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Segunda-feira

20 de Maio de 2019

Aprenda a ajudar os filhos a se blindar de provocações na adolescência

Psicóloga e psicoterapeuta constata mais hostilidade no ambiente feminino

Uma das mais famosas atrizes brasileiras da nova geração, Bruna Marquezine, de 23 anos, admitiu ter sofrido por causa de críticas maldosas a respeito de seu corpo nas redes sociais. Ela se referia a frases como “Linda de rosto, mas engorda um pouquinho”, “Ficou feia, muita magreza”, “As pernas parecem dois macarrões em pé”.

Sentindo o golpe, a atriz declarou estar “muito saudável, graças a Deus”; e que isso deveria ser a única coisa importante. E foi além. “Eu já sofri e muito com distúrbio de imagem. Na época, as pessoas não comentavam que eu estava magra, mas um pouco gordinha. Bochechuda, quadril largo. E eu acreditei na opinião alheia e comecei a detestar meu corpo. Eu tomava Lacto Purga todos os dias. Junto com tudo isso, eu tive depressão. Não só por isso, mas principalmente por questões de autoestima”.
Wania Moraes Troyano, teencoach, mastercoach, expert em comunicação não violenta e em resiliência, analisa: “Bruna é bonita, atriz global e famosa nas redes sociais, mas talvez acredite, lá no fundo, que precisa ser 100% aceita, admirada por todo mundo. E ninguém consegue isso. Se não estou preparada, não tenho a autoconfiança fortalecida, acabo levando mais a sério o que os outros acham do que aquilo em que eu acredito. Chego ao ponto de pensar que o que a maioria fala é verdade, quando o que deveria importar é como eu me vejo no espelho, como eu me percebo”.

Se a bela e famosa Bruna Marquezine ficou fortemente abalada com as críticas à sua aparência, imagine o que sente um pré-adolescente, de 9 a 13 anos, ao escutar esse tipo de coisa? Eis um assunto preocupante, ao ponto de a Unilever, com sua marca Dove, em parceria com a Cartoon Network, lançar no ano passado a segunda etapa da Campanha Estou Bem. Com a mensagem “elas nem sempre dizem o que sentem”, quer incentivar pais e mães a terem conversas sobre autoestima e confiança corporal com seus filhos.

O vídeo da campanha explora as emoções e os conflitos de meninas de diferentes nacionalidades ao serem questionadas por seus pais sobre a pergunta comum “Como foi seu dia na escola?”. E a protagonista da peça publicitária é uma jovem rapper brasileira. “Érica foi escolhida por ser uma menina real, que como toda jovem também sofreu bullying, enfrentou provocações por sua aparência e passou a compartilhar essas questões por meio da música”, conta Paula Lopes, diretora de marketing de Dove.

Pais e responsáveis podem contar ainda com diversos materiais disponibilizados em dove.com/cartoons. Um deles revela que meninos e meninas têm as mesmas chances de serem vítimas. Entretanto, entre elas, o assédio é geralmente mais velado, exigindo atenção redobrada dos cuidadores. A psicóloga Nancy Etcoff, especialista na neurociência das emoções, explica: “No caso dos meninos, pode haver agressão, socos. Com as meninas, é muito mais sutil. Tem a ver com reputações e ser ignorada ou excluída do seu círculo social”.

O projeto espera conscientizar 40 milhões de meninas nos próximos dois anos sobre a importância da aceitação corporal. Afinal, conforme mostrou um estudo realizado no Reino Unido, 56% das adolescentes e jovens já sofreram provocações por causa do seu peso, formato do corpo, altura ou cor do cabelo.

Você não foi convidada!

A psicóloga e psicoterapeuta Adriana Marques Moncorvo, que teve dois meninos e só depois uma menina, constata mais hostilidade no ambiente feminino: “Por exemplo, quando a organizadora da festa do pijama não quer convidar todas do grupo, na eleição de quem é a mais bonita e a mais feia da classe... Na minha experiência de trabalho, vejo que as meninas podem ser cruéis umas com as outras, principalmente quando estão com ciúmes ou se sentem ameaçadas. Às vezes, fazem fofocas, facilitam conflitos, disparam críticas para ganhar certo poder. Essa crueldade pode deixar marcas emocionais de lenta cicatrização”.

Entre meninos, Adriana costuma enxergar mais irmandade: “Se chegam a brigar e a se xingar, conseguem resolver a questão sem que os pais precisem intervir. Já as meninas falam mal, detonam roupas e atitudes, internalizam os ataques verbais, remoem mágoas, levam para um lado mais ofensivo. Via de regra, competem por tudo, a diferença é que algumas jogam limpo e outras, não”. É por isso que a psicóloga gosta de um ditado que diz: “A língua não tem ossos, mas é forte o suficiente para cortar um coração. Por isso, tenha cuidado com o que diz!”.

“Enquanto os homens/meninos são capazes de machucar corpos, as mulheres/meninas têm o poder de destruir almas”. Adriana conta que é com essa frase que a americana Kelly Valen inicia o livro Twisted Sisterwood (algo como irmandade distorcida), para mostrar que o ataque masculino é mais corporal, enquanto as meninas são mais vorazes na linguagem. Casada e mãe de quatro filhos (sendo três meninas), Kelly esclarece que acredita na amizade sincera entre pessoas do mesmo sexo e igualmente crê que, com a maturidade e uma boa orientação, as relações tendem a se acertar e a se tornar mais éticas.

Confira a matéria completa na AT Revista deste domingo, 17 de fevereiro de 2019.