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Terça-feira

17 de Setembro de 2019

Animador Pedro Eboli tem seu talento reconhecido

Ele assina a criação de dois desenhos queridos do público: 'Oswaldo', do Cartoon, e 'Cupcake & Dino', da Netflix e do Disney XD

Pedro Eboli trocou a carreira na publicidade para realizar o sonho de trabalhar como animador. Depois de fazer curso no Canadá, ele decidiu montar o projeto de uma série e o apresentou para o estúdio Birdo, de São Paulo, onde trabalhou por dez anos: o resultado disso é 'Oswaldo', que estreou em 2017 e acaba de ganhar a sua segunda temporada no Cartoon Network, com episódios inéditos toda segunda-feira, às 20h30 – a atração também é exibida em vários países da América Latina, na Itália, na Turquia e na África do Sul.

Pedro não parou por aí. Ainda criou 'Cupcake & Dino: Serviços Gerais', de 2018, que pode ser conferido no Disney XD e na Netflix, e assina a produção-executiva do curta 'Monster Pack', de 2014, do Nickelodeon. Na entrevista, o carioca de 38 anos analisa a evolução do mercado de animação no País e fala também do impacto das suas obras na vida dos fãs.

IDENTIFICAÇÃO O tweet de uma fã de Praia Grande levou o Cartoon Network a fazer sessão especial de novos episódios do 'Oswaldo' em vários cinemas do País (incluindo o do Praiamar Shopping, em Santos) no início do mês. Como é a interação com o público da série?

Atitudes como a da Gabriela (Cristtina Ferreira Mendes, de 19 anos) fazem valer a pena todo o trabalho que temos para viabilizar uma animação como a do 'Oswaldo'. Tanto eu quanto o resto da equipe procuramos fazer uma série que gostaríamos de ver e, para isso, nos conectamos com a criança que fomos um dia. Todos nós colocamos um pouco das nossas experiências pessoais nos episódios. Só que o mais legal é que, por mais específicas que as situações sejam, muitas acabaram se mostrando universais para quem assiste à série. Basta ver que o Cartoon já estreou 'Oswaldo' na América Latina, na Itália, na Turquia e na África do Sul e a gente recebe, inclusive, mensagens de pessoas desses países falando sobre o quanto se identificam e se divertem com as histórias.

Qual a idade média do público?

O feedback que temos dos fãs deixa claro que eles não são apenas crianças e adolescentes. Tem gente de 35, 40 anos. Também conseguimos agradar aos pais. Aliás, a Gabi (de Praia Grande) foi convidada para a sessão de São Paulo. Durante o evento, ela me disse que o mais bacana no 'Oswaldo' é que ele é um pinguim e, na série, ninguém toca no assunto. Todo mundo o trata como parte da turma. Nas palavras da própria Gabi, essa é uma baita mensagem de aceitação do diferente.

Esse foi o ponto de partida da série?

Sim. Por volta de 2011, eu já estava morando na cidade de São Paulo e mexendo com animação. Como tinha o sonho de fazer uma série, formatei o projeto e o apresentei para o estúdio em que eu trabalhava, o Birdo – ele continua envolvido na produção do 'Oswaldo', mas, até então, não havia feito nada além de videoclipes e comerciais animados. Minha primeira ideia foi logo a de um pinguim morando no Rio de Janeiro, o que considero uma metáfora óbvia e direta de uma pessoa que se sente um peixe fora d’água. Sem contar que acredito que histórias pessoais são muito mais poderosas. Apesar de ter nascido no Rio e morado na cidade mais da metade da minha vida, eu não curto praia. Sempre fui nerd, preferia jogar videogame e RPG em vez de pegar sol. Também me preocupei em o 'Oswaldo' ser uma série para cima, porque tive uma infância bem feliz, com meus pais me apoiando bastante e um grupo de amigos que eram iguais a mim. Mais do que uma história sobre alguém que se sente deslocado, o 'Oswaldo' mostra a importância de cada um encontrar a sua própria turma e criar laços especiais, que podem durar para sempre. Eu e o pessoal que conheci no Rio quando era pequeno continuamos amigos.

EVOLUÇÃO Como o Cartoon Network reagiu ao projeto?

O canal se identificou tanto com o 'Oswaldo' que aprovou a série logo de cara. A gente ficou muito feliz com isso, porque, historicamente, o Cartoon prima por histórias ancoradas em personagens fortes. E como fazer animação é um trabalho coletivo, o canal contribuiu com o processo, dando opiniões. Outra sorte que tivemos foi que, quando começamos a desenvolver o 'Oswaldo', aconteceu o boom da animação no Brasil. Esse mercado cresce sem parar de 2012 para cá. Na época em que criei o Oswaldo, deviam existir umas três séries nacionais; agora, há um monte.

As animações brasileiras são bem-vistas lá fora?

Já participei de feiras internacionais e a gente não deixa nada a desejar para os desenhos de outros países. Tudo bem, em termos de volume de produção, ninguém bate os Estados Unidos e o Japão, mas os trabalhos assinados por brasileiros são bonitos, de qualidade, além de reconhecidos e premiados no exterior. Alguns já concorreram ao Oscar e se destacaram no festival de Annecy, realizado na França, que é o evento de animação mais importante do mundo. Para completar, o Brasil não é visto só como um lugar que presta serviços.

Isso quer dizer o quê?

Os profissionais daqui não são considerados apenas para prestar serviços como o de animar projetos criados no exterior. O nosso País também é conhecido por desenvolver conteúdos próprios. A nossa massa criativa é forte e leva até a coproduções com outras nações. É maravilhoso que, quando um trailer do 'Oswaldo' ou do 'Irmão do Jorel' entra no YouTube, haja comentários do tipo: “Caramba! Não acredito que são séries brasileiras!” Ao meu ver, esse é um primeiro momento. O próximo passo será as pessoas falarem: “Claro que essas séries são brasileiras, elas são bem feitas”. Afinal, existe muita gente talentosa no Brasil. 

INSEGURANÇA O que despertou sua paixão por animação?

Meu pai também desenhava, mas nunca trabalhou com isso – foi arquiteto e publicitário. As memórias mais felizes que tenho com ele são da minha infância, da gente deitado no chão rabiscando alguma coisa. Quando dou palestra para universitários, reparo que alguns estão bem inseguros com os seus desenhos. E costumo falar: “Sou formado em Publicidade. Na época da faculdade, tinha tanta insegurança com relação aos meus desenhos que preferi o que envolve a escrita na profissão, em vez de apostar no lado mais artístico da carreira. Apenas com o tempo é que tomei coragem para trabalhar com desenho”.

E qual foi o divisor de águas para isso?

Comecei minha carreira de publicitário nos anos 2000, como redator de propagandas. Depois de aproximadamente cinco anos trabalhando na área, eu não aguentava mais e resolvi abandonar tudo. Fui estudar animação no Canadá por um ano. Em 2008, voltei para o Brasil já com um emprego no radar, na Birdo, onde permaneci por uma década e fiz um pouco de tudo. Lá tive, inclusive, a chance de ser produtor-executivo do curta-metragem 'Monster Pack', que foi exibido pelo canal a cabo Nickelodeon. O pessoal que está na escola hoje em dia já tem uma vantagem em relação à minha geração, porque a animação passou a ser considerada uma carreira viável. Quando me formei no colégio em 98, os pais geralmente achavam uma loucura o filho dizer que deseja investir nessa profissão.

No ano passado, você lançou 'Cupcake & Dino: Serviços Gerais', que pode ser conferido no Disney XD e na Netflix. De onde veio a ideia para esse desenho?

Por causa desse projeto, morei um ano e meio no Canadá – o país tem uma indústria relevante em termos de animação e diversos cursos de qualidade, com diferentes durações, assim como os Estados Unidos e a França. Retornei há pouco para o Brasil. No momento, estou morando no Rio de Janeiro. A história por trás do 'Cupcake & Dino' não é tão legal como a do 'Oswaldo' (risos). Procuro me disciplinar a tirar meia hora por dia para fazer um desenho sem qualquer compromisso, apenas para relaxar, para deixar a cabeça fluir. Dessas ilustrações, às vezes, surgem ideias bacanas, como os personagens Cupcake e Dino, dois irmãos que, apesar dos problemas que enfrentam, continuam se amando.

AUTORAL Acha que, da sua infância para cá, os desenhos mudaram bastante?

Sem dúvida! Nos anos 80, as animações eram criadas mais com o objetivo de vender brinquedos. Bons exemplos são 'He-Man' e 'Thundercats'. No caso do 'He-Man', os brinquedos foram desenvolvidos antes mesmo do desenho e lançados junto com o programa de TV. Aí, a partir de meados da década de 90, o mercado mudou completamente, passamos a ter projetos mais guiados pelos autores, roteiristas e desenhistas, em vez de animações mais pautadas pela equipe de marketing.

Por causa disso, surgiram desenhos como 'O Laboratório de Dexter', 'Samurai Jack', 'As Meninas Superpoderosas' e 'A Vaca e o Frango'. Eles são sucesso até hoje, pois têm conteúdo bem autoral. Hoje, as animações estão ainda mais universais e variadas, algumas tratam, inclusive, de temas delicados, profundos e relevantes.

O politicamente incorreto acabou ganhando espaço.

É verdade. E ele permite fazer piadas mais adultas ou sobre questões políticas. Mas existe o lado ruim do politicamente incorreto, que é ofender pessoas a troco de nada, com um humor que soca para baixo. O mais legal é dar voz para quem, historicamente, não tem espaço na sociedade.