EDIÇÃO DIGITAL

Segunda-feira

13 de Julho de 2020

Arquiteto de Praia Grande viajará o Brasil para desvendar a casa brasileira

Projeto Brasis que vi, que iniciou antes da pandemia e deve seguir daqui a dois meses, já tem muito a mostrar. Resultado deve virar programa de TV, livro e prédio temático

Cada ser é diferente. Traz em si vivências, histórias, cultura, raízes e, para chamar uma construção de lar, espelha tudo isso onde vive. Mas como é, de verdade, a casa brasileira? Que elementos colocam alma e pulso nos seus ambientes? Projeto do arquiteto Gabriel Fernandes, o Brasis que Vi quer descobrir tudo isso, entendendo as diferentes formas de morar no território nacional. Em pouco tempo de trabalho, ele já viu e mostrou muita riqueza, dando dicas, a seguir, de como encher de vida e personalidade o lar. 

Iniciado há alguns meses e pausado por conta do isolamento social, o Brasis que Vi deve voltar com suas viagens pelo País em dois meses. O arquiteto e sua equipe já viajaram para Minas Gerais e Rio de Janeiro, registrando alguns ambientes inspiradores que devem virar livro, projeto para emissora de TV e um prédio inteiro com ambientes decorados. 

O roteiro das viagens foi definido para contemplar uma espécie de rota de artesãos. No total, 12 estados serão visitados. O primeiro foi Minas Gerais. “Percebi que esse é um povo que não precisa olhar para fora para colocar a riqueza dentro. Não teve uma casa em que eu entrasse que não fosse repleta de patriotismo”, diz Fernandes, exemplificando com o lar de Wagner Antonio Trindade, empresário mais conhecido como Waguinho. “A brasilidade virou moda, mas eu sempre trouxe referências brasileiras muito fortes nos meus projetos. E como a única maneira de me dedicar a um estudo é trabalhando nele, comecei a viabilizá-lo, com o fotógrafo Marcelo Oséas e equipe”. 

O mineiro produz luminárias, como a exposta em sua casa. Aprendeu o ofício com o pai. Mora em Tiradentes e sustenta um ateliê onde emprega e ensina o ofício. No seu lar, o chão da cozinha tem ladrilhos hidráulicos cravados no cimento queimado, assim como as janelas de madeira respeitam a tradição das técnicas de construção da cidade onde vive. 

Soleiras, dormentes de trilhos nas janelas, a mistura de ferragens e madeira com as cores alegres trazem simplicidade e beleza. 

Casa e ateliê do alfaite mineiro Blade, mostra personalidade. (Marcelo Oseas)

Também mineiro, mas de Belo Horizonte, Marcelo Augusto, alfaiate, é uma personalidade na cidade por vestir gente famosa para bailes da Vogue e ter um estilo bem próprio. Chamado por lá de Blade, ele colocou toda a sua irreverência onde mora e promove exposições. 

“A escada dele é pintada de azul, transmitindo essa personalidade extravagante. Conforme sobe, você vai lendo mensagens pelo caminho. Bem perto tem uma cortina vermelha e um mobiliário contemporâneo amarelo, mixando um cenário quase burlesco e cheio de influências pop”, explica Gabriel Fernandes. 

Apartamento revela jeito da carioca que escolheu pintar o Rio. (Marcelo Oseas)

Kakau Hofke, designer, é uma artista visual que sempre trabalhou com propaganda e marketing, mas que, em casa, assumiu seu lado artístico num ateliê cheio de obras de arte inspiradas no Rio de Janeiro. Transformou a cobertura de um prédio dos anos 1960 num ambiente colorido, com chão de caquinhos, que ela ama, e muitas referências cariocas, como aos calçadões. 

“Ela vê o Rio como uma cidade bem colorida”, diz o arquiteto.

Coliving de artistas une simplicidade do morro com vista do mar. (Marcelo Oseas)

André Felipe mora no pé do morro do Vidigal, à beira-mar e tem as duas vistas: do mar e da periferia do Rio de Janeiro. Reside num coliving artístico, recebe muita gente que fica encantada com a vista. “A arquitetura é simples, comum, implantada próxima do mar e tão perto do morro, com decoração mais orgânica, de alguém que se preocupa com a decoração, mas que foi deixando que ela acontecesse”, destaca Fernandes, sobre os móveis simples traduzindo o estilo dos moradores. 

Receber bem, ter perto o mar e o surfe são características do morador. (Marcelo Oseas)
 
:

Bob Cardim, cinegrafista premiado, vencedor do Leão de Cannes, mora num condomínio cercado por mata, com a casa assinada pelo arquiteto Sérgio Bernardes. Hoje vivendo de arte, ele tem esse jeito todo despojado de ver e montar a casa para receber. Um carioca “mais natureza” que mostra isso principalmente no solário, onde há uma prancha, natureza e “lugar para contemplar”, totalmente o oposto do que faz a carioca Érika Bronze para atrair visitas. Com sua caixa d’água perto das mulheres que querem se bronzear com biquínis de fita, ela se orgulha da entrada de girassóis, flor que busca o sol, como seu trabalho. 

Apesar do regionalismo ser marcante também na decoração, em muitos lares próximos, os estilos são completamente diferentes. Por isso, a dica de Gabriel Fernandes para fazer do lar um ambiente aonde se queira voltar é vasculhar o baú, pesquisar a família e encontrar relevância na própria história para materializar. 

“São dois caminhos: o do regionalismo e o da personalidade. Se você for notar, existe sempre uma referência de lugar, mas cada lar é diferente. Então, para começo de tudo, é preciso se visitar. Quando você gosta do que vê, se sente bem. A casa deve ser o que nós somos”.

Outras fotos do Brasis que Vi podem ser conferidas no Instagram @gabrielfernandesarch.

Tudo sobre: