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Sexta-feira

22 de Novembro de 2019

Calmo e sereno, Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos Pepetela esconde trajetória de lutas

O angolano é um dos principais escritores lusófonos. Ele fala de sua relação com o Brasil, de Angola e, claro, de literatura

O escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos tem uma voz que é tão baixa que muitas vezes parece estar a sussurrar. O jeito calmo e sereno, no entanto, esconde uma trajetória de lutas. No sentido literal da palavra. Na década de 60 e 70 participou do Movimento de Libertação de Angola que queria o fim da colonização portuguesa, o que acabou acontecendo em 1972. Chegou a ser vice-ministro da Educação na década de 80, mas depois seguiu pelo caminho da literatura. Pepetela, como é conhecido, é um dos principais autores lusófonos do mundo, inclusive no Brasil, onde é leitura obrigatória da Fuvest, por exemplo. Aos 77 anos, esteve em Santos, recentemente, na livraria Realejo, para autografar duas de suas novas obras: O Cão e os Caluandas e O Quase Fim do Mundo (Kapulana Editora). Na entrevista, ela fala um pouco da sua história, de livros, do Brasil e da África.

JUVENTUDE O Brasil é um bom leitor de suas obras? 

Em relação aos leitores brasileiros eu creio que neste momentos são mais jovens e que me leem por causa da Fuvest, já que o Myombe é um dos livros de leitura obrigatória para o vestibular. Também agora na Universidade de São Paulo, o Cão e os Caluandas, está na disciplina de Literatura Africana de Língua Portuguesa. Penso que meu público de leitor seja estudante e jovem, o que é bom. 

E o que o tem lido de autores brasileiros?

Tenho seguido pouco a atual literatura brasileira. Mas há autores que gosto, como o Fuchs (Rolian), que conheci aqui em Santos. Fizemos juntos uma mesa na Tarrafa Literária há três anos. Fica um pouco difícil de seguir tudo, mas isso não significa que não leio o que me enviam. Mas, às vezes, a gente perde de vista o autor, ele deixou de publicar... Agora eu entrei em maluquice de reler livros que li há 40, 50 anos...

Quais? E qual a impressão que teve nessa nova leitura?

Estou a reler alguns, como a Montanha Mágica, de Thomas Mann, Gabriela Cravo e Canela e Terras do Sem Fim, de Jorge Amado. Já não vou reler Capitães de Areia porque este já reli 20 anos atrás (risos). É muito interessante fazer isso porque vira algo completamente diferente. Montanha Mágica, por exemplo, li quando tinha  17 anos e não gostei, mas como nunca interrompi uma leitura, fui até o fim. Agora, ao reler, foi um prazer e pensei: como fiquei tanto tempo com uma má opinião? É um livro importante, obviamente, mas não era interessante. Já Gabriela, gostei mais da primeira leitura. 

INÍCIO Seu primeiro livro, As Aventuras de Ngunga, foi escrito durante a luta anticolonial, em 1972, e publicado um ano depois, em forma mimeografada. É verdade que o objetivo inicial da obra era de servir também como uma cartilha para a alfabetização das pessoas? 

Não era uma cartilha para a alfabetização, pois já havia livros escolares. Eram textos para que as pessoas, não só alunos, mas guerrilheiros, jovens que tivessem na região de guerra pudessem ter uma leitura, além dos textos políticos que circulavam. E o objetivo era ser escrito em português e traduzido para a língua local e ser publicado em forma de folheto. No fim de dois ou três textos foi crescendo para uma história. E acabou por sair, realmente, um livro. No momento que quiseram lançar, pelas condições difíceis, foi feito só em português e realmente em mimeógrafo. Foi a primeira edição. No ano seguinte, com o fim da guerra e acordo de paz, os textos foram uma revista de Luanda. Depois, saiu em forma de livro.

A que atribui o sucesso da obra?

Acredito que pessoas estavam ávidas por conhecer a literatura angolana que quase não existia. Além disso, havia o interesse pela luta e é um livro feito justamente durante a luta. Muita gente diz que o primeiro livro que leu foi As Aventuras de Ngunga e não são necessariamente pessoas jovens (risos).

IDENTIDADES O que Brasil e Angola têm em comum?

Temos muitas coisas muito diferentes e tantas outras em parecidas. Temos um Atlântico, que poderia ser um rio a separar os dois. Fomos colonizados pela mesma potência colonial na época. As diferenças fundamentalmente entre os dois é que o Brasil esteve mais aberto ao mundo. Embora Angola continue a receber pessoas de países mais ao norte do continente. Há uma imigração já de milênios. Às vezes, essas fronteiras fecham por causa das guerras. Mas penso que Angola foi muito importante em participar desse processo de pacificação com algum sucesso, pois talvez este seja o melhor período em África em termos de guerra. Embora haja um fenômeno novo em algumas regiões com o crescimento do terrorismo. Inclusive, com ligação com organizações como a Al-Qaeda, que começa a se manifestar com violência e muita dificuldade para conter.

Quais outras lutas precisam ser travadas em Angola?

A primeira é continuar essa luta contra a corrupção. Essa tentativa apressada de criação de uma burguesia, há também uma certa tendência ultraliberalista na economia, que é global e lá se manifesta claramente. Querem privatizar tudo. Vai ser mais difícil do que pensam, pois não é tão fácil fazer isto. Precisamos, fundamentalmente, aumentar a justiça social. Diminuir o fosso que há entre os muitos ricos, que enriqueceram ilegalmente, que é isso que o João Lourenço, o novo presidente, está a tentar fazer, até agora com pouco sucesso. Pela primeira vez na história, em Angola, um ministro foi para a cadeia, depois de 43 anos de independência. Um dos problemas que existe lá é que o Ministério Público não tem experiência nenhuma em combater a corrupção, crimes financeiros. Nunca se fez e não havia esse tipo de processo. A pouca experiência faz com que os processos sejam mal feitos. Os deslizes seguem mais ou menos acusação. Mas as pessoas ficam com dúvidas.

O senhor foi vice-ministro da Educação em seu País. Como o senhor acompanha a questão do corte de recursos em educação no Brasil? Como é em Angola?

Um país que quer competir com outros no campo das novas tecnologias, tem que formar as pessoas. Uma diminuição dessas vai significar um atraso daqui a alguns anos. Isso é claro.

Em Angola, acontece assim também. A educação privada é para a elite até a universidade. Quando chega lá, querem ir para a universidade pública. Há essa tendência da elite de ter os filhos em colégios privados. E são extremamente caros.

O senhor tem acompanhado o que acontece no Brasil atualmente ? O que tem achado? E as pessoas em seu país?

Eu tenho acompanhado, mas acho que o meu país não. Há poucas notícias lá sobre isso. Eu tenho meus meios de ter informação e tenho acompanhado com preocupação. Mas acho que os altos e baixos na vida dos povos são sempre temporários, tanto os altos quanto os baixos. É temporário. É preciso resistir tranquilamente porque a onda vai mudar

 

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