Ana Paula Araújo reúne, em livro, dados chocantes de estupro no Brasil

Segundo apresentadora do Bom Dia Brasil, só 10% das vítimas procuram ajuda. "Os principais alvos são crianças", diz

Nos mais de 25 anos dedicados ao jornalismo, Ana Paula Araújo se tornou uma profissional respeitada no País inteiro, que participou de coberturas marcantes como a da ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro – o que deu prêmio Emmy ao Jornal Nacional em 2011. Parte da equipe de jornalismo da Rede Globo desde 1995 e com experiência prévia em rádio, a apresentadora do Bom Dia Brasil deu mais um passo especial na sua carreira: acaba de lançar o seu primeiro livro, Abuso: A Cultura do Estupro no Brasil. Na entrevista a seguir, a carioca de 48 anos fala do processo de produção da obra, que levou quatro anos, e traça um panorama perturbador da violência sexual no País.

CULPA Qual foi o ponto de partida da produção do livro Abuso: A Cultura do Estupro no Brasil?

Esse projeto começou na época do movimento #PrimeiroAssédio (2015). Ao ver todos aqueles relatos e denúncias, entendi que a violência sexual está entranhada no nosso dia a dia, na vida de todos. A partir daí, foram quatro anos de pesquisa. Levei esse tempo, porque, como continuei normalmente com o meu trabalho na TV, tive de aproveitar os feriados e fins de semana para viajar e fazer entrevistas em vários locais do País. Por emendar um depoimento no outro e geralmente eles serem muito pesados, acabei enfrentando desgaste emocional.

Como anda a repercussão do livro?
Recebo diversas mensagens de pessoas desabafando sobre os abusos que sofreram. Em alguns casos, é a primeira vez que falam a respeito. Observo o quanto isso faz bem para elas. Certos relatos, emocionam. Também há quem comenta que, ao ler o livro, viu que não está sozinha e que não deve se sentir culpada pelo que passou. O meu objetivo é justamente esse: ajudar as pessoas e estimular o debate desse assunto, que é tabu.

No decorrer dos capítulos, você mostra bem essa sensação de inadequação, ao afirmar mais de uma vez que o estupro é o único crime em que a vítima sente culpa e vergonha pelo que aconteceu.

Exatamente. Primeiro, a pessoa sofre a violência sexual, depois encara o julgamento social e, muitas vezes, dela mesma, por sentir culpa e vergonha, o que não deveria ocorrer. Para se ter ideia, quando a vítima resolve buscar algum tipo de ajuda, na polícia ou numa unidade de saúde, é comum ser alvo de preconceito ou ser recebida com deboche, desconfiança e descaso, tendo de responder a questionamentos que tentam identificar se ela possui alguma parcela de culpa pelo que aconteceu. Por exemplo: que roupa você estava usando? Já teve relacionamento com esse homem? É preciso mudar o acolhimento dado à vítima de estupro, pois esse crime deixa traumas e desdobramentos vida afora. Alguns reflexos são explícitos – a mulher pode ter transtornos emocionais, como estresse pós-traumático, depressão e automutilação. Outras sequelas são mais sutis: dificuldade para se relacionar com alguém, medos constantes e inexplicáveis, agressividade exacerbada.

SUBNOTIFICAÇÃO Sem contar que o exame para confirmar o abuso, no Instituto Médico Legal (IML), é constrangedor, concorda?

Tudo é constrangedor no processo da denúncia. A vítima precisa relembrar o que aconteceu, ficar frente a frente com o agressor... Quem sofre violência sexual não deve demorar principalmente para procurar atendimento em uma unidade de saúde, porque alguns medicamentos, como a pílula do dia seguinte, têm uma janela para fazer efeito. A lei prevê que todas as unidades públicas de saúde prestem suporte à vítima, com orientação psicológica, medicação para gravidez indesejada e para as doenças sexualmente transmissíveis, exames para coleta de material no caso de a mulher querer registrar queixa. Só que isso dificilmente ocorre. Há unidades de saúde, ao redor do País, que mesmo não dispondo da estrutura necessária não encaminham a pessoa para um lugar onde terá os remédios que precisa e um atendimento adequado. Para completar, apenas 7% dos municípios brasileiros possuem Delegacia da Mulher – a maioria está concentrada na região Sudeste, especialmente no estado de São Paulo. Todas essas falhas no acolhimento das vítimas de violência sexual fazem com que apenas 10% delas procurem alguma ajuda do Poder Público.

Em outras palavras: 90% dos casos acabam não sendo denunciados.

Isso ocorre, pois a maioria das vítimas, além de sentir culpa e vergonha, tem medo e acredita que sua queixa não vai dar em nada, que o agressor não será punido. Afinal, é um crime difícil de provar, já que quase sempre acontece sem testemunhas e, muitas vezes, não deixa marcas, a não ser quando a violência é grande. Mesmo nesses casos, como a mulher costuma demorar para procurar algum atendimento, quando ela faz isso, as marcas não existem mais.

A pandemia, por acaso, provocou um aumento nos índices de violência sexual?

Quando a gente pensa nesse tipo de crime, logo vem à cabeça a imagem do maníaco que ataca a mulher que passa sozinha por uma rua escura. Mas basta olhar os dados para ver que a grande maioria dos casos ocorre dentro de casa. Os autores costumam ser pessoas conhecidas e os principais alvos, crianças – que, por sofrerem ameaças, se silenciam, não prestam queixa. Com a pandemia, as vítimas e os agressores ficaram mais tempo juntos e, como isso dificultou ainda mais a denúncia, num primeiro momento houve uma queda nos registros de violência sexual.

FAMÍLIA No livro, você mostra situações chocantes: pai que abusa da filha; mãe que vai contra a filha, alegando que foi a criança que seduziu o padrasto...

A sociedade, em geral, costuma colocar a culpa na vítima. O próprio estuprador tem o hábito de se isentar da sua responsabilidade. Entrevistei vários na cadeia e ouvi comentários do tipo: “Foi ela que me provocou”; “Ela que quis e, depois, pediu para que parasse”. Muitas mães também jogam a culpa nas filhas por causa da nossa cultura machista e por terem uma dependência emocional ou financeira do agressor... Em hipótese nenhuma, podemos perder de vista que a culpa é sempre do estuprador. De todas as vítimas de abuso que entrevistei, as que se saíram melhor na superação do trauma foram as que tiveram apoio social, de amigos e principalmente da família.

É verdade que, assim como as crianças, as pessoas com problemas mentais também são vítimas frequentes de estupro?

Sim, é o chamado estupro de vulnerável, que inclui não só menores de 14 anos como quem, por qualquer razão, não tem condições de consentir a relação sexual, nem consegue lutar contra o abuso. Entram aí pessoas com problema cognitivo ou alguma deficiência mental. Nesse quesito, também estão as mulheres que acabam bebendo demais ou que acabam usando drogas e ficam com suas propriedades mentais comprometidas. Outro ponto importantíssimo: o prazo para prescrição desse tipo de crime começa a contar a partir do momento em que a vítima completa 18 anos. Ela tem até 20 anos para registrar a denúncia, mesmo no caso de o abuso ter ocorrido quando estava com 5, 6 anos.

PERFIL Como foi ficar cara a cara com diversos estupradores?

Foi muito difícil. Há abusadores que negam terminantemente os seus crimes. Entrevistei um homem que foi condenado há mais de mil anos de prisão por vários estupros. Ele dizia, com a cara mais limpa do mundo, que foi tudo armação, que nunca cometeu nenhuma violência sexual. Em contrapartida, há estupradores que confessam o que fizeram e contam as situações como se fossem fatos corriqueiros, o que desperta na gente bastante raiva e revolta. Além de nós precisarmos compreender que o estupro acontece em todas as idades, em todas as classes sociais e em todas as regiões do País, temos de entender que o perfil do abusador é bem variado. A maioria não possui nenhum problema psiquiátrico. São pessoas normais, que têm família e, dependendo do caso, filhos e que, às vezes, são super-respeitadas no trabalho. Esses homens estão entre nós; muitos, pela forma como se comportam socialmente, ninguém espera algo assim deles. Eu quis entrevistar estupradores para tentar responder uma pergunta que não sai da minha cabeça: por que eles fazem isso? Confesso que, até agora, não tive muito sucesso na busca por essa explicação.

Os estupradores realmente são malvistos dentro da cadeia?

Sim, eles são considerados párias; todos os outros bandidos, mesmo os homicidas mais perigosos, abominam os abusadores. Por isso, os estupradores precisam ficar numa área separada. Eles não podem circular pela cadeia, senão correm o risco de ser atacados, estuprados e até mortos. Para você imaginar como é: quando há uma rebelião, o primeiro lugar em que os bandidos vão é onde os estupradores ficam presos.

Quando a gente pensa no perfil do abusador, logo vem à mente a imagem de um homem. Mas, no livro, você mostra que também há mulheres estupradoras. Conseguiu estabelecer alguma proporção?

Esses casos são mais raros, mas não podemos ignorar que existem mulheres que praticam violência sexual. Elas atacam principalmente as crianças. As que estupram homens são agulhas no palheiro. Como, na sociedade, há a ideia de que o homem gosta de sexo a todo momento, em qualquer situação, poucos têm coragem de ir à delegacia denunciar que sofreram abuso, de uma mulher. Se as mulheres vítimas de estupro costumam ser tratadas com descaso e deboche, o que dizer dos homens que vão registrar queixa...

VINGANÇA Você entrevistou uma mulher de Peruíbe que foi estuprada ao ser assaltada e que esperou dez anos para a Justiça revisar a sentença do agressor. Isso era, de fato, necessário?

Ela se sentiu profundamente injustiçada, ficou revoltada por a juíza não ter acreditado no relato dela e comprado a história absurda do estuprador, de que o sexo foi consensual, pois a vítima queria um aborto legal na rede pública. Observei um ponto em comum entre esse caso e outros: diversas mulheres que sofrem violência sexual guardam bastante raiva do juiz que não acreditou nelas, do promotor que fez pergunta indevida, do policial que brincou com a situação, da família que não as acolheu. Essa raiva, várias vezes, é bem maior ou praticamente igual à que sentem do estuprador.

Há vítimas que anseiam por vingança a ponto de “fazer justiça com as próprias mãos”?

Normalmente, quando o abusador é alguém da família – o pai, o tio ou o padrasto –, a pessoa, além de querer que ele pague pelo que fez, pode até desejar a sua morte. Mas, nas minhas pesquisas, notei que isso fica mais no terreno da imaginação, da fantasia. O único caso que encontrei que foge desse contexto foi o de duas irmãs que conseguiram arranjar um revólver para se vingar do tio e, na hora de matá-lo, não tiveram coragem para ir adiante. Na realidade, o fato de a mulher conseguir denunciar o estuprador já é uma baita libertação.

E o que chamou a sua atenção nos casos de estupros coletivos?

A gente tem a ideia equivocada de que eles acontecem somente em bailes de funk, nas classes mais baixas ou com usuários de drogas. No entanto, há, por exemplo, registros de abusos desse tipo em boates de classe média. Em geral, os estupros coletivos são crimes mais violentos, e eles atingem todas as classes sociais.

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