Bancária conta como conseguiu eliminar 15 quilos

Em cinco meses, ela saiu do manequim 48 e foi para o 44, garantindo mais saúde e qualidade de vida

Na lista dos múltiplos impactos que a pandemia da covid-19 <trouxe para a maioria das pessoas lá estão eles: os indesejados quilos extras. A mesma ansiedade que fez com que muitos comessem mais no período de isolamento social, agora se manifesta na decisão de correr atrás do prejuízo e diminuir os números na balança. Nessa hora, as dietas radicais surgem como solução, mas escondem perigosas armadilhas.  

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Nas propagandas do Instagram e do Facebook, elas prometem redução expressiva de peso de forma rápida. O que não se comenta é a que custo para a saúde física e mental. “A verdade é que as pessoas levaram dez meses para engordar e Agora querem perder tudo em um ou dois meses”, resume a nutricionista Camila Simões, especialista em emagrecimento com qualidade e em nutrição para gestantes, que conta que tem recebido em seu consultório pessoas que chegaram a ganhar até 20 quilos durante a quarentena.  

O tempo ocioso, o medo do amanhã, o acesso mais fácil à comida em casa e o sedentarismo são alguns fatores presentes na vida em tempos de pandemia, pontua Angélica Croccia, especialista em nutrição clínica e responsável pelo Programa de Medicina Preventiva da Santa Casa.  

O “novo normal” nos exige encarar uma nova imagem no espelho? Pode ser. Mas tentar mudá-la recorrendo às dietas restritivas ao extremo é tentar ludibriar o corpo, que é inteligente e se adapta às novas condições, fazendo reservas de energia, o que acaba impactando negativamente no metabolismo.  

O nosso organismo gasta cerca de 1.600 calorias apenas para manter os nossos órgãos funcionando. Por isso, uma dieta que reduza a quantidade de calorias para menos do que o corpo precisa para funcionar normalmente não é só arriscado... É ineficiente. “A perda até pode acontecer no começo, mas o emagrecimento não será consistente, pois o metabolismo ficará mais lento para economizar energia”, explica Camila. 

Assim, o chamado efeito rebote ou sanfona entra em cena, gerando mais frustração e mais desânimo. A vontade não saciada de caber novamente nas roupas abre, então, espaço para a baixa autoestima, em um caminho que pode até culminar em uma depressão ou em transtornos alimentares.  

Não existe milagre 

Angélica Croccia observa: não há receita mágica. Ela lembra que sucesso é manter a meta e as conquistas alcançadas com saúde. “As dietas da moda não trazem aprendizado e conscientização. O foco deve ser a mudança comportamental. Se não existir rotina alimentar, constância e aprendizado, o emagrecimento não será saudável e efetivo”. 

Não se trata de um processo apenas fisiológico, mas também mental, de conscientização de que cada indivíduo é único. “As pessoas têm características distintas, vidas diferentes. Quem possui algum tipo de comorbidade não pode se submeter a uma dieta restritiva padrão”, complementa a nutricionista Camila Simões.

Caso de sucesso 

Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 96 milhões de brasileiros têm sobrepeso. A bancária Bianca Simões Russo, de 38 anos, estava nesse grupo e precisou enfrentar a balança para ter mais saúde, perdendo 15 quilos no prazo de apenas cinco meses. 

Em 2018, ela foi diagnosticada com uma alteração no fígado e princípio de cirrose. Louca por fast-food e por doces, havia tentado, sem sucesso, fazer várias dietas, incluindo a Dukan e a do chá verde. O que ela não sabia é que essa última estava agravando o seu problema no fígado, de modo que provocou uma hepatite. 

Assustada com a situação, Bianca tratou de procurar a ajuda de endocrinologistas e gastroenterologistas, que recomendaram uma dieta padrão. “Não era algo que pensava para mim. Foi por isso que eu desisti”.  

Um tempo depois, mais exatamente na metade do ano passado, já durante a pandemia, ela se consultou com a nutricionista Camila Simões e teve acesso a uma reeducação alimentar personalizada, sem os sacrifícios exigidos por outras dietas.  

Para atingir os seus objetivos, cortou o fast-food do cardápio, diminuiu a ingestão de doces e começou a preparar as próprias refeições, mudando a relação que mantinha com os alimentos. “Eu era uma pessoa extremamente ansiosa e acabava descontando na comida. Hoje, sou mais decidida.  Sei quanto e o que devo comer”. 

Além da mudança alimentar, Bianca passou a caminhar de 40 minutos a uma hora por dia. Antes, trajetos curtos como de casa até a padaria eram feitos de carro. Hoje, deixa o veículo na garagem  e prefere fazer tudo a pé. 

O manequim 48 virou 44 e 15 quilos se foram no prazo de cinco meses. “Eu tenho 1,70m, estava com 109 quilos. A minha meta é perder mais 15 quilos”, acrescenta a bancária, que viu o seu sucesso contagiar a família e os colegas de trabalho.  

De olho nos riscos  

Ricardo Seixas, médico nutrólogo e mestre em Ciências, explica que quando se fala em dietas radicais é preciso entender que elas podem ser restritivas em termos energéticos ou nutricionais. Detalhe: as mais comuns focam na perda energética. São as chamadas dietas hipocalóricas, que adotam cardápios com cerca de 800, 1.000 ou 1.200 calorias. “Hoje, essa alternativa está sendo abandonada pela nutrologia”, reforça o médico. 

Já as dietas low carb visam suprir a redução de carboidratos. “Isso emagrece? Sim, mas quais são os riscos?”, pergunta Seixas. Ele mesmo responde ao questionamento, citando um estudo científico da Universidade Médica de Lodz, na Polônia, apresentado em 2018, no Congresso Europeu de Cardiologia. Nesse levantamento, o médico Maciej Banach mostrou que as dietas nobres em carboidratos podem aumentar as chances de a pessoa ter problemas que, dependendo do caso, levam à morte – como doenças coronarianas, acidente vascular cerebral (AVC) e algum tipo de câncer. 

“Mais de 24 mil pacientes foram avaliados por mais de seis anos. Foi um estudo horizontal, o que demanda tempo. O autor observou que as pessoas que limitam o consumo de carboidratos possuem 51% mais chances de ter doenças coronarianas, 50% mais chances de desenvolver patologias vasculares e no cérebro e são 35% mais propensas ao câncer”. Isso ocorre porque nessas dietas normalmente são implementadas gorduras que costumam se mostrar cancerígenas.  

Ricardo Seixas ressalta que o estudo deixou a sociedade médica perplexa. Por isso partiu-se para uma metanálise, que é o que há de mais confiável em termos de evidência científica. Mais de 440 mil  

pacientes participaram no novo estudo. As mesmas tendências foram mantidas, porém com uma diminuição da proporcionalidade para 15%, 13% e 8%, respectivamente.  

“Com isso, entendeu-se que o risco é alto a médio e longo prazos, especialmente para idosos e pessoas sedentárias. São muitas nuances para se avaliar”, pondera o médico. Isso não quer dizer que não há benefícios em fazer uma restrição nos carboidratos, mas esse tipo de dieta deve ser de curto prazo e com acompanhamento de um profissional que saiba muito bem modular as condições e o tempo desse processo. 

Respeite o seu café da manhã. 

Outro recurso que pode ser radical demais são os jejuns intermitentes. Segundo o nutrólogo, não há um estudo com número suficiente de pacientes para dizer com certeza científica se esse tipo de dieta faz bem ou mal. 

Quando se trata dos jejuns, muitas pessoas costumam citar de forma leviana o trabalho do médico Yoshinori Ohsumi, que ganhou o prêmio Nobel de Medicina em 2016. “A verdade é que ele nunca disse em seus estudos que essa alternativa é indicada como dieta”, afirma Ricardo Seixas, lembrando que ainda não existe um consenso de como aplicar o jejum intermitente. Há quem faça o de 14 horas ou o de 16 horas. Outros conseguem ficar sem comer por 18 horas e existe até aqueles que ficam o dia inteiro de jejum.  

O que se sabe, com certeza, é o que todas as sociedades de Cardiologia do mundo recomendam: as pessoas não devem abrir mão do café da manhã. “As pesquisas mostram que pular essa refeição aumenta os riscos de desenvolver doenças coronarianas”.  

O médico ainda salienta que fazer jejum acima de 16 horas gera a diminuição da liberação do hormônio produzido pelo hipotálamo, o TRH. Por sua vez, isso faz com que a tireoide produza outros hormônios de forma insuficiente. Com isso, a pessoa se sente mais cansada e irritada.  

Equilíbrio é o segredo 

Outra alteração que pode ser causada pelas privações severas de alimentos é o desequilíbrio na produção dos hormônios AGRP e NPY, ligados diretamente à sensação de fome. Isso pode levar a pessoa a comer muito mais depois. 

De forma geral, nosso organismo tenta manter um equilíbrio interno, chamado pela Medicina de homeostase. Alpinistas usados como exemplo por Ricardo Seixas ilustram bem esse mecanismo: “Quem vai para o Everest precisa respirar o dobro, por conta da menor quantidade de oxigênio.  

O organismo responde com a falta de ar justamente para compensar. Quando suprimimos a energia necessária para o corpo, ele diminui o gasto como mecanismo compensatório, armazenando mais energia e, ao mesmo tempo, causando uma sensação de cansaço e de menor disposição”.  

E não é só isso. A termogênese, que é a capacidade do corpo de queimar gordura, é reduzida. Outros impactos menos graves das dietas muito restritivas são dores de cabeça, queda de cabelo, irritabilidade e, nas mulheres, até mudanças no ciclo menstrual. “A maioria das cefaleias e enxaquecas é causada por hipoglicemia”, alerta Seixas. 

Dietas que priorizam certos grupos alimentares, como a das frutas e a da proteína, também inspiram cuidados. Isso porque os grupos alimentares são divididos a partir de itens que possuem a mesma base nutricional. “Quando comemos só frutas, ingerimos determinados nutrientes inerentes a esse grupo e perdemos os presentes apenas na carne, nos grãos, nas hortaliças...  

O nosso organismo depende de vários tipos de nutrientes para exercer funções específicas”, ressalta o nutrólogo. No final, a palavra-chave é mesmo equilíbrio. “Não tem jeito: o sucesso de um projeto de reeducação alimentar está também na cabeça, não apenas no prato”, finaliza Camila Simões.  

E não precisamos nos anular em meio a um contexto social que normalmente inclui férias, confraternizações etc. Podemos nos permitir, de vez em quando, consumir coisas que não comemos todos os dias, sem radicalismos ou extremismos. Ser permissivos, nunca compulsivos. 

 

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