EDIÇÃO DIGITAL

Domingo

9 de Agosto de 2020

Agarre a chance de mudar

Há dificuldades que nos forçam a virar a chave. Enquanto algumas pessoas se prendem mais ao sofrimento, outras focam em se renovar

Reagir bem diante de dificuldades não é uma característica só de seres iluminados. Dá para treinar a mente – o que é ótimo, pois estudos mostram que pensar positivamente ajuda a viver melhor.

Quem percebeu isso com a própria história foi Paulo Eduardo Aagaard, o Pauê, de 37 anos. Palestrante e escritor, é o primeiro surfista biamputado do Brasil. Conquistou vários títulos após ser atropelado por um trem, aos 18. Hoje, se sente melhor. “Talvez por conta de como olhei aquele momento. Não foi uma sensação de perda. Ao acordar no hospital, me perguntei: ‘Como estou vivo?’”.

Ele explica que ajuda dar chances para si mesmo e para as outras pessoas. Romper com o que tira a paz também é importante. “O que leva tanta gente a viver estressada, angustiada, deprimida? Não adianta se sacrificar para viver em busca de algo de uma forma angustiante. Corro atrás, mas me perdoo e me permito. A gente precisa se sentir bem no caminho”. 

Pauê conta que antes se cobrava demais. Vivia inconformado por se dedicar tanto ao surfe sem se destacar. Aí, no obstáculo, encontrou o caminho que nunca poderia imaginar. “Eu fui tão premiado fazendo o que gostava. Tudo valeu a pena”.

Alexsandra Sardelari reencontrou sua missão num novo negócio (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

Na rotina dedicada, Alexsandra colocava música para os pacientes e fazia questão da humanização com os acamados, esquentando, por exemplo, o balde de alumínio para manter a água do banho quente por mais tempo. Pelas várias cenas de despedida que presenciou, passou a se perguntar: “O que faço por mim, se tudo acaba tão rápido?”.

Alexsandra Sardelari Rodrigues, de 42 anos, é outra pessoa que usou as dificuldades para se reencontrar na carreira. Ela deixou o trabalho de técnica de enfermagem para virar culinarista. Mas a missão continua a mesma: cuidar. “Quando decidi ser enfermeira, tinha o sonho de vestir branco, pelo simbolismo. O meu primeiro emprego foi o que queria: a UTI, onde eu descobri a vida”. 

Esse questionamento a fez girar a chave. Virou mãe e, quando a filha, Isabelle, fez 2 anos, passou a se dedicar à casa em tempo integral, mas por pouco tempo. Ao sentir saudade do trabalho, escolheu um hospital oncológico para retornar. 

“Vi uma doença sem critério. Havia criança, adulto, mãe com recém-nascido. Entendi o quanto não somos só doença, mas pessoas. Os protocolos nem sempre funcionavam, pois somos únicos”.

A nova lição foi importante quando ela mesma adoeceu. Diante de distúrbios hormonais, escolheu se ajudar também com os alimentos. Sentiu que diminuir o glúten e cortar derivados do leite eram atitudes que faziam bem e, com as descobertas na cozinha, viu outra forma de cumprir sua missão.

Ao conhecer Bernardo, criança com síndrome de down da mesma classe da filha, o desafio foi fazer doces de que ele gostasse, sem glúten e sem lactose. Assim, junto com esse cuidado com ela mesma, com a família e com Bernardo, nasceu a Novo Sabor, no Instagram @alexsandrasardelarists. A ideia é ampliar para escolas, para mais gente com restrições alimentares poderem comer com prazer. 

Débora da Luz venceu o câncer duas vezes, descobrindo paixões (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

Coragem e positivismo parecidos foram importantes também para Débora da Luz Oliveira, de 56, aposentada e voluntária. Ela perdeu o estômago e a mama para o câncer, mas não a alegria. Pensou até que poderia ficar sem força no braço, mas foi justamente a busca pela superação que a fez encontrar uma paixão, a canoa havaiana – o grande amor dela junto ao namorado que conheceu após a doença. 

Filha de pescadores, a mulher de voz baixa e espiritualidade grande, conta que turbulências e ondas vêm e vão, mas que a paz não depende disso. “Acho que o câncer apareceu na minha vida para me dizer chega”, afirma ela, sobre o primeiro casamento que não deu certo e o trabalho onde acumulava sofrimento. “Agradeço todos os dias pelos aprimoramentos que passei e passo. Tudo na vida tem um porquê. Depois do câncer, descobri que, antes, eu não era feliz”. 

O seu primeiro câncer foi aos 44 anos, no estômago. Ela não tem mais o órgão. Depois, surgiu um tumor na mama, em 2009. Foi a hora de ficar careca de novo.

Logo na primeira internação, perdeu 29 quilos. Percebeu que os amigos passaram a visitá-la em tom de despedida. Resolveu mudar. “O médico falou que ia ser rápido o meu desencarne, porque o negócio estava muito sério. Mas disse para a equipe médica: ‘Olha, não me falem mais com quanto peso estou, pois não acredito. Daqui pra frente, vai ser tudo diferente’”. 

Numa manhã, se maquiou com cores fortes e um azul nos olhos. Ao receber a primeira visita, a do médico, ele se assustou. “Comentei: ‘Tudo azul, doutor. Com direito a estrelinha na pele’. Ele riu”.

Para ela, até importava a verdade médica, mas a interior era mais forte. Débora conta que entendeu isso ao perceber que, no meio da palavra Deus, há o eu.

“Temos, em cada um de nós, uma partícula divina”. Com fé, oração e crescimento espiritual, ela se recuperou até voltar a ajudar no Instituto Neo Mama, onde é voluntária e faz de tudo. Inclusive, sai para remar. 

“Gosto demais de uma música do Aliados. Ela diz que ‘ontem um sonho acabou, mas a vida continua e eu vou estar sorrindo’. A música ainda diz: ‘sou mais forte, vou viver bem melhor’. E é nisso em que eu acredito”.

Viviane Bianconi fez do diabetes do filho a motivação para mudar com prazer (Foto: Silvio Luiz/AT)

Descobriu o diabetes do filho quando ele tinha 4 anos. Até entender tudo o que o menino precisava, não conseguiu conciliar os cuidados com a carreira. Ele passava mal com frequência na escola e, assim como outras mães que viveram isso, virou uma Mãe Pâncreas. Mas não só. Achando o mundo mais gostoso agora, Viviane Bianconi, de 38 anos, formada em Jornalismo, Gastronomia e iniciando o curso de Nutrição, também acredita que transformar o caminho em felicidade é a melhor rota.

Logo depois, o menino desenvolveu outro problema de saúde: síndrome nefrálgica. Ele não podia ingerir sal. Inicialmente, Viviane se desesperou. “Eu já havia tido que aprender a fazer tudo para ele e aí mais uma dificuldade...O que ele comeria? Tirar o açúcar de tudo e pensar na glicose dos alimentos já era difícil. Eu ainda ia ter que dar comida insossa?”.

Mas, numa conversa com um endocrinologista, ela viu uma luz. Por que não aprender a cozinhar? Assim, Viviane começou. A falta que, a princípio, sentia de estar no trabalho foi sendo preenchida no coração satisfeito da mãe que estava fazendo tudo pelo seu filho. No fim, também por ela. Então, procurou um curso de Gastronomia e se encontrou.

“Fui descobrindo que não precisava só cozinhar para eles. Com o meu filho comendo certo, eu podia ir trabalhar. Com a correia, até deixei a dieta mais frouxa e tive que recuar. Mas notei que todo mundo me pedia ajuda”, diz a chef que faz marmitinhas e tem o perfil @mae_chef, no Instagram. Agora, quer abrir uma cozinha inclusiva, a todos que quiserem comer melhor.

Como eles conseguem?

Segundo Déa Berttran, psicóloga clínica e autora do livro Amores Invisíveis. Casais Longevos da Diversidade, superações pressupõem recursos internos. Ou seja, aprendizados desenvolvidos ao longo da vida, pelas vivências afetivas que nos capacitam a sermos resilientes diante de adversidades.

“Em outras palavras, é vivendo que se adquire a possibilidade de superar dificuldades e crescer com elas. O autoconhecimento é o caminho para aprender a lidar com as próprias características, podendo transformá-las. A psicoterapia é um grande instrumento para isso”.

Bruno Farias, psicólogo clínico, acrescenta que muitas pesquisas sugerem, inclusive, que o hábito de reclamar constantemente de pequenas coisas e se irritar com elas pode condicionar o cérebro a funcionar, entre aspas, na negatividade, perdendo muito da capacidade de raciocínio e de inteligência emocional.

“Quando uma pessoa está em terapia e se reeduca é muito provável conseguir bem mais positividade, inteligência e disposição para dar a volta por cima numa situação negativa, seja como for. Até mesmo a criatividade e a resolução de problemas se desenvolvem com esse hábito comportamental mais saudável”, diz, indicando praticar o positivismo.

Outra prova disso é que um estudo do Centro de Pesquisas de Mindfulness e Awareness da UCLA, na Califórnia, EUA, mostrou, com exames de imagem por ressonância magnética que projetar um dia positivo e ser grato são práticas que podem contribuir para transformar o funcionamento do cérebro. O exame, feito com 180 pessoas, se soma a muitos outros estudos, como o conduzido pelo Centro Médico da Universidade de Duke, nos EUA, que constatou que emoções positivas podem tornar alguém mais saudável.

Para virar a chave, de acordo com Déa, é preciso autoconfiança. Deve-se lembrar que pensar positivamente não é habilidade de poucos. “É algo a ser desenvolvido. É para todos, desde que tenhamos a oportunidade para desenvolvermos essa habilidade. O psicanalista que sigo, Donald Winnicott, crê que toda criança necessita de um ambiente suficientemente bom para vir a ser alguém integrado e com melhor qualidade de vida. Se não tivemos isso, precisamos procurar por esse nosso desenvolvimento”, ressalta ela sobre a importância de educar de forma saudável.

Para Bruno Farias, o cultivo dessas habilidades depende de nossa força de vontade, determinação e autoconhecimento. Mesmo assim, a singularidade marca o ser humano. Não existe receita infalível para se aprender a virar a chave. “Mas Stephen Hawking (cientista) já dizia que, enquanto houver vida, existe esperança. Com essa frase, quis dizer que, por mais dificuldades que ele tenha passado pela sua condição de saúde, sempre acreditou num amanhã melhor. Nós precisamos não só desenvolver, mas colocar essa crença em prática. É acreditar e praticar o nosso melhor. Mesmo que seja de pouco em pouco, para podermos transformar a nossa vida. Esse é um princípio que devemos seguir para nos ajudar”.

Tudo sobre: