Araquém Alcântara celebra 50 anos de fotografia. Veja imagens inéditas feitas por ele no Pantanal

O fotógrafo relembra fatos marcantes e curiosidades da sua trajetória de sucesso. Ele começou a carreira em Santos

Sem dúvida, Araquém Alcântara é um dos fotógrafos brasileiros mais conhecidos pelo grande público, inclusive mundo afora. E agora, em 2020, ele comemora 50 anos de carreira. O que muita gente não sabe – ou não lembra – é que ele deu os primeiros passos da sua trajetória de sucesso em Santos.

Na entrevista a seguir, o catarinense de 69 anos conta como se prepara para uma expedição, por exemplo, na Amazônia (sua principal fonte de inspiração), cita técnicas que usa para clicar onças e outros animais no meio da floresta e afirma que, em nome de boas fotos, já viu a morte de perto, pelo menos, umas seis vezes.

Araquém ainda nos presenteia com imagens belíssimas: as coloridas são inéditas e do Pantanal (ele está lá há duas semanas para registrar o impacto do fogo); já a foto em preto e branco é uma das preferidas do nosso entrevistado, entre tantos registros que fez ao longo das cinco décadas de carreira.

FOGO Você está fotografando o Pantanal há duas semanas. Qual a sensação que tem ao ver tudo que vem acontecendo?
Como fotógrafo de natureza, meu trabalho é fazer uma espécie de “crônica da vida”. Tanto é que, em vez de registrar apenas a destruição provocada pelo fogo, prefiro mostrar toda a resistência dos bichos e das pessoas e a regeneração que, aos poucos, se dará no meio ambiente. O Brasil possui a maior biodiversidade do mundo. Estou horrorizado com o que tenho visto no Pantanal. É um verdadeiro holocausto, um crime de lesa-humanidade, que poderia ter sido evitado. Nós estamos desertificando o País, porque não temos um governo atuante e que se sensibiliza com tudo isso. Nosso ministro (do Meio Ambiente) é um boçal. Há um desmonte da política ambiental.

O que mais chamou sua atenção no Pantanal atual?
O trabalho heroico dos bombeiros, das ONGs e dos voluntários. Mas acaba sendo uma coisa pequena, pois não existe um planejamento. Deveria haver um trabalho prévio, de preparação, para evitar esse tipo de tragédia, em fevereiro e março, já que a seca vai de julho a outubro. Se houvesse uma brigada no início da Rodovia Transpantaneira, com efetivo para apagar as chamas antes que tomassem uma proporção gigantesca, nada disso teria acontecido. Uma ponte da Transpantaneira foi totalmente queimada. Algumas regiões parecem o Nordeste, com aquelas secas terríveis, em que a terra fica toda rachada. Havia uma coluna de 17 km de extensão de fogo. Agora são focos pontuais, com grupos de bombeiros distribuídos por esses lugares. Eles não estão apagando o fogo e, sim, mitigando os efeitos das chamas. Ficam cercando áreas, protegendo o que é possível.

Tem visto muitos animais mortos?
Sim. O negócio é impressionante, porque há fogo subterrâneo e, de repente, ele rebrota. Os bombeiros acham que vai continuar queimando até meados de outubro, quando começar a chover. Eles me explicaram que é preciso de muita chuva para o fogo acabar. Já garoou um pouco. Quando a chuva vier de verdade, vai aparecer um monte de bichos mortos, sendo levados pelos rios, pois, no Pantanal, tudo vai para os rios. Temos de cobrar atitudes do governo, das autoridades. Aprender uma lição com essa catástrofe, para evitar outras, já que o aquecimento global está aí, com força total.


 

Qual foi a cena que mais o chocou?
É difícil de dizer. Tenho visto animais desidratados ou desnutridos. Os voluntários colocam comida para eles debaixo das pontes: pepino, tomate...Tivemos o pior Dia da Árvore da história do País. Todos os brasileiros deveriam estar de luto pelas árvores que foram queimadas. Essa situação do Pantanal ainda afeta o ecoturismo local. As pousadas não têm clientes. Os donos desses lugares ficam tentando proteger seu patrimônio. Há praticamente um mês e meio, um amigo dorme pouco, ajudando a combater o fogo, para que não chegue à sua pousada. E o ar fica todo cheio de fumaça...

Está sentindo os efeitos disso na sua saúde?
Eu uso uma máscara normal e tento sair logo dos locais que vou fotografar. No início da semana, para você imaginar, tive uma crise de tosse, pois aspirei esse ar com fumaça.

MATRIZ Outra grande fonte de inspiração na sua carreira é a Amazônia. Tem algum projeto dedicado a ela em andamento?
Possuo várias fontes de inspiração: o sertão, o povo brasileiro, a Mata Atlântica... Mas, evidentemente, minha maior matriz criativa é a Amazônia. Foi ela que me trouxe reconhecimento, inclusive internacional. Já fui mais de 100 vezes para lá, contra mais de dez no caso do Pantanal. Fiz uma expedição para a Amazônia em agosto, para meu novo livro sobre ela, que vou lançar no ano que vem numa feira de Frankfurt (Alemanha). A capa será a imagem que fiz de um tamanduá e que viralizou na internet, sendo vista por cerca de 68 milhões de pessoas. A proporção que essa foto tomou foi inacreditável, eu não podia esperar que ela seria utilizada até em passeatas em defesa do meio ambiente, realizadas em Amsterdã (Holanda) no ano passado. 

As recentes queimadas na Amazônia também preocupam demais.
Perto de morrer, o Guimarães Rosa disse que seria preciso procurar muito para encontrar alguma coisa do sertão. Daqui a pouco, o mesmo poderá ser dito sobre a Amazônia, porque ela está em agonia. A maioria dos brasileiros não se dá conta disso, a Amazônia só ecoa na nossa sociedade quando ocorre algo gritante. Em compensação, há uma preocupação global sobre o estado da floresta, pois os outros países sabem da sua importância para a sustentabilidade climática. Cada vez mais aumenta o índice de queimadas na Amazônia pela ausência de fiscalização, política e consciência. Preciso registrar a minha revolta, a minha indignação com tudo isso.

ANIVERSÁRIO Está preparando mais algum livro?
Já publiquei quatro obras sobre o Pantanal, estou produzindo mais uma, que deve sair no ano que vem. E a mesma editora suíça que vai lançar o meu novo livro da Amazônia está preparando edição especial de uma das suas revistas sobre a minha trajetória. Completo 50 anos de fotografia em 2020. Aliás, por causa da pandemia, o livro dos meus 50 anos de carreira foi adiado para 2021. E o HBO está fazendo um documentário sobre a minha trajetória. Reparo que os jovens fotógrafos acham que alcançar 20 anos de carreira já é muita coisa. Que nada! Com 20 anos de fotografia, você começa a entender o que é a luz.

Você foi repórter antes de se tornar fotógrafo, né?
Eu nasci em Florianópolis (Santa Catarina), mas vim para Santos com 6 anos. Iniciei minha carreira no Município. Escrevia sobre esportes para o Jornal Cidade de Santos. Aí, junto com amigos, deixei de ser repórter do jornal para focar na fotografia. Naquela época, a foto começava a ganhar importância documental, ainda não era considerada uma arte. Tanto é que, quando tentava organizar uma exposição, recebia inúmeras respostas negativas. Minha primeira mostra individual foi em 1973, no Clube XV. Ela se chamava Urubus da Sociedade e foi atacada por fazer uma crítica social. Procuro mostrar a realidade, sempre com um olhar estético. A partir daí, participei da luta contra a usina atômica na Jureia, quando fiz a emblemática imagem do meu pai (senhor com quadro na mão na última página da entrevista), que correu o mundo. Também na década de 80, trabalhei na sucursal de Santos do Estadão e do Jornal da Tarde, ajudei a fundar a Cooperativa dos Jornalistas de Santos – entidade que fez o polêmico Jornal Preto no Branco – e integrei por um período o time de fotógrafos de A Tribuna. Em seguida, fui cobrir o ABC para a Istoé e investi na minha carreira de freelancer em São Paulo.

O que o levou a focar na fotografia de natureza?
Quando ganhei prêmios pelas imagens que fiz da poluição em Cubatão, comecei a ler sobre grandes fotógrafos e fiquei absolutamente fascinado pelo Ansel Adams. Seus registros da natureza dos Estados Unidos foram importantíssimos para a criação de parques nacionais como o de Yellowstone. Já com visibilidade – trazida por exposições que realizei em São Paulo -, decidi documentar todos os parques nacionais do Brasil. Levei 15 anos para concluir isso e, sem saber, fui me tornando um fotógrafo pioneiro. Passei a direcionar todo o meu dinheiro e as minhas ideias para esse projeto. Concluí essa odisseia em 1996. O resultado foi o Terra Brasil, livro de fotografia mais vendido da história do País e que caminha para a 13ª edição.

AVENTURAS Como se prepara para uma expedição?
O fotógrafo tem que buscar todas as informações sobre o local, com auxílio de produtores. Depois, é preciso mapear tudo, definir quem será o seu guia na viagem e obter as autorizações entrar nos lugares. O mundo da floresta é outro universo. Na mata, você tem de montar o acampamento às 14 horas, porque, a partir das 16 horas, já está escuro.

Tem alguma técnica para fotografar os animais?
O fotógrafo de natureza perde praticamente 99% das imagens que faz, mas o 1% que sobra corrige tudo e consagra. Sabe, as pessoas veem o meu trabalho e gostam, só que não imaginam como é difícil fotografar na floresta. Ela é escura, não tem espaço, os bichos geralmente possuem hábitos noturnos e fogem de você a todo custo. Para fotografá-los, é preciso eliminar o cheiro do corpo – ficando sem tomar banho e passando terra e folhagens na pele. E o mais importante é não permitir que os animais vejam os seus olhos – se posicionando atrás de uma árvore, pondo uma galhada na sua frente, usando um chapéu camuflado... Enfim, você fica ridículo (risos).

Colocou a sua vida em risco muitas vezes?
Já fui sequestrado por índios caiapós. Certa vez, o avião em que eu estava viajando caiu em Roraima, durante uma tempestade. Lembro que já tive de pular de uma canoa desgovernada que seguia para uma cachoeira; que um homem colocou um fuzil na minha cabeça na Rodovia Transamazônica, e que uma onça, ao perseguir uma anta, veio para cima de mim. Fiquei perto de morrer umas seis ou sete vezes ao longo da minha carreira.

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