Ator Paulo Betti conta o que tem feito durante o isolamento

O ator faz lives, é ativo na rede social e encenou sua peça remotamente

Diz o ditado que quando a vida te der limões, você deve fazer uma limonada. Aos 68 anos, 45 de carreira, Paulo Betti arregaçou as mangas e fez caipirinha, torta, musse... Não, o ator não se aventurou na área da gastronomia, mas durante o isolamento foi obrigado, como ele mesmo disse, “a respirar por aparelhos”. Participou de lives, levou o espetáculo que estava em cartaz, quando começou o isolamento, para uma temporada remota, escreveu, fez vídeos para a rede social... não parou e encarou o período com seriedade e leveza. Embora ainda não saiba o que vai acontecer daqui para frente, o artista, que também é diretor e produtor, não pensa em parar e já está escalado para a próxima novela das seis, cujas gravações começam ano que vem.  

Assine A Tribuna agora mesmo por R$ 1,90 e ganhe Globoplay grátis e dezenas de descontos!

Enquanto 2021 não chega, se dedica aos projetos a distância. Um deles é o Santos Film  Festival - Festival Internacional de Cinema de Santos, que ocorrerá do próximo dia 29 até 6 de outubro pela plataforma www.videocamp.com, com mais de 60 produções exibidas, entre curtas e longas-metragens, inéditos e de mostras retrospectivas. Betti será um dos homenageados da edição e receberá o Troféu Luciano Quirino e três produções nas quais atuou serão transmitidas: Lamarca (dias 30/9, às 20 e, 1/10, às 16 horas), Cafundó (dias 30, às 15 e, 2/10, às 20 horas) e, o mais recente, A Fera na Selva (dias 1/10 às 20 e, 2/10, às 15 horas), onde trabalhou ao lado de Eliane Giardini, sua ex-mulher. Nessa entrevista, o ator fala um pouco sobre este novo momento da carreira e sua paixão pelo cinema.  

 

Gostaria que você começasse falando sobre o Santos Film Festival, em que será um dos homenageados. Você já conhecia o festival? Sabia que Santos é uma das cidades criativas pela Unesco na categoria audiovisual?  

Bom, eu conheci o André (Azenha, diretor do festival), já algum tempo, que me trouxe à Cidade para mostrar um dos meus filmes, A Fera na Selva e aí surgiu o convite. Só que minha ligação com Santos começou bem antes disso por causa do teatro amador, que sempre admirei. Quando eu iniciei minha carreira no teatro como ator, o pessoal ganhava todos os festivais, nomescomo Carlos Alberto Sofredini, Carlos Pinto, Tanah Corrêa... Enfim, o grupo de Santos sempre era muito forte. 

Quando se fala em cinema, qual a primeira lembrança que vem à sua mente? 

Um dos filmes que eu vi e que me marcou quando garoto foi O Pagador de Promessas, do Anselmo Duarte, com Leonardo Villar. Vi na Igreja de Nossa Senhora do Auxiliadora, no Liceu Salesianos, em Sorocaba. O padre tirou a imagem da Virgem Auxiliadora do altar, colocou um lençol pendurado e projetou em 16mm. Acho que foi em 1962, eu era muito novo.  

De que forma ele entrou e ficou em sua vida?  

Foi a partir desse momento, quando assistia às sessões que os padres promoviam, era uma espécie de cine clube. Eu frequentava o oratório festivo, não era aluno do Liceu Salesiano eu participava do projeto social, dos meninos que pobres que moravam em volta da escola, que era paga, usavam as dependências. Vi grandes clássicos, como O Gordo e O Magro, filmes do Tarzan... As sessões aconteciam aos domingos. A partir disso, o cinema nunca mais me abandonou.  

Seu último filme foi A Fera na Selva, em 2017. Tinha algum projeto que ficou parado por causa da pandemia?  

Não tinha nenhum projeto de filme não. Eu estava viajando com a minha peça, Autobiografia Autorizada que, aliás, quero apresentar em Santos qualquer hora. Estava em Portugal quando a pandemia começou.  

O que acha que vai acontecer com o cinema nacional no cenário pós-pandemia. Aliás, acredita que seja possível produzir mesmo durante este período?  

Acho que foi um golpe muito duro e ainda não dá pra avaliar o quanto que vai ser, o que vai  ficar e se vai ficar, né? Porque as salas (de cinema) tiveram que fechar e não sabemos como a pandemia vai influenciar o público quando elas reabrirem; se as pessoas irão ao cinema, se as salas conseguirão sobreviver. O cinema já estava tendo muita dificuldade, principalmente o cinema brasileiro. Então, não tenho ideia de como vai ficar.  

Falando nisso, você foi uma pessoa que não parou durante o isolamento. Fez lives, era ativo no Instagram. Como foi e está sendo a experiência da vida digital de forma geral?  

As pessoas estão encontrando formas de produzir, né? A distância, filmando com celulares e é uma forma, vamos dizer assim, diferente. Alguma coisa nova vai acontecer, principalmente quando se pensa em cinema e o que conhecemos até agora. Só não sei o quê.  

Você também levou o espetáculo Autobiografia Autorizada para uma temporada on-line. Quais são as vantagens e desvantagens?

Como minha peça interrompeu sua temporada por causa da pandemia, recebi um convite para fazer a peça a distância pelo Teatro Petra Gold e a experiência foi incrível. Fiz pelo menos dez sessões da peça e descobri uma maneira de respirar por aparelhos... O teatro feito a distância, com o espectador assistindo na sua própria casa e, no fim, foi e ainda está sendo uma maneira de resistir, de fazer com que o teatro, embora não presencial, ainda esteja no ar.  

A primeira apresentação remota não se esquece, deu frio na barriga?  

A sensação de fazer a peça pela primeira vez sem público foi muito forte. Tinha apenas um espectador, três câmeras e os técnicos que eram da minha peça. Foi mesmo a sensação de estar entubado e de estar respirando por aparelhos e, aos poucos, fui me acostumando. Acho que essa forma de fazer teatro veio para ficar. Claro que ela não vai substituir o presencial, mas será um adicional. Além do público que estará na sala de espetáculo, vamos contar com o que está em casas e nos lugares mais remotos, assistindo. E outra coisa: será um complemento de bilheteria.  

E como foi a reação 

Recebi respostas de pessoas que estavam muito longe e creio que é uma forma de democratizar bastante o teatro.  

A peça também foi uma forma de ajudar o pessoal dos bastidores, né?  

Sim, a bilheteria toda foi para os técnicos. É um momento muito complicado. Para a classe artística foi muito difícil porque foi o primeiro a fechar e, certamente, será um dos últimos a reabrir.  

O que o motivou a fazer uma biografia? Como surgiu a ideia?  

Queria fazer uma um monólogo para ter mais facilidade de viajar e poder fazer palestras, debates, coisas que eu gosto muito. Comecei a ensaiar um monólogo de um amigo sobre a morte, mas percebi, de repente, que aquele texto não falava o que eu queria dizer. Então, durante os ensaios, mudei. Resolvi escrever, mas quando me dei conta percebi que eu tinha já anotado muitas coisas, embora nunca tivesse a pretensão de transformar aquilo em peça. Durante 25 anos tive uma coluna semanal, que saía aos domingos, em um jornal de Sorocaba. Então, já tinha quase tudo escrito. Meu monólogo estava pronto e eu não sabia...  

E ele retrata qual fase da sua vida?  

Fica restrito, vamos dizer assim, à minha infância e à minha adolescência, que são períodos muito importantes na minha formação. Também são fases mágicas e cheias de acontecimentos extraordinários. Um deles é a minha passagem pela escola. Tive muita sorte de ter entrado, com 5 anos, em um pré-primário em numa escola de elite, que foi criado pelos professores de um ginásio do estado para atender seus próprios filhos pequenos. Minha mãe conseguiu me encaixar e, a partir dessa formação, sempre passei por boas escolas até chegar na universidade, a USP, onde estudei na Escola de Arte Dramática. Essa primeira a primeira escola é uma coisa absolutamente essencial e que abriu portas na minha vida. 

Qual foi a última vez que pisou no palco? De 1 a 10, como está a saudade?  

Está dez. A última vez que eu pisei o palco foi em março, em Lisboa, Portugal, com minha peça. Estou com muita saudade do palco.  

Como encarou o isolamento no início? E como está agora?  

Tenho tentado ficar o mais ativo possível, tenho feito lives com a concentração do teatro, é como se fosse uma participação de um tipo diferente de teatro, que é live. É como se fosse um teatro entrevista.  

Do que está sentindo mais falta?  

De encontrar as pessoas, de estar com o coletivo, a proximidade... Estar longe é a coisa mais difícil de encarar na pandemia.  

Um de seus posts recentes no Instagram parabenizava a produção Amor e Sorte, com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, e que terá episódios com outros atores. Você acha que o audiovisual no Brasil vai mudar ou já mudou? Você pensa em produzir algum conteúdo assim? 

Achei muito interessante, muito bonito. É uma ideia muito forte, muito poderosa, né? Porque ela aproveita as pessoas que já estão juntas. Acho formato bom e gostaria de fazer algo parecido.  

Algum projeto de TV vem por aí? Pode contar pra gente?  

Farei a nova novela das seis, que começa a ser produzida em 2021, Intensa Magia.  

Inevitável as pessoas associarem você a alguns papeis que fizeram história na TV. Quais (ou qual) o público lembra e te chama até hoje? 

Os dois personagens que estão mais presentes é o Timóteo de Tieta, e o último que eu fiz na novela Império, o Theo Pereira que era um blogueiro gay. Esses dois são os que estão mais presentes na cabeça do público. No cinema é o Lamarca, até por causa das circunstâncias políticas do País.  

Ator, diretor, produtor... Qual das funções se sente mais confortável?  

Acho que sempre participei como produtor para poder realizar os meus projetos, mas o que eu gosto mais é de estar em cena, né? Dirigir também uma atividade que me encanta, mas no momento, eu estou gostando mais de atuar. 

 

Tudo sobre: