Também promovemos workshops de interpretação e de consciência corporal. E fazemos um brunch de pão de queijo, na minha casa. Fomos criando um laço forte com a comunidade brasileira de Nova York. Além de amizades e parcerias profissionais, nossos eventos já renderam casais e até filhos, e estimularam pessoas a criarem mais projetos ligados à cultura brasileira. Com a pandemia, a gente ainda montou o NY Brazilian Artists Funds, fundo para ajudar artistas brasileiros que moram na cidade, pois uma parte deles, mesmo estando em situação regular com a imigração, por causa do tipo de visto que possui, não teve direito ao auxílio oferecido pelo governo dos EUA. De uma hora para outra, esses artistas perderam toda a sua renda.

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