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Terça-feira

11 de Agosto de 2020

Aprenda a cuidar das suas emoções no isolamento social e evitar problemas de ansiedade

A psicóloga Cristina Werner participa de projeto de pesquisa dos impactos do confinamento em caso extremo, na Antártica. Ela diz o que é normal sentir e como agir na quarentena

O período de isolamento social, devido à pandemia, pode trazer consequências indesejadas para a nossa saúde mental, se não soubermos como cuidar das nossas emoções. Entre esses reflexos estão de conflitos constantes na relação amorosa a problemas de sono e quadros de ansiedade exacerbada ou de estresse pós-traumático. É o que explica Cristina Werner, psicóloga do Rio de Janeiro que faz parte do SaúdeAntar, projeto que tem estudado os efeitos na saúde mental de uma situação extrema de isolamento, enfrentada pelos profissionais que atuam na Antártica – pesquisa que integra o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR).

Além disso, Cristina, que é terapeuta familiar e sexual, se especializou no decorrer da carreira em ajuda humanitária psicológica. Ela contribuiu com o atendimento de pessoas, por exemplo, após o incêndio da boate Kiss, em Santa Maria (RS), e depois do tiroteio na Escola Tasso da Silveira, em Realengo (RJ). Na entrevista, a psicóloga orienta como podemos vivenciar melhor o confinamento social na quarentena.

RELACIONAMENTO Você já trabalhou em várias situações extremas. Com base nelas, que análise pode ser feita dos reflexos emocionais da pandemia?

Podemos traçar alguns paralelos entre o momento atual e as tragédias provocadas por um desastre natural, como uma enchente, ou por atitudes humanas, como uma pessoa que entra atirando numa escola. Acontecimentos desse tipo causam rupturas, mudanças bruscas, por cortarem as nossas raízes abruptamente. Na pandemia, é o contrário: vamos nos desligando das nossas raízes secundárias de uma maneira mais lenta e sutil, à medida em que deixamos de ir ao shopping, à praia, de visitar familiares...

Com isso, tendemos a sobrecarregar a nossa raiz principal, que é a da nossa casa, e podemos nos ver em confusões com o parceiro (a), com os filhos... Pois todos ficam o tempo inteiro juntos.

Mas é importante observar que, no caso dos casais que, antes da pandemia, já tinham relação boa, de diálogo e compreensão, essas características agora devem se intensificar, afinal os dois construíram o hábito de resolver problemas de um modo positivo. Em compensação, nos casais que não costumavam conversar muito e que não se toleravam tanto, a tensão pode subir bastante no confinamento.

Ou seja, a ocorrência de conflitos acaba sendo maior nas relações que já não iam bem.

Sim. Só que, enquanto alguns casais, heterossexuais e homoafetivos, já sabiam que não estavam 100% bem, outros vão descobrir isso na pandemia. Ao ficar 24 horas com a pessoa, você, além de poder desfrutar mais do que ela tem de bom, tudo que é complicado naquele indivíduo também fica mais exposto.

O que os casais devem fazer para não estremecer a relação?

A comunicação é uma importante ferramenta. As pessoas precisam entender que se eu não converso, se eu não falo o que estou sentindo, o outro não tem como adivinhar o que se passa dentro de mim. Ao menor sinal de desconforto ou tensão, é preciso conversar com o parceiro (a).

Também sugiro fazer o que estou chamando de isolamento do isolamento. Você tem que se dar o direito de se afastar de tudo e de todos por um período. Separe, por exemplo, duas horas para você e seu companheiro (a) ficarem livres um do outro. Mesmo se a casa for pequena, um pode ficar em um canto lendo, enquanto o outro navega na internet ou arruma o armário.

Não é porque os dois estão juntos fisicamente que precisam fazer juntos absolutamente tudo. Todos nós necessitamos de um momento para sentar e fazer uma autorreflexão.

“Faça o isolamento do isolamento,se afaste de tudo por um tempo”, diz Cristina (Foto: Arquivo Pessoal)

ESTRESSE A pandemia do novo coronavírus pode gerar traumas?

Toda vez em que tenho um choque, emocional ou físico, e entro em crise, se eu receber ajuda, acolhimento imediato de qualquer ordem, aquela experiência tende a me servir como um aprendizado para as minhas próximas vivências. Agora, se não recebo um apoio adequado, em até quatro meses após aquele acontecimento, posso ter estresse pós-traumático e ficar relembrando o que ocorreu, sem elaborar aquilo.

A psicologia nunca foi tão necessária e útil como hoje e no futuro. A pandemia pode provocar estresse pós-traumático principalmente em quem trabalha em hospital, por ver tanta desgraça de perto. Não me refiro apenas a médicos e enfermeiros, mas também aos maqueiros, ao pessoal da limpeza, da cozinha... Fora das unidades de saúde, merecem atenção os coveiros; a gente pouco pensa nos dilemas deles.

E mais: além dos doentes necessitarem de acolhimento, os familiares e amigos que os acompanham também precisam de apoio, mesmo quando não perdem a pessoa querida, pois encaram junto ao paciente a espera por atendimento, podem se sentir impotentes etc.

Que mais pode acontecer?

Quando ficamos alternando períodos de crise, provocados por choques, com momentos de melhora no nosso quadro, e isso perdura demais, há o risco de nos desumanizarmos, de nos dissociarmos das nossas emoções para não sofrermos mais e conseguirmos sobreviver, seguir adiante. Nessa hora, por exemplo, um médico pode começar a agir no piloto automático e deixar de dar a devida importância para mais uma morte.

ROTINA O que observou de mais curioso em quem fica isolado na Antártica e que é válido para a população em isolamento social?

A pessoa vai voluntariamente para a Antártica, porque quer participar das pesquisas, ou fazer fiscalização para o Ibama ou, falando do militar, cumprir tempo na estação local e nos navios polares. No nosso caso, a gente não gostaria de ficar em isolamento em casa, mas precisa.

Como os dias no confinamento são praticamente iguais, perdemos noção da passagem do tempo, se é segunda, quarta ou domingo. Para evitar isso, sugiro criar uma rotina, porque devemos respeitar o ciclo circadiano, que é o que conduz o nosso estado de vigília e de sono, o dormir e o acordar.

Em média, a partir das 18 horas, o organismo começa a produzir melatonina, que é importante para o sono. O pico desse hormônio se dá às 23 horas. Portanto, é bom já estarmos deitados nesse horário, pois, em seguida, virão seis etapas de sono. Nelas, há fixação da memória e liberação de hormônios sexuais. Ainda durante o sono, o corpo libera hormônios do crescimento. Logo, ter boa noite de sono quando está escuro é restaurador. Também ajuda a melhor ordenar o dia e não sentir dificuldade para dormir. Além disso, ao perder a noção de tempo, podemos ficar meio desorientados e sem elã para fazer as coisas.

Cristina atendeu pessoas que vivenciaram o incêndio na boate Kiss (Foto: Arquivo Pessoal)

Recomenda mais algum cuidado?

É interessante fazer um dia diferente do outro. Por exemplo, praticar atividade física na terça, quinta e sábado; frequentar um curso on-line na segunda, quarta e sexta; e descansar no domingo. Quando você se encontra em uma situação contínua, é importante, para sua orientação cognitiva, trocar de papel, de personagem. Faz parte disso se arrumar para o home office com roupa parecida com a que usaria na empresa. Esse cuidado está longe de ser bobagem, pois manda uma mensagem para o nosso cérebro de que não podemos ter preguiça ou sono.

Não dá para ficar de pijama o dia inteiro. É bom arrumar a cama ao acordar, trocar de roupa e respeitar os horários das refeições. E tem de avisar as pessoas em casa que vai começar a trabalhar, que vai trocar de papel, porque temos enchido de papéis sociais um lugar que era apenas doméstico. O fato de a empresa, a escola, enfim, tudo funcionar no mesmo local pode causar estresse, uma sobrecarga. Sugiro criar uma “senha” para entrar e sair desses papéis, para deixar a convivência mais confortável. Só que não é fácil, deve haver uma negociação diária.

Quem sofre mais com isso?

Com certeza, as mulheres são as pessoas mais sobrecarregadas na pandemia, pois os cuidados com as crianças ficam centrados na mãe e o trabalho doméstico costuma sobrar todo para as mulheres. Quando há uma tentativa de divisão de tarefas, isso pode ser explosivo.

Me impressiona como os homens ainda têm dificuldade para se comprometer com um ambiente que também é deles e utilizam o discurso de que vão “ajudar com a casa”. Para os casais que estou atendendo on-line, o grande motivo de discussão é essa divisão de tarefas. Enquanto não houver uma noção de pertencimento, as brigas tendem a continuar. E agora é boa hora para debater a distribuição de atividades com mais equidade.

ANSIEDADE O momento atual pode potencializar o surgimento de paranoias, ainda mais em quem é hipocondríaco?

As pessoas que já eram hipocondríacas, tinham mania de limpeza ou transtorno obsessivo compulsivo (TOC) devem sofrer ainda mais, por terem motivos de sobra para intensificar esses comportamentos. E lá na frente, no futuro, isso tende a ficar ainda mais exacerbado. Algumas pessoas, inclusive, podem ter dificuldade para sair de casa e necessitar de tratamento. Não creio que a pandemia deve levar alguém a desenvolver um quadro de TOC ou hipocondria, mas acho que todos nós ficaremos mais cautelosos.

Cristina também atuou na trágica enchente em Nova Friburgo, no Rio (Foto: Arquivo Pessoal)

Como deve-se lidar com as inúmeras incertezas, entre elas as profissionais e financeiras?

Todas essas incertezas estão gerando um aumento no nível de ansiedade das pessoas. Precisamos entender que um pouco de ansiedade, no primeiro momento, sempre é bem-vindo, pois serve como um dínamo, nos leva a agir. Agora, por exemplo, a ansiedade e a incerteza sobre nosso futuro financeiro podem ser produtivas por nos fazer evitar gastar dinheiro à toa.

O que nós não podemos é exagerar na dose, e devemos recorrer a argumentos lógicos e dados reais para baixar a ansiedade e ficarmos bem. Mas a constatação de que tudo tende a melhorar pode não funcionar se o fato atual “se emparelhar” com acontecimento do passado que também nos fez ter insegurança e ansiedade e que não foi bem resolvido. A solução é visitar o passado e trabalhar isso.

SOLIDÃO Gostaria de mandar um recado para quem mora sozinho?

O fato de eu morar ou estar só não significa que a solidão vai bater na minha porta. Muitas vezes, a gente tem companhia e, mesmo assim, se sente sozinho. A grande sacada é compreendermos que nós devemos nos bastar.

Também temos de tentar ser a nossa melhor companhia. Vale a pena fazer exercícios de respiração, que aumentam o nosso autocontrole, e de relaxamento, movimentando pescoço, braços e pernas. E por que não se tornar um agente catalisador, aquela pessoa que propõe e promove encontros virtuais, de preferência em vídeo, com a família e os amigos?

Outros pontos importantes são nutrir a espiritualidade e manter a mente ocupada, de repente se engajando com uma campanha solidária. Em hipótese nenhuma, a gente pode perder uma coisa chamada esperança.

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