As mulheres invadem o masculino mundo do surfe

Atletas femininas começam a se destacar no esporte no Brasil e no mundo

Originário das ilhas havaianas, o surfe surgiu há quatro séculos como uma prática comunitária, desfrutada por homens, mulheres e crianças. Então, por que hoje esse esporte parece ser predominantemente masculino? E qual o motivo de as mulheres ainda não terem a mesma projeção que os homens, sobretudo na cena competitiva?

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Com a comemoração do Dia do Surfista nesta semana (21 de janeiro), resolvemos fazer essas e outras perguntas para atletas que sentem na pele a dor e a delícia de representar a Baixada Santista em eventos regionais, estaduais e nacionais. 
Júlia Nicanor dos Santos, de 24 anos, é um dos destaques locais nos torneios realizados Brasil afora. Ela diz que sempre precisou de equilíbrio para dropar ondas de desconfianças e preconceitos. “Como mulher negra, nunca tive o estereótipo desejado pelas grandes marcas para as surfistas – geralmente as loiras e de olhos claros”, relata.

Mas a atleta remou contra a maré e foi galgando seu espaço mesmo sem patrocínio fixo. Hoje, tem no currículo títulos importantes, como o primeiro lugar tanto no campeonato brasileiro de 2019 quanto no torneio estadual de 2020 – esse último conquistado no mês de dezembro, em Camburi.
Nesse mesmo evento, a cidade de Santos faturou o troféu de melhor equipe de surfe feminino. Kaylane de Souza, a Kay, de 28 anos, colaborou na soma de pontos ao vencer a categoria longboard. Ela é outro exemplo de determinação e luta por mais espaço para as mulheres nas ondas, apesar das adversidades existentes.
Idealizadora do grupo Surfe das Minas, Kay foi a primeira mulher do País a disputar um campeonato de surf dog, aquele em que os cães surfam com seus tutores em pranchas de stand up paddle.

“Foi um marco para nossa Cidade trazer o título por equipe. Concorremos com meninas de Maresias, Ubatuba, Guarujá e de outras cidades de tradição no surfe. Mostramos que podemos ser um celeiro de campeãs”, afirma. 

Os resultados vieram após muito treino e esforço dentro e fora d’água. Júlia e Kay alcançaram o alto rendimento e a técnica exigidas no surfe competitivo, apesar das diferenças visíveis nos tratamentos destinados a atletas do sexo masculino, em termos de patrocínios e premiações mais gordas.
“A gente está sempre conquistando títulos, mas sempre devemos correr mais do que eles para demonstrar que temos plena capacidade de surfar bem, o mesmo mar”, resume Kay.

Entre mulheres. Tem sido assim desde a infância. As duas atletas foram criadas por mães solteiras e batalhadoras. “A minha possuía uma barraquinha na Praia do Sonho, em Itanhaém, e era surfista de bodyboard. Ela teve minha irmã com 13 anos. Eu nasci quando estava com 17. Minha história é entre mulheres. Com 10 meses, antes mesmo de andar, já me colocaram em pé numa prancha”, conta Kaylane.
No entanto, por trabalhar desde muito nova para ajudar em casa, Kay não conseguiu se dedicar como gostaria ao esporte. Por muitos anos, o surfe foi encarado como um estilo de vida. Só aos 26, ela começou a competir. 

O primeiro campeonato veio quando uma empresa a convidou, pagou a inscrição e financiou a prancha. “Consegui ser vice-campeã nesse evento, em Praia Grande. Passei a me ver com outro olhar. Imaginei que se conseguisse competir mais poderia alcançar visibilidade. E foi o que aconteceu”. 

A história de Júlia é parecida. Como Kay, ela não teve uma figura paterna na infância. “A minha mãe me criou sozinha. Ela trabalhava e desde pequena pratiquei muitos esportes. Joguei bola, fiz handebol e caratê antes de conhecer o surfe, aos 11 anos”. 

O contato com as ondas aconteceu graças a convite do professor da igreja. Num belo sábado de 2003, lá estavam Júlia e mais de 20 crianças na praia do Itararé, em São Vicente, para aprender a surfar. “Eu não quis esperar a minha vez. Era muito aluno pra ele ensinar. Peguei uma prancha de long e já fui remando. Consegui ficar em pé sozinha e me apaixonei por aquela sensação”.

Logo depois, Júlia passou a frequentar a escolinha de surfe da prefeitura. Na primeira aula, já impressionou o professor. “Ele perguntou para a minha mãe se eu já tinha treinado antes”, lembra. 

Aí, vieram os campeonatos e os bons desempenhos. A surfista disputava com meninos e se destacava cada vez mais nos resultados. No caminho até a conquista do campeonato brasileiro, a santista conseguiu o feito de ser a única atleta a participar de três finais em três eventos. Algo inédito entre garotas e uma raridade no circuito masculino. 

Bicampeã santista, bicampeã guarujaense, bicampeã vicentina, tricampeã do A Tribuna de Surf Colegial, campeã paulista e campeã brasileira. Para completar essa lista, Júlia agora foca no tão sonhado título mundial. 
Só que ela sabe que terá de manter a resiliência. “É difícil, nunca contei com um patrocinador principal, nunca tive um adesivo no meu bico. Eu sofro, mas isso também me instiga a vencer esse obstáculo e não desistir”. 

Resgate histórico

De acordo com Kay, a falta de equidade entre os gêneros não se expressa apenas no maior número de apoiadores e patrocinadores voltados aos homens. Para ela, é preciso revisitar a história e resgatar a importância das mulheres pioneiras no surfe. 
“Temos um monumento de um grande veterano em Santos, que foi Osmar Gonçalves. Não há um monumento para uma mulher. E temos pioneiras, como Margot Rittscher”. 

Para quem não sabe, Margot e seu irmão, Thomas Rittscher, introduziram o surfe no País, em 1937, ao deslizar as ondas da praia do Gonzaga com uma prancha de madeira criada no quintal de casa. 

Iniciar esse movimento de resgate das surfistas que marcaram o passado e marcam o presente é um dos objetivos da Associação Santos de Surfe. A diretora social da entidade, Carla Forti, já trabalha nesse sentido, ao lado de Natália Minero, responsável pela gestão de projetos da entidade. 

“Não vai ser fácil, temos diversas barreiras e estigmas para quebrar, mas vamos começar esse trabalho e mudar a forma como nos fizeram pensar”.
Maré boa. Há motivos para comemorar também. Basta observar um dia de mar bom para notar que houve um aumento indiscutível de praticantes mulheres, ao menos nos fins de semana. 

Aos 48 anos, Márcia Portes, fera do longboard, é prova viva desse crescimento. Carioca da gema, está radicada em Santos há sete anos. Mãe do campeão santista Noa Portes Danucalov, ela surfa por amor, sempre competiu e recentemente foi campeã brasileira na categoria 45+. “A cada verão que passa, temos mais companheiras no mar. Mas ainda é algo sazonal”.

Carla Forti acredita que a maioria leva o surfe como life style. “Continua pequena a quantidade de mulheres que focam na competição. Aos poucos, isso está mudando”, pontua.

Natália Minero ressalta a necessidade de realizar um trabalho desde as categorias de base, inclusive propiciando suporte no contexto familiar e emocional das crianças que despontam como promessas. “Existe a necessidade de um movimento anterior aos treinamentos voltados para alto rendimento: mostrar que as mulheres podem, sim, surfar. É fundamental esse acompanhamento e encorajamento, pois eles refletem no desempenho técnico”. 

Que o diga o treinador Pedro Souza. Desde 2016 atuando como coordenador do Centro de Treinamento de Surfe de Santos, ele é taxativo ao definir o esporte como essencialmente machista. 

Os números traduzem isso. Pelo CT passam todos os anos cerca de 25 jovens atletas, entre 10 e 18 anos de idade. Historicamente, a proporção é de cinco meninas para 20 garotos. Os motivos para a baixa participação são vários. 

“A verdade é que o ambiente para as meninas ainda é inseguro e hostil. Não sou de tapar o sol com a peneira. A maior parte dos praticantes respeita pouco as surfistas e não acredita no potencial delas. Muitos jogam duro na hora de disputar espaço no mar. Sem falar no fator assédio. Vários elementos inibem a presença feminina, infelizmente. Não se trata de vitimismo”. 

Movimento global

O surfe, em tese, favorece um estilo de vida capaz de abrigar pessoas de diferentes faixas etárias, independentemente de gênero e nível social. Porém, na prática, ainda não é bem assim. 

“Enquanto falo com você, olho para o mar e vejo 20 caras e nenhuma mulher remando. A realidade é dura: temos um esporte maravilhoso, mas no Brasil ele é machista, racista e classista”, afirma o treinador. 
Em termos regionais, uma boa notícia foi a criação de uma categoria no campeonato amador estadual para as mulheres, a sub 16. Ainda é pouco? Sim, mas é um começo.

“Para os garotos as categorias iniciam já no sub 10 e isso há muitos anos. Só em 2018 as garotas amadoras puderam disputar as competições estaduais”, lembra Pedro Souza. 

O movimento pelo reconhecimento e apoio ao surfe feminino vem também de águas internacionais, desde que o campeonato mundial da World Surf League (WSL), presidido pela primeira vez por uma mulher, instituiu premiações similares. Isso aconteceu em 2019, depois de 27 anos de disparidade. 

E Júlia Santos foi beneficiada, já que o evento de caráter nacional aderiu de pronto à medida. “Tive o privilégio de ser a primeira brasileira a sentir os ventos dessa mudança”.

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